Interlúdio 19.2 — A Balança Não Escolheu Lado

Interlúdio 19.2 — A Balança Não Escolheu Lado

Nara não lutava olhando para Alessandra.

Lutava olhando para onde Alessandra precisaria pisar depois.

O nome veio de um carregador na banca vizinha:

— Nara, não quebra a caixa!

Ela não quebrou.

Usou.

Nara atravessou as barras espalhadas em dois passos. Com o arco na mão esquerda, passou a curva inferior por fora da perna direita de Alessandra e a encaixou atrás do joelho.

Puxou para o lado do poste.

Alessandra precisou mover o pé direito para não cair. Era o passo que Nara esperava. Assim que o pé chegou ao lado do poste, Nara retirou o arco do joelho. A corda de carga ficou ao alcance dela.

Mesmo segurando a faca, Nara prendeu a corda entre os dedos da mão direita e a lançou por cima do antebraço que sustentava a bainha. Então passou pelo lado de fora do poste. A madeira serviu de apoio; a corda apertou e começou a puxar o braço de Alessandra contra ela.

Alessandra deixou o antebraço bater no poste.

Não deixou o resto do corpo ficar para trás.

Antes que Nara alcançasse o outro lado, Alessandra deu um passo curto ao redor do poste e seguiu a corda em vez de resistir a ela. O ombro atingiu o peito de Nara. O antebraço subiu até a clavícula, e a bainha pressionou o cotovelo que mantinha a faca.

A corda perdeu tensão.

As duas ficaram presas entre o poste e a banca, perto demais para usar as armas inteiras.

— Você lê chão — disse Alessandra.

Nara respondeu com uma cabeçada.

O golpe abriu o lábio de Alessandra e empurrou sua nuca para trás.

— E você fala durante briga.

Alessandra devolveu com o joelho na parte externa da coxa. Nara perdeu meio passo, mas apoiou as costas no poste e não caiu.

Com a mão esquerda, girou o arco por baixo da bainha. A curva da madeira entrou entre a arma e o quadril de Alessandra. Um puxão seco arrancou a bainha da direção do corpo.

Alessandra abriu a mão antes que o punho fosse junto.

A arma passou sobre a mesa de grãos à esquerda, derrubou duas medidas de madeira e caiu do outro lado, entre sacos empilhados.

O vendedor começou a reclamar. Viu a faca e decidiu reclamar depois.

Heren estava ajoelhado no meio da rua, junto às barras.

Não escondido.

Trabalhando.

Quebrava pontas com alicate, raspava superfícies e empurrava cada peça para um de três montes.

— Metade é ruim.

Ninguém ouviu.

Ele quebrou outra ponta. O fragmento claro devolveu um som agudo.

— Eu disse que metade é ruim.

Alessandra recuou um passo para sair do alcance da faca. Nara veio junto, abaixou o corpo e varreu com a perna direita.

Alessandra viu o quadril girar antes do pé e retirou a perna. O movimento teria bastado se a mesa de grãos não estivesse atrás dela. Seu calcanhar bateu numa das pernas da mesa e parou.

Nara já sabia que a madeira estava ali.

O arco veio de lado e atingiu a costela exposta.

A madeira não cortou. O impacto entrou fundo e roubou uma respiração inteira.

Nara usou essa falta de ar. Encostou o antebraço armado no ombro de Alessandra e a empurrou de costas sobre a banca de Miro.

A tábua superior rachou sob o peso.

Alessandra ficou atravessada sobre a madeira quebrada, com os pés ainda no chão e o tronco preso entre as bordas. Nara avançou por cima dela. Inverteu a faca e ergueu o cabo na direção da têmpora.

Não tentava abrir uma garganta.

Queria apagar resistência.

Isso tornava a escolha de Alessandra mais simples.

Nara não era assassina.

Continuava sendo perigo.

Uma linha de Aura Azul correu sob a pele de Alessandra e endureceu o antebraço do pulso ao cotovelo. Ela o colocou diante do rosto no instante do golpe.

O cabo da faca bateu na proteção pálida e desviou para fora.

Nara viu o azul.

Esse foi o erro.

Alessandra fechou a mão sobre o pulso da faca. Empurrou o pé contra a travessa inferior da banca e tirou o tronco da madeira quebrada. Ao se levantar, girou por dentro do braço de Nara e a virou de costas para a tábua rachada.

O pulso armado ficou prensado entre a madeira e a palma de Alessandra.

— Solta.

Nara abriu os dedos.

A faca caiu junto ao pé da banca.

Alessandra sentiu a vitória cedo demais.

O arco continuava na outra mão.

Nara baixou a curva da arma por trás do tornozelo esquerdo de Alessandra e puxou. O joelho de Alessandra dobrou. No instante em que a pressão sobre o pulso afrouxou, Nara virou o polegar para o espaço entre os dedos que a prendiam e arrancou a mão dali.

As duas caíram para o lado da mesa de grãos.

