Capítulo 20 — A Brincadeira da Chuva

Capítulo 20 — A Brincadeira da Chuva


A chuva tornou a engrossar pouco depois de Heren fechar a caixa.

Quando Joel guardou a metade rasgada da página, Sandra já não estava na oficina.

Alessandra procurou-a na praça.

— Onde ela foi?

Kauã apontou para baixo com o queixo.

— Segundo marco.

— Sozinha?

— Eu estou vendo.

Para Kauã, aquilo contava como companhia.

Sandra tinha descido porque a chuva apagava pegadas depressa demais. Depois dos últimos dias, deixar a água decidir o que continuava visível parecia outra forma de confiar no inimigo.

O segundo marco ficava onde a trilha deixava de pertencer inteiramente à vila e começava a descer em curvas para Pedra Baixa. Duas pedras altas, uma árvore inclinada e uma corda verde esticada entre as pedras marcavam o limite.

Foi ali que Sandra encontrou o homem.

Ele estava do lado de fora da corda.

Isso importava.

Magro, roupa escura de viagem, cabelo molhado colado à testa. Não carregava símbolo de clã. Uma faca curta ficava na cintura, mais ferramenta do que ameaça enquanto continuasse guardada.

O rosto era bonito demais.

Sandra não gostou disso.

— Para onde?

O homem olhou para a trilha atrás dela.

— Eu ia perguntar se existe passagem por cima.

— Não existe.

— Toda montanha tem passagem.

— Esta não tem para você.

Ele sorriu pouco.

— Direta.

Sandra não respondeu.

A chuva escorreu entre os dois. O homem olhou para a corda verde, para o símbolo da oliveira no peito dela e depois para a lâmina.

Demorou um pouco demais na oliveira.

— Nome — Sandra disse.

— Silar.

Ela esperou.

— Silar Vey.

O sobrenome não fez Sandra sacar. Fez guardar.

— Volta, Silar Vey.

Ele abriu as mãos.

— Nem atravessei.

— Por isso ainda está conversando.

O sorriso dele afinou.

Então Silar falou:

— Deixa ele.

Era a voz de Kauã.

Exata.

O mesmo tom curto. O mesmo jeito de engolir o fim da frase quando não queria discutir ordem.

Sandra não virou.

O som tinha saído da boca do homem à frente dela. A voz, não.

Então a aura dele se moveu.

Pouco.

Um repuxo seco nasceu na base da garganta, subiu por baixo do maxilar e sumiu atrás dos dentes. Não havia clarão, sombra ou fio. Só um pulso estranho, fino demais para um morador comum perceber.

A voz de Kauã voltou.

— Sandra.

Desta vez ela viu os lábios de Silar terminarem o nome.

A espada saiu um palmo.

O sorriso dele desapareceu.

— Técnica de estrada — disse com a própria voz. — Não ataquei ninguém.

— Usa de novo.

Ele olhou para a lâmina.

— Isso é pedido?

— Não.

Silar recuou um passo.

A sola entrou no barro abaixo da corda.

Ainda fora.

Sandra guardou a imagem: a posição do pé, o repuxo de aura na garganta, a pequena falha que vinha antes da voz mudar.

— Você volta para Pedra Baixa — disse. — Não sobe outra vez.

— E se eu me perder?

— Se perder para longe.

Ele soltou uma risada curta. Com a voz dele.

Depois virou.

Sandra acompanhou os primeiros passos.

Silar não correu. Não tentou esconder a direção. Desceu pela trilha como homem que recebera uma ordem e decidira obedecer enquanto fosse conveniente.

Quando passou pela terceira árvore, sumiu atrás da chuva.

Kauã apareceu no barranco logo depois.

— Eu não falei para deixar ele.

— Eu sei.

— Ele usou minha voz.

— Eu sei.

Kauã fitou a curva vazia.

— Quer que eu siga?

Sandra demorou.

Era aí que a decisão ficava ruim.

O homem não atravessara a marca. Não sacara arma. Não ameaçara morador. Mostrar técnica para provocar não era motivo suficiente para transformar uma suspeita em cadáver.

Mas alguma coisa nele tinha olhado para a oliveira tempo demais.

— Não.

Kauã virou o rosto.

— Sandra.

— Marca a direção e volta. Se ele subir de novo, eu quero saber antes do primeiro marco.

— Posso seguir sem chegar perto.

— E ele já sabe sua voz.

Kauã ficou quieto.

Isso resolveu.

Na praça, Sandra chamou apenas quem guardava borda.

Kauã. Riku. Oren. Wellington, porque escutava coisa errada cedo demais. Alessandra se juntou ao grupo no meio, ainda molhada da subida.

Diogo tentou aproximar.

Heren apontou para a mão presa aberta.

— Você não guarda borda nem de cama hoje.

— Eu consigo ouvir sentado.

— Então senta e ouve longe.

Sandra não perdeu tempo com a discussão.

— Homem chamado Silar Vey. Ficou abaixo do segundo marco. Técnica de cópia de voz.

Wellington franziu a testa.

— Imita parecido?

Kauã respondeu:

— Igual.

— Aura?

Sandra tocou dois dedos na própria garganta.

— Repuxa aqui antes de mudar a voz. Pulso seco. Curto.

Alessandra perguntou:

— Você viu duas vezes?

— Duas.

— Mesma assinatura?

— Mesma.

Ela assentiu.

Riku olhou para a trilha.

— Vey não é nome que eu gosto de ver em rota de criança.

— Conhece?

— Conheço histórias. Não o homem.

Sandra cortou antes que história virasse certeza.

— Então guarda como história.

Oren perguntou:

— Regra?

— Ninguém de guarda responde chamado sem ver quem chamou. Se ouvir voz conhecida fora de posição, confirma com corpo. Não corre atrás de som.

Joel, da mesa, levantou o carvão.

— Registro?

— Cultivador desconhecido na borda. Nome declarado Silar Vey. Copia vozes. Não entrou na vila.

Joel escreveu exatamente isso.

Não mais.

Essa era a parte importante.

Silar não tinha entrado.

Ainda não havia crime para registrar.

No fim da tarde, a chuva continuou.

Marta recolheu roupa. Davi levou duas tigelas para a oficina. Lina ficou perto da casa com a roda verdadeira debaixo do braço, irritada porque Oren a consertara sem apagar o risco de dente.

Ela não ouviu a conversa dos cultivadores.

Não sabia o nome Silar Vey.

Não sabia que uma voz podia vestir outra pessoa.

Lá embaixo, depois da primeira curva, Silar parou sob a chuva e repetiu baixinho uma voz que tinha ouvido perto das casas:

— Lina.

Primeiro com a própria voz.

Depois com a voz de Davi.

Na segunda tentativa, ficou perfeita.