Capítulo 34 — A Marca Que Não Explode

Capítulo 34 — A Marca Que Não Explode

A sexta marca estourou dentro da mão de Kauã.

Pequeno.

Seco.

Dolorido o bastante para ele abrir os dedos na mesma hora.

— Merda.

Cinco pedras continuaram quietas diante dele.

A sexta nem tinha recebido aura direito.

Kauã virou a palma.

Não havia corte. Só um ponto vermelho perto da base do polegar e um tremor fino que ia até o indicador.

O corpo tinha contado antes da cabeça.

Chega.

Era a conta da Marcação Explosiva.

No sétimo nível da Raiz, Kauã já conseguia esconder uma marca pequena em pedra, madeira, metal ou chão e fazê-la responder de longe. A explosão ainda era curta — coisa de um passo em torno do ponto marcado quando ele não forçava —, mas quase nunca era o tamanho que importava.

Cinco marcas ele mantinha sem o próprio corpo começar a reclamar.

A sexta acabara de explicar por quê.

Ele se agachou diante da marca mais próxima e passou dois dedos a um palmo da pedra.

Nada brilhava.

Era para ser assim.

Quem precisava enxergar a marca para ativá-la já tinha perdido metade da utilidade dela. O contato de aura ficava enterrado na superfície como uma intenção que só Kauã reconhecia. Enquanto sustentava uma, quase não sentia custo. Duas davam calor nas pontas dos dedos. Da terceira em diante, o corpo começava a contar junto.

Cinco era conversa.

Seis era cobrança.

Kauã se levantou e caminhou entre as placas sem olhar diretamente para nenhuma. Tentou sentir a posição de cada marca pela pequena tensão que mantinham no fluxo.

Primeira à esquerda.

Segunda no chão.

Terceira no ferro.

Quarta atrás do tronco.

Quinta na flecha.

Na metade do percurso, trocou de direção rápido.

A quarta quase escapou da percepção.

Kauã parou.

Isso sim era erro útil.

Num combate, ninguém pisaria no desenho bonito que ele preparara só para facilitar a vida dele.

Treinava numa faixa limpa perto do lado sul do planalto, longe das casas e longe o bastante do bambuzal para não transformar prática em incêndio. O chão misturava grama curta e lajes de pedra. Heren havia colocado seis placas pequenas a distâncias diferentes porque Kauã pedira coisas para explodir sem você reclamar.

Heren reclamara enquanto fazia.

As placas eram boas.

Claro.

Ferro escuro, grosso só onde precisava, com base baixa para não virar estilhaço. Em cada uma, Heren riscara uma linha branca para mostrar o centro.

Kauã não acertara nenhuma no centro ainda.

Também era proposital.

Mais ou menos.

Ele mexeu a mão até o tremor diminuir.

As cinco marcas permaneciam quase invisíveis.

Era essa a parte que interessava.

Explodir era fácil.

Explodir onde o outro já tinha decidido pisar era outra coisa.

Kauã pegou o arco.

Não criaria a sexta marca.

Usaria as cinco que tinha.

Um inimigo imaginário vinha pela linha principal.

Kauã não mirou nele.

Ativou a primeira marca.

Poc.

Pedra e poeira saltaram para a direita.

Se houvesse alguém ali, pisaria para o lado.

Segunda marca.

O chão bateu de baixo para cima com uma explosão pequena, menos fogo que pressão.

O passo seguinte teria sido para trás.

Terceira.

A placa tocou alto quando a marca estourou na lateral.

Kauã parou.

Não ativou a quarta.

O caminho já estava claro na cabeça.

Direita.

Trás.

Lado cego.

A quarta explosão empurraria o corpo para a quinta.

Bonito demais.

Ele odiou.

Sequência bonita virava sequência aprendível.

O predador do norte tinha olhado a vila reorganizar fogos, patrulha e borda sem precisar atacar.

Kauã não pretendia ensinar ritmo usando explosão.

Pegou uma pedra comum e jogou na quarta placa.

Toc.

Se o inimigo imaginário reagisse ao som, a quinta marca ainda existia.

Se não reagisse, também.

Melhor.

Kauã desfez a quarta marca sem explodir.

A aura voltou pela mão como coceira quente.

Doía menos que criar a sexta.

Aprendeu outra coisa.

Desmontar campo também era técnica.

Ele guardou essa sem nome.

Um assobio veio do norte.

Dois toques curtos e um longo.

Patrulha chamando testemunha.

Kauã ouviu até o fim antes de se mexer.

O ritmo estava certo.

Recolheu as cinco marcas, pegou o arco e cruzou a praça sem correr. Nilo esperava na entrada norte com Lúcio. Bardo segurava o escudo, mas não se preparava para descer.

— Três — Nilo disse. — Como Sandra mandou.

Kauã olhou para Bardo.

— E ele?

— Fica para não transformar chamada em buraco.

Bardo bateu na correia nova.

— Estou sendo responsável contra minha vontade.

Foram Kauã, Nilo e Lúcio.

