Capítulo 33 — O Peso Que Não Sai
Diogo deixou o tronco bater nele.
Heren, da oficina, xingou.
— Eu ouvi! — Diogo gritou.
— Era para ouvir antes!
— Então grita mais cedo!
— Eu gritei!
Diogo pensou.
— Então grita melhor!
Heren apareceu na porta com um martelo na mão e uma expressão que faria madeira pedir desculpa.
— Se você abrir a costela de novo, eu amarro você no telhado.
— Isso não faz sentido médico.
— Faz sentido para mim.
Heren voltou para dentro.
Diogo esperou.
O martelo recomeçou.
Só então puxou a corda e trouxe o tronco outra vez.
O aparelho era simples. Um poste grosso, duas travessas, cabo trançado e um pedaço de madeira densa suspenso por correntes. Heren tinha reforçado os encaixes com ferro bom e colocado couro nos pontos onde a corrente comeria a madeira.
Nada bonito.
Nada frouxo.
Na vila do sopé, aquilo seria equipamento de uma casa marcial bem paga.
Na Montanha, Heren chamava de o negócio para o Diogo parar de quebrar porta.
Diogo chamava de tronco.
Era mais honesto.
Ele puxou até o peso chegar à altura do ombro.
Soltou.
O tronco veio.
Dessa vez, Diogo não ofereceu o peito.
Girou o corpo e recebeu com a placa do antebraço esquerdo.
O impacto entrou pelo couro, passou pelo osso e tentou empurrar o ombro para trás.
A aura respondeu vermelha, curta, grossa.
Diogo segurou.
Não o tronco.
O que veio depois dele.
A pressão queria subir para o peito, procurar dor antiga e acender tudo de uma vez.
Era assim que a Forja de Ira gostava de trabalhar nos níveis iniciais: pancada entrava, raiva respondia, o machado recebia o resto e Diogo ficava mais perigoso à medida que ficava mais quebrado.
Bom em luta.
Péssimo para chegar vivo ao fim de muitas.
Ele desviou o peso para o lado.
O tronco passou raspando.
A aura continuou no braço.
Pouca.
Uma carga pequena, sem ferida nova.
Diogo sentiu aquela carga ficar presa perto do cotovelo como calor esperando direção.
Antes, teria chamado aquilo de fraco.
Durante muito tempo, a lógica mais fácil da Forja de Ira tinha sido quase idiota de tão convincente: se pressão virava força, mais pressão devia virar mais força. Se dor alimentava o machado, suportar mais dor parecia progresso.
O corpo dele ainda carregava a resposta desse raciocínio embaixo das faixas.
Naquela manhã, a pergunta era outra.
Quanto da pancada precisava realmente virar ferimento antes que a Forja reconhecesse que ele a tinha recebido?
Diogo puxou o tronco de novo, mas encurtou a corda um elo.
Soltou.
Recebeu com o antebraço.
Vermelho curto.
Na passagem seguinte, mudou o ângulo e deixou o impacto correr pela proteção do ombro, pelos pés e para o chão. Quase nenhuma aura ficou.
Na terceira, saiu do caminho inteiro.
Nada de carga.
Diogo ficou olhando o tronco oscilar.
A técnica não premiava teatro. Se ele não recebia a pressão, não havia o que forjar. Se recebia mal, a carne pagava antes do machado. Entre as duas coisas existia uma faixa estreita onde impacto podia virar combustível sem precisar primeiro virar dano sério.
Era essa faixa que ele tentava alargar.
Diogo sorriu.
— Aí.
Heren gritou de dentro:
— Se você estiver sorrindo, eu não gosto!
— Cuida do seu martelo!
— Estou cuidando do meu futuro paciente!
Diogo ignorou.
À direita do aparelho, o machado descansava sobre um banco baixo.
O verdadeiro.
Lâmina larga, cabo reforçado, couro gasto no ponto das mãos. Nada de metal dourado. Nada de pedra preciosa presa para dizer que era importante. O ferro era escuro e limpo, e uma lasca de bambu corria dentro do encaixe do cabo como exigia a lei antiga da casa.
Heren tinha deixado a arma ali depois de muita discussão.
Não entregara.
Deixara.
Havia diferença.
Diogo ainda estava proibido de lutar.
Treinar a técnica era outra discussão, e ele ganhara essa por cansaço.
Ou Heren desistira.
Também havia diferença.
