Capítulo 8 — O Nome Na Pedra

Capítulo 8 — O Nome Na Pedra

Sena Mizuhara não tinha subido a Montanha.

Essa era a primeira coisa que precisava continuar verdadeira. A segunda era que dois homens de sua equipe já haviam desaparecido tentando prová-la.

Ela estava no leste, abaixo dos Paredões Claros, com uma joelheira rachada, três selos molhados presos à manga e a sensação desagradável de que a pedra olhava de volta.

O Clã Mizuhara sabia ler fluxo. Não como os grandes nomes de Nexária ou as casas vetoriais, mas o bastante para perceber quando água, pedra e ar deixavam de conversar direito.

Ali, nada conversava direito.

A água da nascente corria para cima. Apenas um dedo, apenas quando ninguém a encarava — mas corria.

— Senhora Sena.

Tomo estava atrás dela, segurando a lança curta com as duas mãos. Era jovem demais para compreender que medo também era informação e velho o bastante para fingir que não sentia.

— Fala.

— O selo do terceiro ponto apagou.

Sena olhou para a pedra.

O selo não apagara.

Havia sido virado.

O papel continuava colado à parede úmida, mas os caracteres apontavam para dentro, como se alguém tivesse puxado a escrita pelo outro lado da rocha.

— Não toca.

Tomo afastou a mão.

— Eu não ia.

— Ia.

Ele se calou.

A terceira coisa que precisava continuar verdadeira era que aquilo não era um ataque.

O Clã Mizuhara não estava ali para invadir o alto. Mediria apenas uma variação de fluxo: contrato pequeno, pagamento baixo, risco aceitável.

Essa era a mentira oficial.

A verdade era pior. Alguém pagara para descobrir por que a Montanha Esquecida começara a dobrar água antes de dobrar gente.

Sena não gostava de contratos sem rosto. Gostava ainda menos de fingir que sua casa não precisava de Prata Espiritual para continuar respirando.

Ela encostou dois dedos na pedra.

Frio demais.

— Recolhe os selos.

Tomo piscou.

— Todos?

— Os que ainda forem nossos.

Antes que chegasse ao primeiro ponto, a água formou uma boca sobre a pedra.

Ela falou sem som.

Tomo parou.

Sena puxou a faca e cortou a própria palma.

— Tomo.

O rapaz não respondeu. A boca repetiu alguma coisa, e ele deu um passo. Sua mão se ergueu para arrancar o selo.

— Tomo!

Dessa vez, ele se virou assustado.

— Eu respondi?

— Não sei.

— Ouvi minha irmã.

— Sua irmã está em Nexária.

— Eu sei.

A água sorriu.

Sena passou sangue no selo. O papel chiou, e a escrita voltou para fora por um instante. Em seguida, uma palavra surgiu na pedra, desenhada em vapor frio.

Mizu.

Tomo leu.

— É o começo do nosso nome.

— Não é começo. É isca curta.

A pedra bateu.

Tac.

Tac.

Tac.

Uma pausa.

Tac.

Depois, um quinto som, mais baixo.

Sena arrancou o selo com a faca. A pedra soltou ar quente, como pele abrindo respiração.

— Vamos embora.

— Para onde?

Boa pergunta.

As trilhas que desciam para o leste e subiam para a Montanha ainda existiam. Entre elas, porém, uma terceira passagem acabara de surgir.

Limpa. Estreita. Nova.

Entrava na pedra.

— Não para ali — Sena disse.

Do outro lado da fenda, uma praça apareceu por um instante. Sena viu gente, uma fonte, um machado, uma mulher de lâmina curta, um homem largo diante de água escura, um prisioneiro e uma criança olhando para onde não devia.

Ela recuou.

— A Montanha está mostrando o alto.

— Isso é impossível.

— Sim.

A fenda fechou. Em seu lugar, a pedra escreveu outro nome, não em vapor, mas em corte.

Sandra.

Sena não conhecia aquela mulher. Mesmo assim, teve certeza de que a pedra escolhera o nome errado de propósito.