O primeiro sinal apareceu intacto. O pano protegido continuava no lugar. A pegada felina encontrada dias antes estava quase perdida pela chuva, mas as três pedras pequenas que a marcavam não tinham sido movidas.

Nilo não parou ali.

— Mais alto.

O caminho norte estreitou depois da curva fria. A vegetação baixou. Pedra escura começou a sair do chão em placas grandes, riscadas por veios minerais que seguravam frio mesmo depois de o sol subir.

Kauã sentiu o cheiro antes de ver.

Sangue.

Muito.

Lúcio soltou o gancho da cintura.

Nilo levantou a mão.

Os três diminuíram.

O Touro de Veia Fria estava caído dentro de uma depressão de pedra.

Era grande o bastante para obrigar dois grupos de patrulha a recuar se aparecesse perto da vila. O dorso chegaria ao peito de Diogo. Os chifres grossos tinham veios azulados perto da raiz, e o pelo cinza guardava cristais frios mesmo morto.

Um daqueles chifres estava quebrado.

O outro continuava inteiro.

O corpo, não.

Havia cortes profundos nas pernas traseiras, uma abertura abaixo da mandíbula e marcas paralelas atravessando o flanco como se garra pesada tivesse aprendido exatamente onde o couro deixava de proteger músculo.

Nada tinha comido.

Nem língua.

Nem olho.

Nem a carne macia entre as patas.

Kauã se agachou fora da depressão.

— Não entra ainda.

Lúcio já tirava cordão e carvão.

Nilo olhou ao redor.

— Quantos?

— Um touro — Kauã respondeu.

— Do outro lado.

Kauã não respondeu sem ler.

O primeiro sulco começava na parte alta da clareira. Duas patas pesadas tinham arrancado terra e lançado pedra para trás.

Carga.

O touro descera em linha reta.

No fim do sulco, o chifre quebrado estava cravado numa placa de basalto.

Perto dele havia três fios de pelo escuro.

Não cinza.

Escuro de verdade.

E uma gota de sangue que não carregava o brilho frio do touro.

— Acertou — Lúcio disse.

— Uma vez — Kauã respondeu.

Ele contornou a depressão sem cruzar os rastros.

Depois do impacto, as patas do touro giravam para a esquerda. O animal tentara recuperar o corpo e oferecer o outro chifre.

O predador não estava mais na frente.

As marcas seguintes apareciam atrás da perna direita.

Uma pegada.

Depois outra, mais baixa.

Garra no tendão.

Sangue no chão.

O touro girara de novo, usando o mesmo lado forte para proteger a garganta.

O predador mudara outra vez.

As pegadas passavam por dentro do giro, tão perto do ventre que o chifre inteiro nunca teria ângulo para alcançar.

— Aqui — Kauã disse.

Nilo chegou até onde ele apontava.

Um arranhão curto marcava a pedra. Não era golpe perdido. Era apoio.

O corpo escuro entrara sob o alcance, usara a própria rotação do touro e abrira o flanco de trás para frente.

Depois disso, a luta deixava de parecer luta.

O touro recuara.

O predador fechara a saída.

O touro tentara subir.

Uma marca funda no ombro o fizera cair de lado.

Quando expôs a parte abaixo da mandíbula, alguma coisa terminou.

Nilo olhou para o chifre quebrado.

— Ele apanhou primeiro.

— Sim.

— E depois não apanhou mais.

Kauã acompanhou as pegadas até a borda da depressão.

Elas saíam para o norte.

Quatro marcas claras.

Depois pedra.

O impulso veio inteiro.

Seguir agora.

Antes que chuva, vento ou outro bicho mexesse.

O pé direito de Kauã chegou a sair do lugar.

Nilo não disse nada.

Não precisava.

Kauã recolocou o pé.

— Marca o corpo. Não toca no pelo escuro. A gente volta e chama o grupo leste para testemunhar antes de recolher qualquer coisa.

Lúcio levantou os olhos.

— E o rastro?

Kauã encarou as quatro pegadas terminando em pedra.

— Se ele quer medir quem segue, hoje mede quem volta.

Nilo assentiu.

Fizeram o registro.

Posição.

Feridas.

Direção.

O que sabiam.

O que só parecia.

Na volta, Kauã desfez duas marcas que colocara na trilha sem fazer nenhuma explodir. Nilo percebeu a segunda.

— Você marcou quando?

— Na subida.

— Eu não vi.

— Era o ponto.

— E por que tirou?

Kauã olhou para trás.

— Porque deixar também ensina.

Quando Sandra recebeu o relato, não chamou aquilo de tigre.

Alessandra também não.

Joel escreveu PREDADOR acima da linha e deixou espaço depois.

Heren perguntou se o touro tinha sido comido.

Kauã respondeu:

— Não.

Diogo, sentado por obrigação, perguntou:

— Então matou para quê?

Kauã abriu a mão marcada.

O ponto vermelho da sexta tentativa ainda estava ali.

— Não sei.

Era verdade.

Mas uma parte ele sabia.

O Touro de Veia Fria tinha sido forte o bastante para ferir aquilo uma vez.

Só não recebera uma segunda chance de usar a mesma força.