Interlúdio 32.1 — O Que Não Entrou na Balança
Bino chegou à balança com duas moedas e uma mentira ruim.
Tião contou as moedas.
Depois contou o menino.
Bino tinha barro até a metade da canela, uma manga molhada e o cabelo colado na testa de quem correra por um lugar onde a mãe tinha mandado não correr.
— Eram três — Tião disse.
Bino apertou a boca.
— Minha mãe falou duas.
— Sua mãe fala alto.
— Falou duas alto.
Tião pegou uma das moedas e bateu no braço de madeira da balança.
Tin.
Bino olhou para a rua.
— Se procurar bastante, talvez ache uma terceira passando sozinha.
— Não perdi.
— Melhor. Então sabe onde está.
O mercado de Pedra Baixa já tinha acordado inteiro. Couro pendia de duas bancas. Uma panela de caldo soltava vapor perto da rua estreita. Brás da Venda discutia com um homem que queria pagar preço de ontem por cebola de hoje. Mais adiante, alguém batia pó de um tapete pela janela e fazia três vizinhos sofrerem por uma limpeza que não tinham pedido.
A Montanha aparecia acima dos telhados quando a névoa deixava.
Naquela manhã, deixava pouco.
Bino mexeu o pé esquerdo.
Tião viu.
— Gastou.
— Não.
— Então roubou.
O pé parou.
— Também não.
— Ótimo. Sobraram perder e gastar.
Bino ficou ofendido com a lógica.
— Comprei linha.
— Sua mãe mandou comprar linha?
— Não.
— Então gastou.
— Mas era para a pipa.
Tião inclinou a cabeça.
— Isso muda a moeda?
Bino pensou tempo demais.
— A pipa voa.
— A moeda não.
Ele empurrou as duas moedas de volta.
Bino arregalou os olhos.
— Não vai vender?
— Vou.
— Então por que devolveu?
Tião apontou para dois potes vazios encostados junto à banca de Cira.
A velha estava sentada em um banco baixo, escolhendo feijões com a velocidade de quem tinha passado a vida inteira separando coisa boa de coisa que tentava parecer boa.
— Enche os dois na fonte da praça e leva para ela.
— Isso vale uma moeda?
— Não.
— Então...
— Vale duas viagens.
Bino franziu a testa.
— E a terceira moeda?
— Continua valendo uma moeda.
O menino desistiu de entender Tião antes que o mercado ficasse velho.
Pegou os potes.
Cira não agradeceu.
— Sem derramar.
— Eu sei carregar água.
— Por isso está com a manga molhada.
Bino olhou para a manga como se ela o tivesse traído.
Saiu com os potes.
Tião pegou uma tira curta de madeira e escreveu com carvão:
BINO. DUAS MOEDAS. UMA FALTA. DOIS POTES.
— Isso é contabilidade ou vingança?
Lídia colocou um embrulho de pano ao lado da balança.
Tião não a ouvira chegar.
Ou fingiu.
— Você pisa pesado.
— Você está velho.
— As duas coisas podem ser verdade.
Ela tinha o mesmo queixo da irmã dele e a mesma mania de apertar os olhos antes de discutir. Tião evitava mencionar qualquer uma das duas coisas. Lídia transformava lembrança em conversa, e conversa em pergunta.
Naquele dia ela trouxe pão escuro, queijo e duas fatias de maçã dentro do pano.
— Come.
— Estou trabalhando.
Lídia puxou o prato pequeno dos pesos para o lado e colocou o embrulho no lugar.
Tião encarou o pão ocupando sua ferramenta.
— Isso aí está sem medida.
— Está sem dente também, se você não comer.
— Tenho dentes.
— Metade trabalha quando você mastiga.
Tião pegou o pão.
Não porque ela venceu.
Porque discutir aumentaria o tempo até a primeira mordida.
Luan apareceu carregando uma caixa estreita. Mira vinha atrás com três pesos presos no avental por uma corda.
— Ela pegou o menor — Luan disse.
— Eu levei o menor — Mira corrigiu.
— Sem pedir.
— Eu sabia que ele ia deixar.
Tião estendeu a mão.
