Capítulo 7 — O Quinto Risco

Capítulo 7 — O Quinto Risco

Arlo não lembrava de ter voltado.

Lembrava da nascente, da pedra lisa e do próprio rosto olhando para ele onde nenhuma água deveria guardar um rosto. Depois, havia a praça, as pessoas em volta e Sandra exigindo seu nome completo.

O nome não vinha.

Isso o assustava mais do que a porta de água. Um homem podia perder sangue, arma, caminho e até coragem por algum tempo. Nome era outra coisa. Era o que a Montanha devolvia quando alguém ainda pertencia.

Arlo continuava de joelhos, molhado até a cintura e cuspindo água demais para um corpo só. Brina queria alcançá-lo. Alessandra não permitia.

— Ele está respirando.

— Eu sei.

— Então deixa eu ajudar.

— Ainda não sei se é ele inteiro.

A frase atingiu Brina no rosto. Arlo também a ouviu.

— Sou eu.

A voz saiu fraca.

Alessandra se abaixou diante dele. Sua aura azul não tomou a forma de armadura; surgiu apenas como uma linha fina entre a mão e a água espalhada no chão.

— Nome completo.

Arlo fechou os olhos. A boca tremeu.

— Arlo...

Nada.

Ele tornou a abrir os olhos, agora com medo de si mesmo.

— Não vem.

Brina avançou um passo. Alessandra ergueu a mão sem olhar.

— Brina.

— Ele é da minha linha.

— Justamente.

A porta de água às costas de Arlo permanecia imobilizada pelo corte de Sandra. Não fechada. Imobilizada.

Do outro lado não havia paisagem, apenas um escuro raso, semelhante à superfície de um pote fundo demais. Diogo estava diante dela, com o machado no ombro e o corpo inteiro querendo fazer a pergunta mais simples do mundo: quebrava ou não quebrava?

Sandra ainda não deixava.

O Takenaga permanecia no chão, vigiado por Kauã, perto o bastante para não fugir e longe o suficiente para não aprender a distância. Parecia menos arrogante agora que a vila mostrara saber prender sem corda.

Wellington observava a mão dentro da água.

Ela não tentava sair. Esperava.

Na palma, três riscos curtos, um longo e um ponto.

— Não é ponto — disse Davi.

Marta tentou tapar a boca dele tarde demais. Sandra moveu apenas os olhos.

— Então é o quê?

Davi engoliu em seco.

— Lugar.

O silêncio da praça ficou mais atento.

— Lugar de quem? — perguntou Wellington.

O menino apertou a roupa de Marta.

— Do quinto.

Nilo enrijeceu perto da saída norte. Brina olhou para os quatro cultivadores da linha leste e depois para Arlo.

Cinco.

Sandra entendeu.

— Ela marcou formação.

Wellington assentiu.

— Três passos curtos, um eixo longo e um ponto de retorno.

O Takenaga riu baixo. Diogo tirou o machado do ombro.

— Você está ficando confortável demais no chão.

O homem parou.

— Vocês acham que isso é só marca. Não é.

— Então fala — disse Wellington.

— Não.

Diogo avançou. O prisioneiro fechou a boca com força.

Kauã falou ao lado dele:

— Se responder por medo do machado, pode dizer o que a porta quer.

Diogo respirou pelo nariz.

— Eu sei.

— Sabe e está indo mesmo.

— Às vezes gosto de confirmar com o pé.

— Diogo — chamou Sandra.

Ele parou. O custo apareceu em seu maxilar. Toda vez que Diogo não batia, alguma coisa dentro dele batia por conta própria.

Sandra indicou a porta.

— Você segura isso.

— E ele?

— Kauã segura.

— Kauã pesa menos.

Kauã colocou a flecha atrás da orelha do Takenaga sem alterar a expressão.

— O bastante.

O homem ficou imóvel. Diogo sorriu.

— Justo.

A porta avançou um dedo. Diogo se virou e bateu o machado no chão antes que ela abrisse mais.

Não foi golpe. Foi limite.

O impacto percorreu a praça pelos pés. A água recuou um pouco.

Wellington percebeu.

— Responde a massa.

Diogo não desviou os olhos.

— Tem bom gosto.

— Não é força bruta.

— Eu também não.

Diogo colocara o machado exatamente onde a água tentava virar passagem. O chão sob a lâmina não rachou; afundou meio dedo e travou. Atrás do ferro, seu corpo se tornou pilar.

Sandra começou a distribuir a vila.

— Crianças atrás da fonte. Marta com elas. Joel, livro fechado e preso. Heren, dobradiça e armazém. Nilo, norte. Brina, leste. Dois cultivadores com cada um. Ninguém vai sozinho e ninguém volta por caminho que não saiu.

Nilo perguntou:

— E se voltar?

— Para antes da praça.

— E se não parar?

Sandra olhou para a porta.

