Capítulo 21 — A Voz Conhecida
Lina estava escondendo pão quando ouviu Davi chamar.
Isso por si só não era estranho.
Davi chamava por qualquer coisa. Pedra que parecia sapo. Besouro virado. Prego torto. Nuvem com formato de nariz.
O estranho foi de onde veio a voz.
Atrás da casa de Marta.
Do lado da trilha pequena que Sandra tinha proibido.
— Lina.
Ela guardou o pedaço de pão no bolso.
— O quê?
— Vem aqui.
Lina fez careta para a parede.
— Vem você.
Houve uma pausa.
Então a voz de Davi veio mais baixa.
— Eu caí.
Lina largou a roda no degrau.
— De novo?
— Não chama a Marta.
Isso também parecia Davi.
Parecia tanto que irritou.
Lina contornou a casa.
A chuva estava mais forte atrás do telhado. Água descia da calha quebrada e cortava o caminho em duas partes. Não havia Davi perto da cerca.
— Onde você está?
— Aqui.
Mais baixo.
Perto das árvores.
Lina parou.
Sandra tinha proibido aquela parte.
Ela sabia.
Mas Davi tinha dito que caiu.
— Davi?
— Eu machuquei o pé.
Lina olhou para a porta da casa.
Podia chamar Marta.
Davi tinha pedido que não.
Isso era exatamente o tipo de pedido idiota que ele faria antes de levar bronca.
Lina desceu até a cerca.
— Se você estiver mentindo, eu vou contar.
— Tá.
Ela passou pela abertura.
Deu seis passos no barro.
No sétimo, a voz chamou do outro lado de uma árvore.
— Lina.
Ela parou.
Não porque soou errada.
Porque soou certa demais.
O Davi verdadeiro sempre ficava um pouco sem ar depois de gritar na chuva.
Aquela voz não estava sem ar.
Lina abriu a boca.
— Davi?
Na oficina, Davi entrou carregando duas tigelas.
Marta estava discutindo com Heren sobre água fervida.
— Não põe aí — Heren disse.
— É mesa.
— É mesa com ferro quente.
— Então avisa antes de transformar mesa em forno.
Davi deixou as tigelas no lugar que sobrou.
— Cadê Lina?
Marta nem virou.
— Em casa.
— Não está.
A resposta demorou a entrar.
Marta colocou o pano que segurava sobre a bancada.
— Como não está?
— A roda está no degrau. Ela não.
Heren parou de trabalhar.
Marta saiu da oficina.
Davi foi atrás.
A roda estava onde Lina deixara. Uma gota caía do telhado no risco de dente, uma após a outra.
Marta chamou:
— Lina.
Nada.
Foi até o fundo da casa.
— Lina.
Nada.
Abriu a porta. Olhou debaixo da mesa por uma estupidez de mãe que conhecia o tamanho da filha e mesmo assim precisava procurar em lugar impossível.
— Lina!
Davi parou perto da cerca.
Havia pegadas pequenas no barro.
Saíam de casa.
Não voltavam.
— Marta.
Ela viu.
O grito seguinte alcançou a praça.
Sandra chegou primeiro.
Kauã não chegou. Já estava no telhado.
— O que houve?
Marta apontou para o chão.
— Lina sumiu.
Sandra seguiu as pegadas com os olhos.
— Quando viu por último?
— Agora. Eu... agora não. Antes. Ela estava aqui.
— Quanto tempo?
— Não sei.
Marta odiou a própria resposta.
Davi falou:
— Ela veio porque eu chamei.
Sandra virou para ele.
— Você chamou?
— Não.
O menino perdeu a cor enquanto entendia a própria frase.
— Eu ouvi ela respondendo para mim. Da oficina. Achei que ela estava brincando.
Sandra ficou imóvel.
A chuva bateu no telhado.
Uma vez.
Duas.
Kauã desceu sem usar a escada.
— Silar.
Ninguém precisou explicar para Sandra por que ele tinha dito o nome.
— Ainda é suspeita — ela respondeu.
Mas a mão já estava na lâmina.
— Riku, oeste. Oren, casas baixas. Nilo, trilha principal. Alessandra fica com Marta e as crianças. Wellington, marco alto. Kauã comigo.
Diogo apareceu na porta da oficina.
— Eu vou.
Sandra nem virou.
— Não vai.
— Sandra.
— Você não fecha a mão, está com a costela quebrada e não segura o machado. Hoje seu corpo não vota.
Diogo fechou a boca.
Heren apontou para um banco.
— Finalmente uma democracia boa.
Ninguém riu.
Isso foi quando o medo ficou sério.
Sandra chegou à cerca e agachou.
As pegadas de Lina seguiam para baixo.
Pequenas.
Sozinhas.
Por enquanto.
— Kauã.
— Vejo.
— Não corre na frente do que consegue ler.
Ele assentiu.
Marta veio atrás.
Sandra levantou a mão.
— Não.
— É minha filha.
— Por isso fica onde ela sabe voltar.
Marta tremeu.
— E se ela não voltar?
Sandra não respondeu.
Ainda não existia resposta que prestasse.
Ela e Kauã entraram na chuva.
Atrás deles, Davi pegou a roda de Lina do degrau e apertou contra o peito.
Pela primeira vez, odiou ouvir a própria voz.