Na praça, Sandra mandou que ninguém se mexesse.

Ninguém obedeceu por inteiro. Gente assustada sempre se movia um pouco por dentro; cabia a ela impedir que esse pouco virasse passo.

Os cinco riscos secavam devagar. Wellington permanecia diante deles, com a mão perto da espada e a costela cobrando cada respiração. Arlo recuperara parte da cor, mas não o nome completo. Davi estava atrás da fonte. Riku Takenaga, de pé sob a mira de Kauã, entregava intenção nos joelhos, ombros e respiração.

Sandra gostava de gente legível.

Riku não gostava de ser lido.

Heren se aproximou das marcas com uma vareta de bambu, uma moeda de Cobre Espiritual, um pedaço de ferro e uma tira de couro.

— Teste simples?

— Simples não existe mais — Sandra respondeu.

— Então teste pequeno.

A moeda, o ferro e o couro não provocaram reação. Quando o bambu chegou ao quarto risco, a marca escureceu.

— Não escolheu o bambu — Heren disse.

Wellington percebeu.

— Escolheu o risco longo.

— O eixo — Alessandra completou.

Sandra se voltou para Riku.

— No sul, quem ocupava o eixo da formação?

Ele sorriu.

— Vai perguntar como se eu fosse seu homem?

Diogo avançou um passo.

— Diogo — Sandra chamou.

Ele parou.

Riku viu a obediência e gostou.

— Você manda bem nele.

Diogo sorriu sem humor.

— Ela manda em gente inteligente também. Testa.

Riku voltou os olhos para Sandra.

— Eu ficava no eixo. Conhecia a rota.

— Então a Montanha marcou você como eixo.

— Ou marcou quem sabia sair.

Wellington se aproximou.

— Você saiu?

Riku não respondeu. O rosto entregou a verdade: não saíra.

Fora devolvido.

Sandra apontou para o quinto risco.

— Quem era o ponto?

Riku ficou imóvel por tempo suficiente.

— Nome — Diogo exigiu.

— Não.

— Você tem muito apego aos dentes.

— Ele era garoto.

A praça silenciou.

— Idade — Sandra disse.

— Dezesseis.

— Nome.

A raiva entrou na defesa de Riku.

— Ele era bom. Melhor que muito velho.

— Nome.

— Iori.

O quinto risco escureceu.

Heren afastou o bambu. A marca continuou negra.

— Agora ela tem o nome — Joel disse.

Wellington olhou para Riku.

— Ou já tinha e queria ver se você entregava.

Riku perdeu a cor.

Diogo disse a parte suja:

— Parabéns.

Riku atacou.

Seu joelho buscou a costela antiga de Diogo. Diogo recebeu, fechou a mão no ombro do Takenaga e soltou no instante em que o outro esperava resistência. Riku passou do próprio eixo. O antebraço de Diogo arrancou o ar de seu peito.

Ele recuou três passos. A flecha de Kauã já apontava para seu pescoço.

— Chega — Sandra disse.

Riku cuspiu na terra.

— Ele falou do garoto.

— E você deixou de ser prisioneiro para virar lutador — Wellington disse. — Diogo deixou de ser parede. Todo mundo olhou.

A marca clareou um pouco.

Alessandra entendeu.

— E enquanto todos olharam...

A dobradiça estalou. O livro preso ao peito de Joel abriu dentro da tira de couro, e uma página se rasgou pela metade.

O papel voou em direção à marca. Kauã o prendeu ao chão com uma flecha antes que tocasse o quinto risco.

Heren leu de longe.

— Página de nomes. Crianças.

Davi ficou imóvel. Marta o puxou para trás da própria perna.

Sandra caminhou até a folha devagar. Cada pessoa precisava aprender como alguém se aproximava de algo que desejava ser tocado.

— Joel. Diga bem baixo, só para mim, os nomes que lembrar sem olhar.

— E se eu esquecer alguém?

— Melhor esquecer agora do que entregar no papel.

Joel falou perto do ouvido dela.