Diogo pegou o machado.
A pequena pressão no antebraço encontrou o cabo.
O ferro esquentou.
Só um pouco.
Não vermelho.
Não ainda.
Ele caminhou até um bloco de madeira colocado sobre duas pedras. Havia uma linha de carvão no centro.
Não ergueu o machado acima da cabeça.
Esse era o problema antigo.
Quando o corpo recebia violência, a primeira resposta era devolver maior. Ombro abria. Quadril entrava. Machado descia como se todo golpe precisasse provar que Diogo ainda estava de pé.
Funcionava.
Até o dia em que não funcionasse e ele descobrisse isso sem costela suficiente para aprender depois.
Segurou a arma na altura da cintura.
Pouco arco.
Pouca força.
Deixou a carga fazer o resto.
O machado tocou a madeira.
Tocou.
Não bateu.
A linha de carvão abriu no centro.
O bloco rachou até a metade.
Diogo puxou a arma e ficou olhando.
O braço não tremia.
A costela não tinha aberto.
O machado também não tinha rugido para a Montanha inteira ouvir.
— Heren.
O martelo parou.
— O quê?
— Vem ver.
— Está sangrando?
— Não.
— Então depois.
Diogo fez uma careta.
Melhor assim.
Não queria testemunha para toda melhora.
Puxou o tronco outra vez.
Na segunda passagem, recebeu com o ombro direito. Errou o ângulo. A corrente bateu na travessa e o tronco voltou torto.
Diogo teve meio segundo para escolher.
Podia segurar.
Podia quebrar.
Podia sair.
Saiu.
O tronco passou diante do peito e bateu no poste.
O aparelho inteiro gemeu.
Diogo ficou parado a um passo.
Aquilo doeu mais no orgulho do que uma pancada teria doído no braço.
Ótimo.
Era músculo que também precisava treinar.
Ele recolocou a corrente no eixo.
O ferro da argola não entortara.
Heren tinha escolhido liga cara demais para um pedaço que ninguém veria.
Diogo passou o polegar pelo encaixe.
Era assim na Montanha inteira.
Telhado simples com prego que não soltava no segundo inverno. Bota sem fivela bonita, mas couro que atravessava pedra por anos. Arco que parecia comum até alguém medir equilíbrio. Panela grossa. Cobertor quente. Semente guardada seca. Comida que não desaparecia porque uma semana tinha sido ruim.
Dinheiro raramente aparecia.
Qualidade aparecia o tempo todo.
Diogo nunca somara aquilo em moeda.
Chamava de não precisar pensar se o cabo quebraria quando alguém viesse matar sua família.
Puxou o tronco.
Soltou.
Recebeu.
Dessa vez a aura acendeu e ele sentiu a Forja puxar mais do que queria.
Raiva veio junto.
Silar.
Lina.
O tigre olhando do norte.
A ideia de alguma coisa medir a vila enquanto ele estava ferido.
O vermelho subiu pelo antebraço.
Diogo apertou o maxilar.
Poderia deixar.
Quanto mais entrasse, mais teria para devolver.
Esse era o convite.
Ele soltou a corrente.
Abriu a mão.
A aura vazou no chão em calor curto e morreu.
Nenhum golpe.
Nenhum alvo.
Desperdício, talvez.
Ou escolha.
Diogo ficou olhando a palma vazia.
— Você está bem? — uma voz perguntou do caminho.
Era Davi, com um cesto de maçãs pequenas nos braços.
Diogo respondeu:
— Estou.
Davi examinou o aparelho, o bloco rachado, a costela enfaixada por baixo da roupa e o machado na mão.
— Parece meio mentira.
Diogo apontou para o caminho.
— Vai levar maçã.
— Estou levando.
— Mais longe de mim.
Davi obedeceu sem pressa.
Depois de três passos, perguntou:
— Você treinou não bater?
Diogo fechou os olhos.
Heren começou a rir dentro da oficina.
— Eu ouvi! — Diogo gritou.
O riso piorou.
Diogo ergueu o machado.
Olhou para a oficina.
Depois baixou.
— Viu? — Heren gritou. — Está funcionando!
Diogo decidiu que melhorar continuava sendo uma experiência humilhante.
Mas, quando voltou ao bloco rachado, usou a carga seguinte com metade do movimento.
A madeira abriu exatamente na linha.
Sem estourar a pedra debaixo.
Dessa vez ele não chamou ninguém.