Capítulo 23 — A Criança Que Não Respondeu
Kauã foi o primeiro a falar.
— Mãe.
Ela continuava com dois dedos no coração de Lina.
— Eu sei.
Mas não tirou a mão.
Kauã conhecia Sandra havia tempo suficiente para saber quando uma ordem ainda não tinha conseguido nascer.
Ficou onde estava.
A chuva batia no córrego, na pedra e no corpo pequeno entre os dois.
Sandra afastou o tecido molhado abaixo das costelas de Lina.
Havia um único ferimento.
Curto.
Estreito.
Feito por lâmina pequena entrando de perto.
Não era a quantidade de violência que doía.
Era a proximidade.
Quem fizera aquilo tinha chegado perto o bastante para Lina ver o rosto.
Sandra levou a ponta dos dedos à pele ao redor do corte.
A Aura Verde apareceu quase sem luz.
O corpo de Lina não respondeu.
Outra coisa respondeu.
Um resíduo de aura, fraco por causa da chuva e da morte, repuxou sob os dedos de Sandra.
Seco.
Curto.
Primeiro para dentro.
Depois para cima.
O mesmo ritmo que ela tinha visto subir pela garganta de Silar antes da voz de Kauã sair da boca dele.
Sandra repetiu o toque.
O resíduo fez a mesma coisa.
Não era a técnica de voz.
Era a assinatura de aura do homem que a usara.
Kauã percebeu o reconhecimento no rosto dela.
— É ele?
Sandra tirou os dedos da ferida.
— É.
Não houve dedução depois disso.
Não houve lista.
Ela tinha visto a aura de Silar duas vezes na trilha.
Agora a mesma aura estava no ferimento que matara Lina.
Sandra fechou os olhos da menina.
A mão demorou um pouco sobre o rosto.
Quando levantou, a Aura Verde subiu pelo antebraço.
Falhou antes de chegar à lâmina.
Piscou.
Quebrou.
Sumiu.
Kauã viu.
Sandra também.
Aquilo nunca acontecia daquele jeito quando ela estava inteira.
— Eu vou com você — ele disse.
Ela se levantou.
— Não.
— Sandra.
— Pega Lina.
Kauã não se mexeu.
— Eu vou com você.
— Você volta com ela.
— Tem gente na vila para...
— Kauã.
Ele parou.
A voz de Sandra não estava fria.
Estava pior.
Tinha esforço dentro.
— Leva Lina para Marta.
Kauã olhou para a menina.
Depois para a trilha que descia.
— E você?
— Pedra Baixa.
— Sozinha.
— Sim.
— Isso é uma ordem ruim.
Sandra deu um passo para perto.
— É uma ordem.
Kauã apertou a mandíbula.
— Você viu ele ontem.
A frase acertou.
Sandra ficou imóvel.
— Eu sei.
— Ele não tinha feito isso ontem.
— Eu sei.
— Então não pega uma culpa que é dele.
Sandra olhou para Lina.
Quando respondeu, a voz saiu baixa.
— Pega ela.
Kauã entendeu que aquela conversa não entraria inteira naquele momento.
Guardou o arco nas costas e se ajoelhou.
Passou um braço sob os joelhos de Lina e outro atrás dos ombros.
Levantou com cuidado demais.
O tipo de cuidado que já não mudava nada e, mesmo assim, era obrigatório.
Sandra tirou a própria capa curta e cobriu a menina.
Kauã olhou para ela uma última vez.
— Se ele tiver mais gente?
— Eu vejo.
— Se não vir?
Sandra puxou a lâmina um dedo e guardou de novo.
— Hoje eu pago.
Kauã não gostou da resposta.
Voltou com Lina.
Sandra ficou sozinha ao lado do córrego.
Esperou até o som dos passos dele desaparecer subindo a trilha.
Depois desceu.
Tentou respirar para acalmar.
Na terceira respiração, viu a mão de Lina fria sob a chuva.
Na quarta, ouviu Kauã dizendo que ela tinha visto Silar ontem.
Na quinta, lembrou da própria ordem:
Volta para Pedra Baixa.
Ele tinha voltado.
Só não ficara lá.
Sandra apertou a empunhadura até os dedos clarearem.
O pulso que normalmente alinhava a aura à lâmina não encontrou ritmo.
Uma linha verde apareceu na guarda da espada e morreu.
Ela continuou andando.
Não estava mais precisa.
Continuava sendo Sandra.
Essa diferença ia custar alguma coisa.
Na vila, Kauã surgiu carregando Lina.
Marta viu da porta.
Não precisou ver o rosto.
Mãe reconhece o jeito errado de alguém carregar um corpo conhecido.
Ela correu.
Davi soltou a roda.
A madeira caiu no barro.
Ninguém pegou.
Marta chegou até Kauã e parou a um passo.
— Não.
Kauã não respondeu.
— Não.
Ele se ajoelhou para não obrigá-la a receber Lina de cima.
Marta tocou o cabelo da filha.
O som que saiu dela fez Heren largar tudo que estava segurando.
Davi não se aproximou.
Ficou olhando para a própria mão.
— Foi minha voz.
Alessandra segurou o ombro dele.
— Não foi.
— Ela ouviu minha voz.
— Alguém roubou sua voz.
Davi balançou a cabeça.
Ainda era diferença grande demais.
Wellington viu a trilha vazia atrás de Kauã.
— Sandra?
Kauã levantou o rosto.
— Desceu.
Diogo tentou ficar de pé.
Heren nem precisou mandar sentar.
A mão presa aberta e a costela fizeram isso antes.
— Sozinha? — ele perguntou.
— Ela mandou eu voltar com Lina.
Wellington olhou para o sul.
— Encontraram prova?
Kauã respondeu:
— A aura dele estava no ferimento.
Alessandra entendeu.
— Mesma assinatura da voz?
— Sandra conferiu duas vezes.
Joel abriu o livro.
A mão tremia.
— Nome?
Kauã olhou para Lina nos braços de Marta.
— Escreve ela primeiro.
Joel parou.
Depois escreveu:
Lina foi encontrada abaixo do córrego.
Morta.
Ele demorou antes da linha seguinte.
Assinatura de aura de Silar Vey reconhecida por Sandra no ferimento de Lina.
Não escreveu mais.
Ainda não.
Pedra Baixa apareceu para Sandra quando a tarde já começava a escurecer.
A chuva escondia metade dos telhados. Relâmpagos clareavam as ruas por instantes curtos e deixavam tudo mais escuro depois.
Ela entrou sem perguntar por Silar.
Perguntar faria o nome correr antes dela.
Passou pela venda de sal.
Por uma oficina baixa.
Por duas carroças presas na lama.
Então ouviu uma risada.
Não era voz copiada.
Era a dele.
A taverna ficava diante de um pátio de pedra, com a porta aberta por causa do calor e a chuva formando uma cortina além do beiral.
Silar Vey estava no fundo.
Sentado.
Uma caneca na mão.
Dois cultivadores dividiam a mesa com ele.
Silar bebeu.
Como se Lina ainda estivesse viva.
Sandra atravessou a rua.
Quando chegou à porta, ele levantou os olhos.
A caneca parou antes da boca.