Heren levantou a folha com uma pinça. Um brilho verde curto acendeu na ponta da lâmina de Sandra.

A página queimou sem chama grande. Deixou cheiro de tinta e perda.

Davi começou a chorar. Marta não mandou que parasse.

Brina entrou pela saída leste trazendo uma mulher presa pelo pulso com corda de patrulha, embora a amarração estivesse frouxa. Ela caminhava por escolha, não como capturada.

Tinha o cabelo preso no alto, roupas cinza-azuladas encharcadas nas mangas e três selos rasgados pendurados no braço.

Riku deu um passo. Kauã apontou a flecha.

— Não.

Ele parou.

A mulher o reconheceu.

— Riku Takenaga.

— Sena Mizuhara.

Diogo soltou um som baixo.

— A borda inteira decidiu visitar.

Sandra encarou Sena.

— Você está dentro da vila.

Sena ergueu as mãos.

— Não por escolha.

— Ninguém entra aqui usando essa frase.

— Então por prova.

Ela lançou um selo molhado antes da linha da praça. O papel bateu na terra sem escurecer ou se mover.

Heren o pegou com a pinça.

— Selo de contenção.

Sena olhou para ele.

— Era.

— O que virou?

— Convite.

— Para quem? — Wellington perguntou.

Sena olhou para a fonte, depois para Davi e para o papel queimado.

— Para o que vocês protegem.

A praça pareceu menor.

— Explica — Sandra ordenou.

— A nascente abriu uma fenda, mostrou esta praça e escreveu seu nome na pedra.

— Quem contratou vocês?

Sena ficou quieta.

Riku riu.

— Não vai responder.

Ela se voltou para ele.

— Quantos dos seus voltaram?

O sorriso desapareceu.

— Um.

— Você.

— Sim.

— Então não voltou ninguém confiável.

Riku avançou meio passo. A flecha de Kauã bastou.

Alessandra fez a pergunta útil:

— Qual nome a pedra escreveu?

Sena apontou para Sandra.

— O dela. Depois tentou formar outro, mas não terminou.

Davi se escondeu atrás de Marta.

— Davi — Wellington disse.

O silêncio de Sena confirmou.

Só o quinto risco continuava escuro.

Iori. Davi. O quinto lugar.

— Está comparando pontos — Wellington concluiu.

Marta apertou o filho.

— Ele não é ponto de nada.

Sandra respondeu com verdade, não suavidade:

— Por isso fica atrás de mim.

Nilo entrou pela saída norte com Brás e Cíntia, os três cobertos de pó.

— Norte tem passo por baixo.

— Quantos?

— Tentando cinco.

Cíntia explicou:

— Ainda erra o quarto.

Riku falou baixo:

— Está aprendendo patrulha.

Sena examinou a marca.

— Está aprendendo clã.

— O que disse? — Sandra perguntou.

— No leste, ela não imitou apenas nosso selo. Imitou a função: contenção, fluxo, barreira curta. Se tomou o Takenaga, tomou rota falsa. Se tomou vocês...

Sandra concluiu:

— Vai tentar aprender proteção.

A fonte pingou uma vez.

Tom.

A água refletiu uma coisa que não estava diante dela.

Uma criança de costas, pequena, parada na borda sul.

— Não sou eu — Davi disse.

Riku avançou um passo antes de lembrar da flecha.

— Iori.

No reflexo, a criança ergueu a mão. Cinco riscos separados cobriam sua palma.

— Está vivo? — Sena perguntou.

A imagem virou o rosto apenas o suficiente para mostrar a boca.

Ela sorriu.

Riku ficou imóvel. Diogo reconheceu a raiva quebrando-o por dentro. Era assim que homem forte virava burro.

— Iori — Riku sussurrou.

O reflexo bateu por dentro da água.

Tac.

Tac.

Tac.

Uma pausa.

Tac.

O quinto som veio como sino.

Tom.

Riku avançou.

Diogo entrou na frente sem esperar Sandra.

