Interlúdio 19.1 — O Ferro Que Não Cantava

Interlúdio 19.1 — O Ferro Que Não Cantava

O prego cantou dentro da caixa.

Não alto. Apenas um tin fino sob a tampa quando Heren aproximou a metade rasgada da página.

Mesmo assim, ele arrancou o prego e o jogou pela janela da oficina.

— Esse não.

Joel observava do outro lado da bancada, as duas mãos visíveis.

— Você acabou de colocar.

— Por isso sei que está ruim.

Heren bateu outro prego na borda e aproximou o fragmento retirado da porta de Marta.

Tin.

O metal respondeu antes da madeira.

— Escuta demais.

Sandra permanecia à porta, palmas abertas diante dos fragmentos marcados. Atrás dela, Oren já voltara a fechar a mão em torno do martelo. A regra antiga terminara; o cuidado, não.

— Conserta.

— Com outro ferro. O nosso segura lâmina, dobradiça e sino. Tudo aqui já aprendeu a usar essas três coisas.

Heren pegou uma barra curta e bateu nela com o nó do dedo. O som correu limpo pelo metal.

Bonito.

Errado.

— Preciso de ferro que engula vibração.

— Ferro surdo existe? — perguntou Joel.

— Para quem sabe comprar.

— E onde vende coisa que não escuta?

Heren apontou para baixo da Montanha.

— Pedra Baixa.

Sandra não gostou. Isso não alterou a necessidade.

— Quanto?

— Duas barras curtas. Vou abrir, achatar e revestir a caixa por dentro. Quatro paredes, fundo e tampa sem resposta.

Joel manteve os olhos na página.

— Segura escrita?

— Não sei. Mas impede o prego de conversar com ela.

Alessandra se aproximou da bancada.

— O ferro é especial?

Heren fez uma careta.

— É ruim. Não sustenta fio bom, não devolve pancada limpa e faz sino parecer panela enterrada. A vibração morre antes de atravessar.

Sandra decidiu:

— Vocês descem, compram e voltam. Sem faixa, sem nome de clã e sem pergunta que abra outra rua.

Heren pegou o casaco.

— Se a rua abrir sozinha?

— Fecha sem começar guerra.

Alessandra ouviu a parte dirigida a ela.

Heren também.

Sandra não mandou Wellington porque a costela e o pé sem bota tinham opiniões demais. Diogo continuava preso à maca. Kauã já guardava uma borda desfalcada. E Heren ameaçara recusar a viagem se não levasse alguém capaz de distinguir minério de isca sem tentar comprá-lo na espada.

Alessandra cobriu a costura azul do ombro com um casaco simples. Os dois desceram antes que o sol alcançasse os telhados mais baixos.

A trilha estava úmida, porém comum.

Aquilo quase parecia luxo.

Pedra Baixa surgiu abaixo como um amontoado de casas que aprendera a não crescer: ruas apertadas, telhados baixos e fumaça presa entre pedra e beiral. A Montanha ficava atrás, grande demais para caber no olhar de quem vivia ao pé.

Alessandra não procurou a proteção dela ao entrar.

Gente de mercado percebia pertencimento pela direção em que alguém olhava antes de mentir.

Carregadores puxavam carroças. Martelos batiam em pregos. Uma mulher discutia o preço do sal, e um burro recusava uma poça com mais lama que água. Carvão, couro molhado, feijão cedo e metal velho entravam na roupa sem pedir.

Heren seguiu para a rua das cargas. Alessandra contou saídas, mãos e balanças.

Viu três.

Uma pequena para grãos.

Uma torta para couro.

E outra de braço comprido, seis passos abaixo da terceira banca. Um homem de barba falhada, perna ruim e dois dedos ausentes na mão direita discutia ao lado dela com dois mercadores sem elevar a voz.

Heren reconheceu o velho.

Não cumprimentou.

O velho reconheceu Heren.

Também não.

Em Pedra Baixa, aquilo podia significar desconhecimento, dívida ou amizade antiga.

A terceira banca ficava apertada entre uma mesa de grãos, à esquerda, e um poste de carga, à direita. Uma corda grossa pendia do poste. Atrás de quem comprava passava o corredor das carroças; depois dele, a balança pública ocupava o centro alargado da rua.

Um homem magro demais para o avental largo abriu uma caixa pequena sobre a banca.

— Último lote.

— Miro — disse Heren.

O vendedor sorriu como quem fora reconhecido cedo demais.

— Ainda quebra mercadoria antes de pagar?

— Só a que merece.

