Interlúdio 34.1 — O Lugar de Quem Vigia

Interlúdio 34.1 — O Lugar de Quem Vigia

A pegada estava dentro da pegada.

Seki Aramori agachou sem tocar.

Mio quase pisou ao lado dele.

— O quê?

Seki apontou.

A marca da bota era velha. Dois dias, talvez três. A chuva da madrugada tinha arredondado a borda e deixado água escura no calcanhar.

No centro dela havia outra pressão.

Redonda.

Pesada.

Quatro pontos curtos na frente.

Garra recolhida.

Mio ficou imóvel.

— Felino.

— Grande.

— Passou por cima.

Seki negou.

— Passou dentro.

A diferença importava.

O norte da floresta da Montanha estava cheio de trilha que parecia trilha até alguém confiar demais nela. Os Aramori sobreviviam ali porque confiavam menos que a maioria. Caçavam por rastro, vento, posição de folha, pelo preso em casca e silêncio de bicho pequeno.

Pegada sobre pegada era comum quando caminho apertava.

Aquilo não era caminho apertado.

Havia quatro metros de chão limpo dos dois lados.

O animal escolhera pisar exatamente onde um homem tinha pisado.

Mio puxou o arco das costas.

Seki segurou a madeira antes que ela colocasse flecha.

— Ainda não.

— Está perto?

— Não sei.

— Então por que não?

— Porque você acabou de mostrar o que faz quando vê isso.

Mio tirou a mão da aljava.

Não gostou.

Por isso obedeceu.

O terceiro integrante da patrulha esperava seis passos atrás. Orin era mais velho que os dois e carregava uma lança curta, boa para mata fechada e ruim para contar vantagem em história. Tinha perdido a ponta da orelha esquerda anos antes e dizia que aquilo melhorara sua audição.

Ninguém acreditava.

— A marca é de antes ou depois da chuva? — perguntou.

Seki examinou a água acumulada.

A pegada da bota tinha água.

A marca redonda dentro dela, não.

— Depois.

Orin parou de brincar com a lança.

A patrulha deveria chegar ao posto de vigia antes do meio-dia, trocar duas peles secas, conferir três armadilhas e voltar pela encosta baixa.

Trabalho pequeno.

Era assim que gente morria com mais frequência.

Trabalho grande fazia todo mundo levar medo suficiente.

Seki levantou.

Não seguiram a pegada.

Seguiram o que conheciam.

Vinte passos adiante havia uma pedra partida na vertical. Depois uma raiz grossa que saía da terra e voltava para dentro. Mais à frente, duas árvores cresciam próximas o bastante para uma pessoa passar de lado.

Os três marcos estavam certos.

No quarto, Mio parou.

— A fita.

Uma tira de tecido escuro deveria estar amarrada por dentro de um galho baixo. Não servia para guiar estranho. Servia para dizer aos Aramori se alguém tinha mexido na passagem estreita.

A fita continuava ali.

O nó também.

Mas o tecido tinha sido puxado para o outro lado do galho, escondendo a parte que os Aramori deixavam voltada para a trilha. Uma das pontas estava marcada por três furos pequenos e um rasgo curto.

Orin aproximou o rosto.

— Prendeu e puxou.

Seki tocou a casca abaixo do galho.

Dois riscos curtos atravessavam o musgo.

Garra.

Mio soltou o ar devagar.

— Mexeu na marca.

Seki olhou para o chão.

Duas marcas de bota.

Uma dele.

Outra de Mio.

Velhas.

Entre as duas, quase escondida pelo barro pisado, uma pressão redonda ocupava exatamente o espaço onde um terceiro pé humano teria procurado chão firme.

— Não falei isso.

Mio não respondeu.

A mata ao redor continuava normal demais.

Insetos.

Folha molhada.

Água descendo por pedra.

Um pássaro pequeno saltou de um galho para outro e bicou a própria asa.

Orin observou o pássaro por tempo demais.

— Se tivesse felino grande aqui, ele não ficava tão baixo.