Ombro contra ombro, atravessaram os sacos que seguravam a passagem. Alessandra bateu a mesma costela na quina de uma caixa baixa. O casaco conteve a farpa da madeira.

Não conteve a dor.

Nara rolou uma vez e recuperou a faca junto à banca quebrada. Alessandra estendeu o braço por baixo de um saco caído e encontrou a bainha onde ela havia parado, do outro lado da mesa.

Levantaram quase ao mesmo tempo.

Agora havia quatro passos entre elas. Nara estava diante da banca destruída. Alessandra, perto dos sacos espalhados. A troca as levara para baixo na rua; a balança pública ficara a poucos passos atrás de Nara.

Sangue marcava o canto da boca das duas.

Nenhuma parecia satisfeita.

Bom.

Satisfação deixava luta burra.

Nara lançou a faca acima do ombro de Alessandra.

A lâmina cortou o nó que sustentava uma rede de sacos vazios entre dois postes e ficou presa na madeira do poste da direita. O tecido desabou no espaço entre as duas.

Por uma respiração, Alessandra perdeu Nara.

Algo bateu no chão à esquerda.

Um passo curto.

Mas o cabo da faca ainda vibrava no poste à direita.

Alessandra não virou para o som.

Sob a rede caída, Nara chutara uma das medidas de grão para a esquerda. A madeira rolou sobre a pedra e produziu o passo falso. Ela própria se moveu agachada para a direita, escondida pelo tecido.

Sua mão arrancou a faca do poste.

No mesmo movimento, Nara apoiou o pé no travessão baixo da banca quebrada e saltou por cima de um saco. O impulso a trouxe pela direita e mais alta, com o joelho à frente e a faca recolhida junto ao corpo.

Alessandra deixou de procurar o rosto.

Entre os sacos havia uma única faixa de pedra firme. Nara podia saltar de lado, mas ainda precisaria pousar ali.

Alessandra avançou a bainha para o ponto de queda.

Nara desceu sobre o golpe.

A ponta revestida atingiu o estômago antes que os pés dela recuperassem o chão.

O ar saiu de Nara. Alessandra prendeu o pulso da faca com a mão esquerda e empurrou para afastar a lâmina do próprio corpo.

Nara enganchou a curva do arco atrás da coxa direita de Alessandra.

Uma continha o pulso da faca.

A outra prendia a perna com o arco.

Alessandra avançou para quebrar a base de Nara. Nara cedeu um passo e puxou a perna capturada para o lado. As duas perderam o alinhamento ao mesmo tempo.

A balança estava atrás delas.

O ombro de Nara atingiu primeiro um dos montantes. Alessandra bateu contra o centro da armação. O peso das duas fez o braço comprido da balança despencar de um lado e subir do outro.

O prato da esquerda descreveu um arco e acertou o ombro de Alessandra.

O da direita voltou pelas correntes e bateu no punho de Nara.

A faca caiu sobre a pedra.

Tin.

O som foi pequeno.

Pedra Baixa ouviu mesmo assim.

— Mais uma — disse uma voz velha — e peso as duas como sucata.

O homem da barba falhada segurava o montante da balança com a mão esquerda. Na direita faltavam dois dedos. Três pesos pendiam de seu cinto.

Heren ergueu a cabeça por cima dos montes de metal.

— Tião.

— Infelizmente.

Nara ainda mantinha o arco atrás da perna de Alessandra. Alessandra continuava com a mão fechada sobre seu pulso vazio.

Tião retirou um peso do cinto e bateu contra o braço de madeira.

Tin.

— Estão brigando por pedra que não é a mesma pedra.

Heren apontou o alicate para os três montes.

— Eu falei.

Num deles estavam cinco barras cinza-escuras. No segundo, peças claras demais para vir do mesmo veio. No terceiro, pedra comum coberta de pó metálico.

Alessandra soltou primeiro, não por confiança, mas porque agora havia outra coisa para entender.

Nara retirou o arco da perna dela.

— Miro misturou?

Tião encontrou a caixa pequena caída junto à banca. Passou o dedo pela fibra cortada dentro da alça.

— Tirei cinco barras mudas do lote ontem. Coloquei nesta caixa, escrevi o que eram e escondi o nó por dentro.

Ele virou a alça para que os compradores e carregadores vissem o corte.

— Miro tirou a etiqueta. As cinco ainda estão aqui. Todo o resto entrou depois da minha balança.

O corte era pequeno.

A fraude, não.

Heren bateu uma barra verdadeira contra um dos fragmentos. A primeira engoliu o impacto. O falso devolveu um toque agudo.

— Ferro surdo de um lado. Cascalho pintado e liga ruim do outro.

Nara passou o polegar pelo sangue da boca.

— Paguei metade ontem.

— Eu não paguei — disse Heren. — Ele queria o lote inteiro hoje.

Tião fez uma careta.

— Vendeu uma verdade pela metade e tentou vender a mesma inteira de novo.

