Capítulo 24 — A Mulher da Oliveira
Brás viu a mulher antes de entender por que Silar Vey tinha parado de beber.
Isso ficou na cabeça dele depois.
Pedra Baixa conhecia homem bravo.
Conhecia cultivador querendo cobrar dívida, mercador querendo parecer cultivador e bêbado querendo morrer por uma frase.
A mulher na porta não parecia nenhum dos três.
Estava molhada até os ossos. Cabelo preto preso para trás, agora colado pelo rosto. Roupa escura de combate. Uma oliveira bordada no peito. A mão direita segurava a bainha com força demais.
E havia barro até os joelhos.
Barro da Montanha.
Silar colocou a caneca sobre a mesa.
— Sandra.
Então Brás soube o nome dela.
Sandra não respondeu.
Começou a andar.
O primeiro homem da mesa levantou.
Era largo, usava um bastão curto de ferro e tinha tamanho suficiente para confiar nisso.
— Para aí.
Sandra não parou.
Ele entrou no caminho e estendeu a mão para o ombro dela.
A espada saiu.
Rápida demais.
E larga demais.
O homem recuou por instinto. A lâmina passou onde o peito dele estivera e entrou na borda da mesa.
Madeira abriu.
Sandra precisou arrancar a espada.
Silar viu.
O homem também.
Brás não conhecia Sandra, mas conhecia luta suficiente para entender:
ela tinha errado.
O bastão veio de cima.
Sandra desviou o rosto, não o corpo inteiro. O ferro bateu no ombro esquerdo e fez a perna dela ceder meio passo.
Ela respondeu com o cabo da espada na boca do homem.
Um dente caiu sobre a mesa quebrada.
Antes que ele recuperasse a base, Sandra chutou o lado do joelho.
A perna dobrou.
O homem caiu.
Sandra acertou o punho do bastão com a guarda da espada, arrancou o ferro da mão dele e bateu outra vez com o pomo na lateral da cabeça.
Ele ficou no chão.
Quatro movimentos.
Mais do que ela precisaria em outro dia.
Silar já tinha entendido isso.
O segundo cultivador veio pela direita, magro, faca longa na mão.
Sandra ainda estava voltada para o primeiro.
Ele cortou de baixo para cima.
Ela girou tarde.
A ponta abriu a manga perto do braço e raspou pele.
Sandra segurou o pulso dele com a mão esquerda.
A faca parou a um palmo do rosto.
O homem tentou puxá-la para perto.
Sandra entrou antes.
Testa no nariz.
Joelho no estômago.
Torção no punho.
A faca caiu.
Ela poderia ter encerrado ali.
Não encerrou.
Girou o homem e o lançou contra uma cadeira com força demais. Madeira explodiu sob as costas dele.
O cultivador tentou levantar.
Sandra chutou a mão que buscava a faca.
O osso estalou.
Brás recuou para trás do balcão.
Aquilo não era precisão bonita.
Era raiva usando treinamento.
Silar sacou a própria lâmina curta.
Não foi ajudar os dois.
Foi para a porta dos fundos.
Sandra viu.
Esqueceu o homem aos pés dela e avançou.
O segundo cultivador ainda conseguiu agarrar a barra da roupa dela.
Sandra cortou para trás sem olhar.
A lâmina abriu o antebraço dele.
Não profundo o bastante para matar.
Profundo demais para ser o corte que Sandra normalmente escolheria.
Ele soltou.
Silar atravessou a porta dos fundos.
— Ela está vindo! — alguém gritou.
Não precisava.
Sandra já estava.
A porta dava para um quintal estreito e depois para o pátio de pedra. Silar pulou uma mureta baixa, escorregou na água e recuperou o corpo sem cair.
Era bom.
Não bom o bastante para vencer Sandra inteira.
Naquele dia, talvez bom o bastante para fazê-la pagar.
Ela saltou a mesma mureta.
Silar virou no pátio.
A faca curta veio direto para o abdômen.
Sandra aparou com a espada. Metal bateu em metal. O golpe dele desviou para fora.
Ela deveria ter usado a abertura.
