Capítulo 22 — O Dia Sem Brincadeira

Capítulo 22 — O Dia Sem Brincadeira

A chuva apagava Lina por partes.

Primeiro as bordas das pegadas.

Depois a profundidade do calcanhar.

Depois a diferença entre onde ela tinha corrido e onde apenas escorregara.

Kauã não tentou salvar tudo.

Escolheu o que ainda existia.

— Passou aqui.

Sandra encontrou a marca pequena ao lado de uma raiz.

— Sozinha?

— Até aqui.

Dois passos adiante havia outra pegada.

Maior.

De adulto.

Kauã se agachou sem tocar.

— Pisou depois dela.

Sandra parou ao lado.

Sola estreita. Calçado leve de estrada.

Não provava nome.

Provava outra coisa.

Lina deixara de estar sozinha.

— Continua.

Eles desceram.

Na vila, ninguém brincou.

Não porque Sandra mandou.

Porque ninguém teve coragem.

Rosa estava sentada no chão da oficina, as mãos no colo.

Davi continuava segurando a roda de Lina.

Marta ia da porta à mesa e da mesa à porta, sempre rápido demais para alguém que não estava indo a lugar nenhum.

Alessandra tentou fazê-la sentar.

— Não.

— Você vai cair.

— Então me levanta.

Alessandra não tentou de novo.

Nilo voltou da trilha principal molhado e sem resposta.

— Nada no caminho largo.

Marta virou.

— Isso é bom?

Nilo abriu a boca.

Fechou.

— Não sei.

Ela aceitou aquilo melhor do que aceitaria uma mentira.

Riku entrou pouco depois.

— Oeste limpo.

Oren voltou por último, vindo das casas baixas.

— Ninguém viu ela passar.

Davi apertou a roda.

— Eu ouvi.

Ninguém respondeu.

Ele repetiu:

— Eu ouvi ela falando comigo.

Marta parou.

— Você estava onde?

— Na oficina.

— Então ela sabia que você estava na oficina?

Davi começou a chorar.

— Eu não sei.

Alessandra se ajoelhou diante dele.

— Escuta. A voz não era sua.

— Mas era.

— Parecia sua.

Davi abaixou os olhos.

— Ela ouviu eu.

— Ela ouviu alguém usando você.

Ele olhou para a roda.

Para um adulto, a diferença existia.

Para Davi, naquele momento, não existia diferença nenhuma.

Na trilha, Kauã levantou a mão.

Sandra parou.

O terreno se estreitava entre duas pedras. À direita, mata baixa. À esquerda, uma descida curta terminava num córrego inchado pela chuva.

Alguma coisa estava presa num espinho.

Tecido.

Sandra reconheceu antes de chegar perto.

Marta havia remendado aquela manga com linha mais clara dois dias antes.

Kauã retirou o pedaço com a ponta de uma flecha.

Não havia sangue.

— Ela passou apertada aqui.

Sandra apontou para o barro.

— E ele?

A pegada adulta aparecia do outro lado da pedra.

Agora estava na frente.

Kauã ergueu os olhos.

— Passou ela.

— Ou esperou.

O arco dele subiu.

Sandra ficou imóvel.

Escutou.

Água.

Chuva.

Folha.

A respiração de Kauã.

Mais nada.

— Lina! — ele chamou.

Sandra virou rápido.

Kauã percebeu.

— Minha voz.

— Eu sei.

Os dois esperaram.

Nada.

Kauã chamou outra vez.

— Lina!

Nenhuma resposta.

Sandra começou a descer para o córrego.

Parou na terceira pedra.

Havia sangue nela.

Pouco.

A chuva já levava quase tudo.

Sandra passou dois dedos pelo que restava e levou-os ao nariz.

Humano.

Recente.

Kauã viu alguma coisa mudar no rosto dela.

— Sandra.

Ela já estava andando.

O sangue só aparecia onde a chuva ainda não tinha conseguido alcançar.

Uma gota sob uma folha.

Outra no lado seco de uma raiz.

Depois nada.

O córrego fez uma curva.

Kauã avançou pela direita, passou Sandra, subiu numa pedra e parou.

O arco baixou.

Não por segurança.

Por outra coisa.

Sandra percebeu a mudança antes de ver o chão atrás dele.

— O quê?

Kauã não respondeu.

Ela chegou ao lado.

Lina estava deitada entre a pedra e a margem do córrego.

De lado.

Uma perna dobrada sob a outra.

Cabelo grudado no rosto.

A roupa escura de água e, abaixo das costelas, uma mancha que a chuva não conseguia tornar clara.

Parecia pequena demais para ter chegado tão longe.

Sandra guardou a espada.

Desceu de joelhos no barro.

— Lina.

Nada.

Ela afastou o cabelo molhado do rosto da menina.

— Lina.

Nenhuma resposta.

Sandra pousou a mão sobre o peito dela.

Bem sobre o coração.

Esperou.

A chuva bateu nos dedos, correu pelo punho e entrou pela manga.

Nada.

Ela pressionou a palma um pouco mais.

Esperou de novo.

Kauã ficou imóvel atrás dela.

Sandra tentou uma terceira vez.

Mais devagar.

Como se precisão pudesse fazer aparecer alguma coisa sob aquela mão.

Nada.

A palma permaneceu sobre o coração de Lina.

Kauã abaixou o arco por completo.

Desta vez olhou para as duas.

Sandra continuou olhando para Lina.

Séria.

A mandíbula apertada.

A boca imóvel.

Por alguns segundos, ainda parecia o mesmo rosto que dava ordens na praça, fechava caminhos e decidia quem podia atravessar uma linha.

Então os olhos falharam primeiro.

Uma lágrima desceu.

A chuva levou antes que chegasse ao queixo.

Veio outra.

Sandra não enxugou.

Não tirou a mão do coração de Lina.

Não chamou Kauã.

Não sacou a espada.

Não pronunciou o nome de Silar.

Apenas ficou ali, ajoelhada no barro, olhando para a menina como se ainda houvesse alguma ordem que pudesse dar e fazê-la obedecer.

Não havia.

Por alguns segundos, Sandra Oliveira não deu ordem nenhuma.

Capa da faixa Música Triste
Faixa bônus · Capítulo 22
Onde a Chuva Apaga
Composição original inspirada neste capítulo.