— Então já voltou menos do que saiu.

Nilo aceitou sem gostar.

Wellington foi até Arlo. A costela ainda mordia, mas morder não era ordem.

Alessandra percebeu a aproximação.

— Devagar.

— Eu sempre sou delicado.

— Com pedra, talvez.

Ele se ajoelhou diante de Arlo e manteve a Aura Rosa rente à pele.

— Você viu seu rosto na pedra. E atrás de você havia você.

— Não.

Wellington esperou. Arlo tremia.

— Atrás de mim tinha alguém usando meu medo.

Brina fechou a mão.

— Como assim?

— Eu olhei para a pedra e vi que voltaria sem vocês. Vi a praça me olhando, Sandra perguntando meu nome e eu sem conseguir responder.

O entendimento entrou frio em Wellington.

— A nascente mostrou antes.

Arlo assentiu.

— Depois chamou.

— Com a voz de quem?

Ele olhou para Brina.

— Dela.

Brina empalideceu.

— Eu não chamei.

— Eu sei.

A água no chão fez tac. Alessandra pressionou a linha azul.

— Não responde culpa.

Brina apertou os dentes.

— Ele ouviu minha voz.

— E a culpa quer que você pise onde a voz chamou.

Brina permaneceu parada. Isso salvou seu pé. Um fio de água avançou exatamente pelo lugar que ela teria ocupado.

Diogo viu pelo canto do olho.

— Esperta.

— Demais — respondeu Wellington.

No armazém, Heren prendeu a porta aberta com duas cunhas e uma barra de ferro. A dobradiça ainda soltava calor, pulsando como um coração de metal.

Joel apertava o livro com as duas mãos.

— Preciso levar isso para longe.

Heren olhou para ele.

— Longe onde?

Joel abriu a boca e desistiu. Não existia mais longe.

O ferreiro passou uma tira de couro ao redor do registro.

— Então prende aqui.

— Isso é livro, não animal.

— Ontem saco quis ser dono. Hoje livro quer andar. Atualiza sua profissão.

Joel não teve resposta.

O canto da página do Fundo dos 200 estava molhado, embora o livro permanecesse fechado. A água não escorria; entrava pela capa como se soubesse aonde chegar.

Alessandra viu de longe.

— Joel. Quem está no Fundo hoje?

Ele travou. Sandra se virou.

— Responde.

— Crianças, idosos, três feridos de coleta, dois sem família direta, o estoque de sal de emergência, o grão de inverno e as ferramentas que não entram no uso comum.

— Pessoas — disse Alessandra.

— E coisas que mantêm pessoas vivas.

A porta de água tremeu. Diogo pressionou o machado.

— Ela ouviu.

Wellington olhou para Joel.

— Não fala mais listas em voz alta.

O homem ficou vermelho.

— Eu só respondi.

— Eu sei.

— Então por que parece bronca?

— Porque a Montanha gosta quando a gente explica demais.

Joel fechou a boca.

Kauã se abaixou junto ao Takenaga.

— Nome.

— Riku.

— Completo.

O homem sorriu com sangue entre os dentes.

— Quer testar se sou eu?

Kauã aproximou a ponta da flecha.

Riku respirou.

— Riku Takenaga.

Nada aconteceu.

Kauã inclinou a cabeça.

— Ele tem nome inteiro.

Sandra ouviu.

— Então ainda responde pelo que fez.

Riku olhou para ela.

— Não fiz nada contra vocês.

Diogo riu, e a porta recuou um pouco com o som.

— Tentou cortar Kauã.

— Ele estava entre mim e a saída.

— Continua piorando.

Riku virou o rosto para o chão.

— Eu estava no sul com cinco homens. A trilha abriu. Achamos que era uma passagem nova.

Wellington perguntou:

— Quem achou?

Riku não respondeu.

— Ele — disse Kauã.

O prisioneiro fechou os olhos.

— Sim.

— Por quê?

— Porque conheço o Bambuzal Cego.

Sandra se aproximou, e a praça abriu espaço para ela.

— Você conhece trilha falsa. Não conhece a Montanha.

Riku a encarou com raiva.

— Todo Oliveira fala como se o mundo fora daqui fosse criança.

A lâmina de Sandra saiu mais um dedo.

— E todo invasor fala como se estar perdido desse direito de entrar.

Riku se calou por raiva, não por medo. Wellington notou a diferença.

— Quem pagou?

— O quê?

— Para você subir.

— Ninguém.

Kauã pressionou a flecha.

— Mentira pequena.

Riku cuspiu de lado.

— Não para subir. Para mapear a borda.

— Quem? — perguntou Sandra.

Riku tornou a sorrir.

— Isso custa.

Diogo colocou mais peso no machado. A porta soltou um som baixo, incomodada por ser ignorada.

— Posso pagar em dente.