Seki concordou.

O pássaro também era informação.

Continuaram.

Dessa vez, ninguém colocou o pé no centro da trilha.

O posto Aramori ficava numa elevação de pedra escondida por árvores tortas. Não era torre. Torre anunciava onde o vigia estava. Era uma estrutura baixa de madeira escura, meio enterrada entre raízes, com uma abertura estreita voltada para a faixa norte da floresta.

Dali, quando o tempo ajudava, era possível ver parte da Escarpa dos Vigias acima das copas.

Nunca o caminho inteiro.

Ninguém via o caminho inteiro.

Orin chegou primeiro à entrada.

Parou.

Seki viu a mão dele apertar a lança.

— Porta?

— Inteira.

— Então entra.

— Eu sei.

— Está esperando envelhecer mais?

Orin apontou para baixo.

Havia barro no batente.

Uma mancha curta.

Alta demais para sapato.

Baixa demais para mão.

Seki aproximou o rosto.

Pelo escuro preso numa lasca.

Pouco.

Grosso.

Mio finalmente colocou a flecha no arco.

Dessa vez Seki não impediu.

Orin abriu a porta com a ponta da lança.

Nada saltou.

O posto cheirava a madeira fechada, couro velho e a gordura usada para proteger corda da umidade.

A caixa de comida continuava lacrada.

As duas peles secas estavam enroladas onde deveriam.

O pote de sal não tinha sido tocado.

A faca reserva permanecia presa sob a mesa.

Mio entrou por último.

— Veio procurar o quê?

Seki não respondeu.

Foi até a abertura de vigia.

O banco estava no lugar.

Embaixo dele, o chão era de terra compactada. Os Aramori não cobriam aquela parte com madeira porque barro registrava quem usava o posto quando ninguém estava olhando.

Havia três marcas antigas de bota.

E uma depressão larga demais para pé.

Seki se agachou.

Duas patas dianteiras tinham repousado ali.

Não em qualquer lugar.

Exatamente onde um vigia colocava os pés ao sentar.

Mio permaneceu atrás dele.

— Entrou.

— Sim.

— Comeu alguma coisa?

— Não.

— Quebrou?

— Não.

Orin foi até a abertura.

Parou antes de encostar.

Na madeira inferior havia quatro riscos rasos.

Não cortes de ataque.

Apoio.

Alguma coisa pesada tinha colocado as patas dianteiras na borda e elevado o corpo.

Para olhar para fora.

Os três ficaram em silêncio.

Do posto, a direção mais limpa não era para o acampamento Aramori.

Era para a Montanha.

A névoa escondia o topo naquele momento.

Só a linha escura da floresta subindo até pedra aparecia entre duas copas.

Mio falou baixo:

— Estava olhando para ela.

Seki examinou o banco.

Não havia pelo nele.

A fera não sentara.

Tinha usado o lugar do vigia sem precisar imitar o corpo do vigia.

Orin voltou para a porta.

— Vamos embora.

Mio virou.

— Sem conferir armadilha?

— Armadilha fica.

— Viemos para isso.

— E agora sabemos que outra coisa veio conferir a gente.

Ninguém discutiu.

Seki pegou a tira de couro usada para registrar passagem e fez um único corte nela.

Posto comprometido.

Não escreveu felino.

Não escreveu besta.

Não escreveu Montanha.

Nome cedo transformava medo em certeza ruim.

Saíram pela lateral, não pela trilha de chegada.

Orin escolheu uma descida mais íngreme entre pedras úmidas. Mio foi no meio. Seki fechou.

Depois de cinquenta passos, ele percebeu que estavam fazendo exatamente o que fariam se acreditassem que a trilha principal estava comprometida.

— Para.

Os dois pararam.

— O quê? — Mio perguntou.

Seki olhou para baixo.

Nenhuma pegada.

Rocha.

Olhou para trás.

Nada.

À esquerda, uma folha larga oscilava sozinha.

Mio girou o arco.

Seki segurou o pulso dela.

— Vento.