Uma fibra cortada permanecia presa por dentro da alça. O nó havia sido desfeito com lâmina, rente à madeira. A tira que deveria estar ali tinha sumido.

Heren passou o polegar perto do corte.

— Quem abriu?

— Caixa serve para abrir.

— Não foi o que perguntei.

Miro afastou a tampa.

Dentro havia barras cinza-escuras, peças claras demais nas pontas e fragmentos cobertos com pó de metal. Tudo fora arrumado para parecer parte do mesmo lote a quem comprasse olhando apenas por cima.

Heren ficou diante da caixa. Alessandra parou meio passo atrás e à esquerda dele, entre a banca e o corredor das carroças.

Ele pegou uma barra curta e bateu contra a madeira.

Quase nada.

O metal engoliu o impacto.

Bom.

Raspou a borda com uma lima. O pó caiu pesado.

Melhor.

— Veio de onde?

— Carga do oeste.

— Oeste tem muito lugar.

— Lugar suficiente para você não precisar saber.

Heren encostou um cinzel na ponta. Um pequeno fragmento se soltou sem cantar.

Uma mão surgiu pela direita e fechou sobre o pulso dele antes que o pedaço tocasse a banca.

Alessandra não ouvira a aproximação.

Isso a irritou mais do que a mão.

A mulher estava entre Heren e o poste de carga. Havia pó claro na bota esquerda e terra escura apenas no calcanhar direito: duas rotas na mesma manhã. O arco curto nas costas era bom demais para caça comum. A faca permanecia na cintura, colocada onde a mão alcançava sem atravessar o corpo.

Ela não viera passear.

— Essa barra já foi paga — disse.

Heren baixou os olhos para a mão em seu pulso. Depois encarou Miro.

— Foi?

O vendedor abriu os braços.

— Houve conversa.

A mulher apertou.

— Houve moeda.

Alessandra entrou pelo espaço à esquerda de Heren e segurou o pulso que o prendia, não o da faca.

— Solta.

A desconhecida mediu primeiro a mão dela, depois a posição dos pés.

— Você primeiro.

— Ele primeiro.

— Está quebrando meu lote.

Heren ergueu o fragmento com a mão livre.

— Seu lote tem pedra misturada.

As duas se voltaram para ele.

— Depois — disse Alessandra.

— Agora seria melhor.

Atrás da banca, Miro soltou a tampa e começou a sair pela esquerda, usando a mesa de grãos para esconder o primeiro passo.

Heren apontou com o cinzel.

— O vendedor está fugindo.

A desconhecida desviou o rosto por uma fração curta. Alessandra soltou seu pulso, agarrou Heren pelo casaco e o puxou para trás, tirando-o da frente da banca.

A mulher viu a barra ainda na mão dele e entendeu outra coisa.

O arco curto saiu das costas. Ela o segurou na horizontal e avançou com a curva inferior contra o antebraço de Alessandra. A madeira empurrou a mão da espada para fora do corpo e abriu espaço para a faca aparecer.

Não inteira.

Só prata suficiente para dizer limite.

Alessandra manteve a lâmina na bainha. Bateu a madeira revestida contra o punho da faca, e o metal recuou meio dedo.

A desconhecida chutou o tornozelo da perna que Alessandra mantinha à frente. Alessandra retirou o pé, mas o calcanhar encontrou a caixa pequena caída atrás dela. O peso foi para o lado errado.

O ombro adversário entrou em seu peito.

Alessandra caiu de costas contra a borda da banca.

As barras saltaram da caixa e se espalharam entre o poste e o corredor das carroças.

Nenhuma cantou.

O mercado ao redor, sim.

Miro atravessou o corredor por trás de uma carroça e desapareceu na rua seguinte.

Heren acompanhou o espaço vazio onde ele estivera. Depois examinou as duas mulheres.

— Excelente.

A desconhecida recuou até o poste de carga, arco na mão esquerda e faca curta na direita. As barras ficaram entre ela e a banca.

Alessandra saiu da madeira, ganhou três passos de distância e parou junto à mesa de grãos. Manteve a espada embainhada, baixa, com a ponta voltada para o chão.

— Última chance.

— Para você?

— Para a conversa.

A mulher conferiu a rua por onde Miro fugira. Depois viu o ferro espalhado entre as duas.

— A conversa fugiu.

Ela avançou pelo lado do poste.

Capa da faixa Vem Tranquila
Faixa bônus · Interlúdio 19.1
Vem Tranquila
Composição original inspirada neste interlúdio.