Em vez disso, tentou o pescoço.
Silar abaixou.
O corte passou por cima e arrancou uma lasca do poste atrás dele.
Outro erro.
Ele recuou três passos.
— Você era melhor ontem.
Sandra avançou.
Silar bloqueou o primeiro golpe e quase perdeu a faca.
— Ontem você pensava.
O segundo corte veio baixo. Ele saltou para trás.
— Hoje você só quer me matar.
Sandra acelerou.
O terceiro golpe bateu na faca de Silar com força suficiente para fazê-lo perder a linha do ombro.
Ele sorriu mesmo assim.
— Você me viu e deixou eu ir.
A espada de Sandra parou por uma fração.
Silar entrou.
A faca riscou a lateral dela, acima da cintura.
Dor quente atravessou a chuva fria.
Sandra bateu o cotovelo no rosto dele e abriu espaço.
Silar recuou, agora com sangue no nariz.
— Aí está.
Sandra apertou a lateral do corpo com o antebraço.
O sangue apareceu entre os dedos.
Não era ferida grave.
Era ferida que não deveria existir.
Se estivesse centrada, ele não teria chegado ali.
Uma linha verde tentou subir pela espada.
Chegou à metade.
Quebrou em dois pulsos irregulares e apagou.
Silar percebeu.
— Sua técnica não gosta de raiva.
Sandra ergueu a lâmina.
— Minha espada não perguntou.
Ele correu de novo.
Não para longe.
Para a rua lateral, onde carroças, toldos e gente davam mais coisas para Sandra precisar evitar.
Ela foi atrás.
Brás saiu da taverna junto com metade das pessoas que tinham juízo insuficiente para permanecer dentro.
Ninguém chegou perto.
A rua abriu sozinha.
Silar chutou um banco para trás.
Sandra poderia contornar.
Cortou.
O banco abriu no meio.
Perdeu tempo.
Silar ganhou distância.
Na esquina do poço, virou e lançou a faca.
Sandra inclinou o corpo. A lâmina passou pelo rosto e abriu um risco fino na maçã do rosto.
Ela não piscou.
Silar já puxava uma segunda faca de dentro da roupa.
— Eu consigo fazer isso o dia inteiro.
Sandra caminhou para ele.
— Não consegue.
O céu abriu branco.
O trovão veio depois.
Silar ergueu a faca.
E então falou:
— Sandra...
Na voz de Lina.
Não parecida.
Não infantil qualquer.
Lina.
O mesmo timbre. A mesma idade. Até a pequena aspereza no fim da palavra.
Sandra parou.
O pátio inteiro desapareceu por uma fração.
Veio o córrego.
O cabelo molhado no rosto da menina.
Dois dedos procurando um pulso que não existia.
Silar atacou.
A faca entrou na linha do ombro de Sandra.
Ela conseguiu girar antes da ponta aprofundar, mas o corte abriu carne.
Silar puxou de volta.
O corte deixou o erro de Sandra visível no próprio corpo.
Silar tinha encontrado exatamente onde a fúria abria a guarda dela.
Sandra não ficou mais rápida.
Ficou pior.
Entrou sem proteger a lateral ferida.
Aceitou a segunda tentativa de corte no antebraço para agarrar o punho de Silar.
Ele tentou soltar.
Ela não deixou.
Bateu a testa no rosto dele.
Uma vez.
Silar perdeu a base.
Sandra torceu o punho e o levou contra a parede de pedra.
A faca caiu.
Ele chutou o joelho dela.
Sandra quase caiu.
Em vez de recuar, deu um soco no fígado.
Silar dobrou.
Ela acertou o rosto com o pomo da espada.
Ele bateu de costas na parede.
Sandra poderia ter cortado a garganta.
A lâmina veio alta demais.
Silar se jogou para o lado.
O aço arrancou pedra da parede.
Faíscas verdes morreram na chuva.
Ele rolou no barro e ficou de pé cambaleando.
— Você está errando — disse, quase sem ar.
Sandra foi até ele.
— Eu sei.
Silar perdeu o sorriso.