Mira entregou o peso.
— Eu ia deixar?
Ela avaliou o rosto dele.
— Não.
— Melhorou.
Mira sorriu e foi para trás da mesa.
Luan colocou a caixa no chão.
Dentro havia seis peças recolhidas na última semana. Peso mexido, moeda raspada, uma medida de madeira com fundo refeito, dois pequenos discos de metal sem marca e uma pedra pintada para parecer minério melhor.
Nada valia muito.
Junto, valia aviso.
Tião mordeu o pão enquanto Luan separava as peças.
— Qual é a pior? — perguntou o rapaz.
Mira apontou para a medida de madeira.
— Essa.
— Por quê?
— Porque parece certa.
Tião mastigou.
Luan olhou para ele.
— É?
— Pergunta para a medida.
— Ela não fala.
— Então mede.
Luan soltou o ar pelo nariz e começou.
Foi quando uma mulher chegou com uma menina pela mão e um saco de farinha pequeno demais para o preço que trazia no rosto.
Tião conhecia a mulher de vista. Costurava bainhas e reforçava roupa de carga. O marido tinha machucado o pé três dias antes e agora passava mais tempo sentado do que a casa podia pagar.
Ela colocou quatro moedas sobre a mesa.
— Preciso de seis medidas.
Tião contou o dinheiro.
— Isso paga cinco.
— Eu sei.
— Pediu seis.
A mulher olhou para a filha.
A menina devia ter uns sete anos. Segurava uma boneca de pano pelo pé. Um dos braços tinha sido costurado com linha de cor diferente.
— Amanhã eu completo.
Tião não respondeu.
A mulher empurrou o saco.
— Faz parecer seis.
Luan parou de mexer nos pesos.
Mira também.
A mulher percebeu os dois olhando e baixou a voz.
— Não estou pedindo para roubar ninguém. É para casa.
Tião colocou o saco no prato.
Acrescentou peso do outro lado.
A haste desceu.
Depois voltou.
Parou.
— Cinco.
A mulher fechou a boca.
— Tião.
— Continua cinco.
— Eu sei quanto é.
— Então não precisa que eu minta junto.
A menina apertou a boneca contra a perna.
Lídia ficou quieta.
Tião abriu a caixa pequena sob a mesa, tirou uma moeda própria e colocou ao lado das quatro.
A mulher não tocou.
— Não pedi isso.
— Pediu seis medidas.
— Eu pago amanhã.
— Pode pagar hoje.
Ela franziu a testa.
Tião apontou para a tira de couro rasgada na lateral da balança.
— Costura.
A mulher olhou para o couro.
Depois para a moeda.
— Isso não vale uma moeda.
— Também não vale ficar rasgando até eu perder o prato no chão.
— Você está fazendo conta errada.
— Minha conta.
A mulher pegou o couro.
— Se eu costurar bem demais, você fica me devendo.
— Aí eu durmo preocupado.
Ela quase sorriu.
Quase.
Sentou no banco de Cira enquanto a velha saiu para reclamar da demora da própria água. A menina ficou em pé ao lado da balança.
Tião colocou a sexta medida no saco.
Não alterou o peso.
Não mexeu a haste.
Não fingiu que cinco eram seis.
Só pagou a diferença antes de fechar a boca do saco.
Luan viu.
Mira também.
Nenhum dos dois comentou.
Bom.
Nem toda coisa certa precisava virar ensinamento só porque dois jovens estavam perto.
A menina tocou um dos pesos pendurados no cinto de Tião.
— Esse é pesado?
— Se cair no pé.
Ela pensou.
— Minha mãe disse que você sabe quando alguém mente.
— Sua mãe fala muita coisa enquanto costura.
— Sabe?
— Não.
A resposta decepcionou.
— Então como você sabe?
Tião apontou para a balança.
— Eu não sei. Eu peso.
A menina olhou para a madeira, para os pratos e depois para a mão direita dele.
Faltavam dois dedos.
Criança demorava menos que adulto para perguntar coisa ruim.
— Eles pesavam muito?
Lídia engasgou com a própria água.
Mira virou o rosto para esconder o riso.