Alessandra acompanhou a rua por onde Miro fugira. A carroça que o escondera já havia passado. Restavam marcas de roda e gente demais escolhendo não ter visto.

— Vamos buscar.

Tião devolveu a caixa à banca.

— Se correr agora, pega um homem. Se pesar agora, descobre quantas pessoas ele vendeu junto.

Alessandra não gostou.

Por isso escutou.

Tião colocou as cinco barras verdadeiras na balança, uma por uma. Heren corrigiu a posição no prato. Nara conferiu a terra seca nas fendas do metal e separou duas peças que haviam passado por outra rota antes de entrar na caixa.

Duas barras curtas serviam para Heren.

Três longas serviam para reforçar a passagem baixa que Nara precisava fechar.

Tião dividiu o metal e deixou o material falso sobre a banca vazia de Miro, à vista da rua.

Heren pôs moedas no prato das duas barras.

Nara encarou o pagamento.

— Eu não vim vender.

— E eu não vim apanhar. O dia mudou para os dois.

Tião conferiu o peso.

— Justo pelas duas. As três longas continuam dela. O cascalho fica como prova, e Miro continua devendo o restante até aparecer com metal verdadeiro ou dinheiro.

Nara recolheu as moedas.

— Duas.

— Eu contei — disse Heren.

— Estou avisando que não leva a terceira.

Ele amarrou as barras antes que o aviso precisasse crescer.

Nara experimentou o peso das moedas na palma.

— Isso não paga ninguém inteiro.

— Não.

— Então por que dividir?

Heren apertou a corda em torno das duas barras.

— Porque túnel não espera vendedor voltar, e caixa não fica menos necessária por orgulho.

Nara aceitou a resposta sem gostar.

Antes de colocar as três barras no ombro, parou diante de Alessandra.

— Aquilo no seu braço.

— Proteção.

— De onde?

— Minha.

Nara esperou mais.

Alessandra não entregou.

— Nome.

— Alessandra.

— Só?

— Hoje.

Nara assentiu. Guardou a linha azul, a postura e o modo como Alessandra puxara Heren para trás antes de tentar ganhar a luta.

Alessandra indicou com a bainha a travessa usada no salto.

— Você lê mesa também?

— Quando o chão sobe nela.

As duas permaneceram um instante sem decidir se aquilo era provocação.

Tião levantou um peso.

— Se quiserem recomeçar, esperem eu tirar minha ferramenta.

Não recomeçaram.

Heren passou as duas barras pelo ombro.

— Ainda pesa briga que não é sua?

— Só quando tentam quebrar meu ganha-pão.

— Um dia volto para perguntar se ainda está vivo.

Tião ajustou a balança.

— Dependendo de quem perguntar, não.

Heren soltou um som pelo nariz.

Quase riso.

A primeira chuva caiu quando ele e Alessandra começaram a subir. Fraca, fina e fria.

Alessandra sentia a costela a cada degrau. Heren carregava duas barras e uma conclusão.

— A caixa vai funcionar.

— Isso é ruim?

— O metal é pouco.

— Voltamos depois.

Ele viu Pedra Baixa diminuir abaixo deles.

— Da próxima vez, o minério vai ter nome demais.

Nara permanecia junto à balança, observando a trilha.

Não os rostos.

Os passos.

Alessandra transferiu parte do peso para a perna ferida. Nara percebeu de longe e só então se virou.

Quando alcançaram a Montanha, a chuva engrossou. Heren bateu uma barra na outra.

Nenhum som voltou.

Pela primeira vez em dias, o silêncio de um metal pareceu útil.

Ele não descansou ao chegar.

Aqueceu as duas barras até o vermelho escuro, abriu o metal em placas curtas e revestiu a caixa por dentro. Retirou os pregos comuns. Prendeu os cantos com encaixes de madeira para não deixar nenhum metal bom de ouvido atravessar a parede.

Joel permaneceu de um lado da bancada. Sandra, do outro.

Duas testemunhas.

Com a metade da página apoiada na palma aberta, Joel a aproximou da caixa. Heren usou uma pinça de madeira para colocar primeiro o fragmento da porta de Marta e depois a folha rasgada sobre o revestimento escuro.

— Agora? — perguntou Joel.

Heren baixou a tampa e bateu nela com um peso de madeira.

O impacto entrou na caixa.

Não voltou.

Na oficina, o livro de Joel permaneceu fechado. A marca na mão de Diogo não respondeu. A sombra na pedra alta continuou imóvel.

Heren esperou mais uma respiração antes de tocar a tampa.

— Agora ela ficou surda.

Do lado de fora, a chuva fina corria pelo beiral da casa de Marta.

Uma gota se desprendeu da madeira e caiu sobre a roda consertada no colo de Lina.

A gota parou no risco de dente.

Capa da faixa Aura Azul
Faixa bônus · Interlúdio 19.2
Aura Azul
Composição original inspirada neste confronto.