O Takenaga o atingiu com o ombro inteiro e tentou passar por baixo de seu braço usando a própria queda como rota. Diogo colocou o joelho no caminho.

— Sai.

— Não.

— É meu aprendiz.

— É a isca usando ele.

Riku puxou uma lâmina escondida da manga. A flecha de Kauã a arrancou de sua mão antes do corte.

Sem olhar para a arma perdida, ele deu uma cabeçada no peito de Diogo, ganhou meio passo e alcançou seu pescoço — técnica de quem derrubava gente maior puxando lugar em vez de força.

Diogo prendeu o pulso entre queixo e ombro.

— Eu também sei usar corpo.

Girou.

Riku caiu de costas na terra, feio, sem a beleza de um duelo. O machado desceu e cravou a um dedo de sua orelha.

A fonte tremeu.

A criança abriu a boca.

— Riku.

Era voz de menino.

Ele fechou os olhos com força.

A fúria subiu em Diogo. O machado respondeu, e a marca no cabo avançou.

— Diogo — Sandra chamou.

— Eu sei.

— Sabe o quê?

— Que ela quer que eu quebre a fonte.

O reflexo sorriu.

Diogo puxou o machado. Durante um instante, todos acreditaram no golpe.

Ele se virou de costas para a fonte e bateu o cabo contra o próprio peito.

Uma vez.

O som foi seco. Sua aura vermelha subiu baixa, contida e dolorida pelos ombros. A imagem tremeu.

Diogo falou com Riku:

— Ele não sai daí porque você corre.

— Você não sabe nada.

Diogo se abaixou perto dele.

— Sei o que é chegar tarde.

A frase não consolou.

Cortou.

— Então fica vivo até descobrir se é ele.

A imagem de Iori começou a afundar. Riku estendeu a mão sem se levantar.

A água respondeu. Um fio rápido disparou para a palma dele.

Diogo interceptou com a própria mão.

A pele chiou. Ele fechou os dedos enquanto uma carga amarga subia pelo braço.

— Agora você me deve outra.

Riku o encarou do chão.

— Por quê?

Diogo esmagou o fio de água na mão. A fonte soltou um tom baixo, e a imagem desapareceu.

— Porque não deixei você ser burro.

Sandra olhou para Wellington.

— Leitura.

Ele examinou a superfície, normal demais outra vez.

— Não era só reflexo. Também não era o garoto inteiro.

— O que era? — Riku perguntou.

— Parte. Nome. Medo. Talvez rastro.

— Vivo?

— Não sei.

A honestidade fez mais estrago do que uma mentira.

Sena olhou para o leste.

— Se tem o rastro do menino, está tentando puxar o restante da equipe.

Nilo apontou para o norte.

— Também por baixo.

Kauã completou do telhado:

— Oeste ainda tem presença invisível.

Heren olhou para a dobradiça.

— E aqui ainda quer nomes.

— Cinco frentes — Joel murmurou.

Davi respondeu, pequeno:

— Seis.

O menino apontou para o prato onde o papel queimara. Sandra não permitira que a cinza caísse. No lugar dela, havia um risco novo.

Um círculo pequeno e fechado.

Cinco frentes eram linhas.

Aquilo era centro.

— Ela não quer apenas dividir — Alessandra disse.

Wellington terminou:

— Quer descobrir o que fica no centro quando todos se dividem.

A fonte pingou.

Tom.

Sandra olhou para os cinco riscos, para o círculo, para Davi e para os dois homens que ainda desejavam se matar por razões diferentes.

— A partir de agora, ninguém protege sozinho.

Diogo flexionou a mão queimada.

Riku viu. Não agradeceu; não era homem desse tipo.

— Se Iori estiver vivo, eu vou buscar.

— Se correr sem ordem, quebro sua perna antes que a Montanha use ela — Diogo respondeu.

Riku abriu um sorriso morto.

— Tenta.

Diogo sorriu de volta.

A praça inteira sentiu.

A briga de verdade ainda não havia acontecido.

Só escolhera a hora.