Tião examinou a mão.
— Juntos, menos que uma maçã.
— Então por que não ficaram?
— Porque peso não segura dedo no lugar.
A menina aceitou isso como resposta suficiente.
Adulto teria insistido em história.
Criança só queria saber se o mundo fazia sentido até a próxima pergunta.
Ela apontou para a Montanha entre os telhados.
— É verdade que lá em cima tem gente que come ferro?
Luan soltou um som.
Tião não precisou perguntar de onde vinha aquilo.
Pedra Baixa tinha passado os últimos dias criando Oliveiras suficientes para encher três montanhas.
— Se comessem ferro, eu cobrava por peso.
— E a mulher verde corta voz?
— Palavra demais corta ouvido.
— E tem cem homens escondidos nas árvores?
— Se tiver, estão escondendo bem.
A menina ficou séria.
— Minha mãe falou que não é para chegar perto deles.
A mulher, do banco, ergueu a cabeça.
— Eu falei para não subir onde você não conhece.
— É igual.
— Não é.
Tião bateu o menor peso na madeira.
Tin.
A menina virou para ele.
— Sua mãe falou certo. O resto você deixa para quem viu.
— Você viu?
— Algumas coisas.
— E são assustadores?
Tião pensou em Alessandra usando a bainha em vez do fio.
Pensou em Heren levando ferro surdo para cima.
Pensou em histórias chegando a Pedra Baixa mais rápidas que quem tinha vivido dentro delas.
— São gente — respondeu.
A menina pareceu ainda mais desconfiada.
Talvez fosse a resposta mais assustadora disponível.
Bino voltou carregando dois potes cheios até a boca.
Derramava pelos dois lados.
Cira vinha atrás.
— Eu falei sem derramar.
— Eu não derramei. A água saiu.
— Da próxima vez eu mando o pote sozinho.
Bino colocou os dois no chão, ofegante.
Tião pegou a tira de madeira.
Riscou DOIS POTES.
Depois empurrou as duas moedas de volta para o menino.
— Leva o que sua mãe mandou comprar.
Bino não pegou.
— E a terceira?
— Continua gasta.
— Então ainda devo?
— Deve para sua mãe.
O menino fez uma careta.
— Isso é pior.
— Eu sei.
Bino guardou as moedas.
Antes de correr, apontou para a tira.
— Vai escrever que eu paguei?
— Já risquei.
— Não escreveu “pagou”.
— Você sabe que pagou?
— Sei.
— Eu também.
Bino ficou parado mais um pouco.
— Então por que escreve as outras coisas?
Tião colocou outro peso no prato.
— Porque nem sempre quem precisa lembrar estava aqui.
O menino não entendeu inteiro.
Foi embora mesmo assim.
Lídia terminou de amarrar o couro costurado na lateral da balança. Puxou duas vezes para testar.
— Ficou melhor que antes.
Tião examinou.
— Ficou.
— Vai pagar a mulher?
— Já paguei.
— Pela farinha.
— Pela costura.
Lídia sorriu de lado.
— Claro.
Tião apontou para o pão que ainda restava.
— Você trouxe pouco queijo.
— Você comeu o que tinha.
— Então trouxe pouco.
Ela pegou o pano vazio e bateu de leve no ombro dele.
Mira riu.
Luan finalmente conseguiu provar que a medida de madeira tinha o fundo refeito.
— Achei.
Tião virou para ele.
— Quanto rouba?
Luan encheu, raspou a borda e comparou.
— Quase um dedo por medida.
— Quase não entra no livro.
Luan refez a conta.
Mira já tinha pegado o carvão.
A praça seguiu andando.
Bino correu para casa com a compra da mãe. Cira reclamou que um dos potes estava menos cheio, embora tivesse bebido no caminho. A costureira levou seis medidas sem precisar ensinar à filha que ajuda exigia mentira. Brás da Venda aumentou o preço da cebola outra vez e jurou que não tinha sido ele.
Tião mordeu o último pedaço de pão frio.
Depois bateu o menor peso na madeira.
Tin.
Pedra Baixa já tinha arranjado outra coisa para pesar.