— Não tem vento.

A folha parou.

Orin ergueu a lança.

Três respirações.

Quatro.

Cinco.

Um galho estalou à direita.

Mio virou a ponta da flecha.

Dessa vez Seki não segurou.

Nada apareceu.

Orin apontou para a direção oposta.

— Anda.

Foram.

Sem correr.

Correr ensinava distância.

No primeiro trecho de terra depois da pedra, Seki verificou as próprias marcas.

Três pessoas.

Orin à frente.

Mio no meio.

Ele atrás.

Nenhum quarto rastro.

Continuaram.

Duzentos passos depois, encontraram uma armadilha antiga de lebre que não pertencia à rota daquele dia.

O laço estava fechado.

Vazio.

A estaca tinha sido puxada da terra e deitada ao lado.

Mio abaixou o arco.

— Pessoa.

Orin tocou a madeira.

— Talvez.

Seki não olhou para a estaca.

Olhou para o chão em torno.

A terra estava marcada por patas pequenas de roedor, duas aves e uma bota velha.

Nenhum felino.

O bicho podia ter passado pela pedra.

Podia ter evitado barro.

Podia não ter chegado ali.

Três sinais verdadeiros podiam formar uma conclusão bonita demais.

Seki deixou a armadilha como estava.

— Não decide agora.

Mio ergueu uma sobrancelha.

— Desde quando você fala igual gente de Nexária?

— Desde que alguma coisa entrou no nosso posto sem comer nossa comida.

Orin quase riu.

Quase.

O som morreu quando ele viu a árvore seguinte.

Na casca, à altura do joelho, havia uma marca antiga dos Aramori.

Um risco horizontal para ida.

Dois para volta.

Aquela árvore tinha um risco.

Só que eles ainda estavam indo quando passaram por ali pela manhã.

Agora havia dois.

Mio encostou os dedos na marca nova.

A madeira estava clara por dentro.

Recente.

— Faca — ela disse.

Seki examinou as bordas.

Não.

Faca cortaria liso.

Aquilo tinha pequenas fibras puxadas para fora.

Uma unha talvez fizesse parecido.

Uma garra, usada com cuidado, também.

Orin tirou a mão de Mio da árvore.

— Chega.

Voltaram sem marcar mais nada.

Essa foi a decisão mais difícil do caminho.

Todo instinto Aramori mandava deixar rastro para quem viesse depois.

Naquele dia, rastro parecia conversa.

Quando alcançaram a pedra de contagem do acampamento, o sol já tinha descido atrás das copas.

A pedra ficava do lado de fora da primeira cerca, achatada no topo. Cada patrulha que voltava deixava ali uma pedrinha pequena por pessoa antes de entrar. O vigia recolhia depois da contagem.

Orin colocou a dele.

Mio colocou a segunda.

Seki segurou a terceira entre os dedos.

Já havia uma pedra sobre a superfície.

Pequena.

Molhada.

Escura.

Nenhum grupo tinha retornado depois da saída deles.

O vigia da cerca percebeu os três parados.

— O que foi?

Seki não respondeu.

A pedra extra não era especial.

Podia ter caído de algum bolso.

Podia estar ali desde cedo e ninguém ter visto.

Podia ter sido deixada por uma criança.

Podia ser nada.

Ele colocou a própria ao lado.

Quatro pedras.

Três pessoas.

Mio contou outra vez.

Orin virou devagar para a floresta.

Nada se moveu entre as árvores.

Seki pegou a pedra que não pertencia ao grupo.

Na parte de baixo havia barro fresco.

E, atravessando o barro, quatro riscos curtos e paralelos.

Ele não chamou ninguém para ver.

Ainda.

Primeiro fechou a mão.

Depois entrou no acampamento com os outros dois.

Atrás deles, o lugar de quem contava os retornos ficou vazio.

A floresta não.




Capa da faixa Tense Crescendo
Faixa bônus · Interlúdio 34.1
Tense Crescendo
Composição original inspirada neste interlúdio.