Porque ela sabia.
E continuava vindo.
Ele pegou a faca caída com a mão esquerda. A direita já não fechava direito.
Tentou uma estocada curta no peito.
Sandra não foi atrás da faca.
Saiu meio passo para a direita, deixou a ponta passar pelo lado do corpo e acertou o punho dele com a guarda.
Finalmente, um movimento pequeno.
Silar sentiu.
Sandra também.
A raiva ainda estava ali.
Mas por um único golpe tinha obedecido à lâmina.
Silar recuou.
Sandra entrou junto.
O corte veio da esquerda para a direita, diagonal, atravessando o peito dele abaixo da clavícula e saindo perto das costelas.
Não abriu o corpo inteiro.
Abriu o suficiente.
Silar perdeu a faca.
Deu dois passos para trás.
O joelho bateu na pedra.
Depois o outro.
Ele tentou levantar.
Não conseguiu.
A luta tinha acabado.
Sandra levou a ponta da espada até a garganta dele.
Silar respirava pela boca.
— Espera.

Ela não respondeu.
— Você não sabe com quem está mexendo.
Sandra olhou para ele.
— Sei com quem estou mexendo.
— Eu não sou ninguém.
— Eu sei.
A resposta assustou mais do que insulto.
Silar engoliu sangue.
— Vey vende rota. Velkhar pagou pela subida. Mavek fez a ponte.
Algumas pessoas ao redor reconheceram um nome. Outras, outro.
Sandra não tirou a espada.
— Quem mandou matar Lina?
Silar hesitou.
— Ninguém mandou matar.
A lâmina encostou na pele.
— Fala certo.
— Pediram prova. Queriam saber se vocês sangravam por gente comum. Se saíam da Montanha. Se tinham nome de clã ou só brincavam de família no alto.
Sandra sentiu a mão apertar.
— Lina.
Silar respirou fundo demais e se arrependeu por causa do corte no peito.
— Eu escolhi a menina.
Agora a praça inteira ouviu.
— O Escrivão do Azar paga bem por resposta que muda caminho — ele disse depressa. — Eu posso levar você até gente maior. Véu Cinzento. Mavek. Velkhar. Você me mata e perde a rota.
Sandra olhou para as pessoas ao redor.
Não havia serenidade nela.
A lateral sangrava.
O ombro doía.
A mão tremia muito pouco sobre a espada.
Ela ainda queria cortar Silar por Lina.
Esse era exatamente o problema.
Então perguntou:
— Quem registra morte em Pedra Baixa?
Ninguém respondeu de imediato.
Brás sentiu vinte rostos tentando não escolher ele.
Um velho perto da cobertura levantou a mão.
— Tenho livro de passagem.
Sandra apontou com a espada.
— Traz.
O velho obedeceu.
Não rápido. As pernas não deixavam.
Abriu o livro sobre uma mesa que alguém arrastou para debaixo do beiral.
— Nome?
Sandra respondeu:
— Silar Vey.
O velho escreveu.
— Ocorrência?
Sandra olhou para Silar.
Quando falou, não falou apenas com o livro.
Falou com Pedra Baixa.
— Assassinato deliberado de Lina, criança da vila sob proteção do Clã da Aura Divina. Ele copiou a voz de uma pessoa em quem ela confiava para tirá-la de casa. Levou a menina para fora da vila e a matou.
O velho parou na palavra matou.
Sandra esperou.
Ele terminou de escrever.
Silar tentou rir.
Saiu tosse.
— Agora virou juíza?
Sandra não desviou o rosto.
— Não.
Ela levantou a voz o bastante para a taverna, o pátio e as janelas ouvirem.
— Escutem.
A chuva bateu mais forte.
— Qualquer um que vier contra alguém do Clã da Aura Divina, ou contra alguém colocado sob nossa proteção, vai responder pelo que causar.
Silar tentou se levantar.
A ponta da espada o fez ficar.
Sandra continuou:
— Ameaça recebe resposta. Ferida recebe julgamento. Assassinato recebe sentença de morte quando a responsabilidade estiver provada.
O velho ergueu os olhos do livro.
Sandra apontou para Silar.
— Não estou sentenciando este homem porque ele é Vey. Não por Velkhar. Não por Mavek. Não por quem pagou.
A voz falhou um pouco no nome seguinte.
— Estou sentenciando porque ele escolheu Lina, usou a confiança dela para levá-la e a matou sabendo o que fazia.
Silêncio.
— Isso vale para qualquer nome. Qualquer família. Qualquer clã.
Silar olhou ao redor.
Procurou alguém que quisesse transformar aquilo em problema de outro dia.
Ninguém se ofereceu.
Sandra falou para o velho:
— Registra a sentença.
Ele molhou o carvão porque a mão estava molhada demais para perceber que o carvão também estava.
— Qual?
Sandra encarou Silar.
— Morte.
O velho escreveu.
Silar começou a falar rápido.
— Eu disse nomes. Eu posso dar rota. Posso mostrar quem me pagou. Você precisa de mim vivo.
Sandra respirou.
O pulso continuava ruim.
A raiva continuava ali.
Mas agora havia uma coisa entre a raiva e a espada.
Lei.
— Silar Vey — ela disse. — Pelo assassinato de Lina, diante de testemunhas e registro, você está sentenciado à morte pelo Clã da Aura Divina.
Ele tentou levantar pela última vez.
Sandra empurrou o ombro dele com a mão esquerda.
Silar caiu de joelhos no barro, voltado para a taverna.
Ela ficou atrás do ombro direito dele.
A espada baixou ao lado do próprio quadril.
Um relâmpago abriu o céu.
Por um instante, Pedra Baixa ficou branca.
Sandra cortou.
A lâmina veio da direita para a esquerda.
Primeiro abriu o vento e a chuva. Uma faixa de gotas se partiu diante do aço e foi lançada para os dois lados.
Depois a lâmina entrou no lado direito do pescoço de Silar.
Não parou.
Atravessou num único movimento e saiu pelo lado esquerdo, levando uma linha de sangue que a chuva quebrou antes de tocar o chão.
Por uma fração curta, a cabeça ainda pareceu no lugar.
Então se separou.
Girou uma vez no ar e bateu na pedra molhada perto do joelho de Brás.
O corpo ficou ajoelhado por menos de um segundo.
Depois tombou para a frente.
O sangue correu entre as pedras do pátio e afinou depressa na água da chuva.
Ninguém precisou imaginar o que Sandra tinha feito.
Pedra Baixa viu o corte inteiro.
Sandra ficou parada com a espada baixa.
A mão direita tremeu uma vez.
Só depois.
O velho largou o carvão.
— Como eu escrevo o fim?
Sandra limpou a lâmina no tecido do próprio antebraço, porque não confiava na mão para procurar outra coisa.
— Sentença cumprida.
O velho escreveu.
Silar tinha um colar quebrado sob a roupa, uma pedra branca dentro da bolsa e uma tira de couro marcada com um traço alto atravessado por três linhas finas.
Sandra recolheu os três.
Não explicou ali.
Já havia explicação demais para um cadáver.
Brás finalmente conseguiu perguntar:
— Quem é você?
Ela guardou a espada.
— Sandra Oliveira.
O sobrenome passou de boca em boca sem ninguém querer admitir que repetira.
Oliveira.
Brás olhou para o símbolo no peito dela.
Agora a árvore tinha nome.
Sandra se virou para a Montanha.
Sangrava na lateral, no ombro e no antebraço. Tinha lutado pior do que sabia. Tinha deixado a fúria abrir lugares que Silar jamais abriria contra ela em outro dia.
E mesmo assim ele estava morto.
Não porque a raiva a tornara melhor.
Porque, no último limite, ela conseguira impedir que a raiva fosse a única coisa segurando a lâmina.
Subiu sem olhar para trás.
Atrás dela, o velho fechou o livro.
Na primeira página vazia depois da sentença, a chuva deixou uma gota.
Brás secou antes que virasse outra história.
Não adiantou.
Pedra Baixa já tinha começado a contar.