Riku avaliou não a arma, mas a maneira como Diogo continha a passagem sem precisar encará-la o tempo todo.

— Você não é só força.

Diogo mostrou os dentes.

— E você não é tão esperto quanto quer ser.

— Se fosse apenas força, já teria batido.

— Estou ocupado.

A porta avançou. Sem erguer a lâmina, Diogo girou o machado e mudou o ângulo. A água atingiu o lado cego do ferro e perdeu a forma.

Um golpe sem golpe.

Wellington viu. Alessandra também. Riku viu melhor, e sua expressão mudou.

— Você está deixando ela empurrar errado.

Diogo olhou para ele.

— Continua falando.

Riku percebeu tarde demais que respondera como lutador. Kauã e Sandra perceberam junto.

— Você luta com contenção de rota.

Riku ficou quieto.

Diogo virou o machado um pouco mais. A porta tentou contornar pela direita; ele pisou antes. A água recuou.

Diogo obrigava uma passagem sem corpo a escolher lados ruins. Riku reconsiderava a ameaça diante dele.

— Você lutaria bem contra gente.

— Eu luto melhor contra gente que fala demais.

A porta fechou outro dedo, não por derrota, mas por interesse.

Sandra não gostou.

— Diogo, troca.

— Não.

— Isso não foi pedido.

— Eu sei. Mas, se sair agora, ela aprende o buraco que deixei.

Sandra ficou imóvel. Wellington não interferiu porque Diogo estava certo. A porta deixara de procurar abertura; agora media quanto daquele espaço pertencia ao corpo dele.

Sandra aceitou com um gesto pequeno.

— Então não dá o mesmo peso duas vezes.

Diogo ajustou os pés apenas o bastante para fazer a água tremer.

Longe dali, Nilo retornara à Escarpa dos Vigias com dois cultivadores. Sem ele, a praça ficara menor. A Montanha, maior.

O terceiro marco havia virado de novo. Dessa vez, a marca apontava para baixo, não para dentro ou para fora — indicava alguma coisa sob a trilha.

Brás estava quieto demais.

— Fala — disse Nilo.

— Você vai dizer que estou ouvindo coisa.

— Então fala baixo.

Brás encarou o marco.

— Tem gente andando por baixo.

Cíntia se agachou e encostou a orelha na pedra. Três respirações depois, levantou rápido.

— Não é gente.

— O quê?

— É passo tentando virar gente.

Nilo odiou a frase porque a compreendeu.

Sob a escarpa, alguma coisa batia em intervalos imperfeitos.

Tac. Tac. Arrasto. Tac.

Uma pausa longa.

Tac.

Aprendia o ritmo da patrulha.

Nilo marcou a pedra com uma lasca de bambu. Um corte horizontal: norte.

A pedra aceitou por um instante. Então o risco escureceu e ganhou outro traço curto ao lado.

Nilo recuou.

— Voltamos.

Brás apertou a lança.

— De novo?

— De novo vivos.

Cíntia apontou para a trilha.

— E se ela encurtar?

Nilo olhou para o caminho.

— Então não usamos trilha.

Eles voltaram pela pedra: devagar, difícil, ruim. Exatamente por isso, a Montanha demorou mais para responder.

No leste, Brina levou dois cultivadores até a primeira nascente clara. A água que deveria escorrer pela parede permanecia presa à pedra como uma pele transparente.

Brina viu cinco rostos nela: o seu, o de Arlo, os dois companheiros e um quinto homem que não pertencia à equipe. Tinha olhos puxados, barba curta e boca fina.

Rosto de fora.

Ele sorriu dentro da pedra. Brina ergueu a faca.

— Não olha.

Os dois atrás dela olharam mesmo assim.

O rosto abriu a boca. Nenhuma voz saiu, apenas cinco bolhas. Quatro estouraram em silêncio. A quinta virou sangue.

Brina cortou a própria palma e passou o sangue sobre o olho da pedra. Não era técnica bonita; era coisa de patrulha. Se algo queria rosto, ela daria sujeira.

A água tremeu. Antes de desaparecer, o quinto rosto deixou uma palavra desenhada no vapor.

Mizu.

Brina não sabia se era nome, clã ou isca. Sabia que era prova.

No oeste, Kauã encontrou a segunda marca antes que alguém o chamasse. Estava no alto de uma árvore, voltada para dentro da casca: três curtos, um longo, um ponto e um risco atravessado.

Igual à dobradiça.

Imóvel sobre o galho, Kauã observou dois homens da patrulha procurando rastro onde havia rastro demais.

Aquilo era novo. Até então, a coisa limpava caminhos. Ali, espalhara pegadas de botas e animais, arrasto de corda, marca de joelho — uma briga inteira despejada no chão sem nenhum corpo.

Kauã puxou uma flecha e mirou não nos rastros, mas no espaço vazio ao lado deles.

— Aparece.

Nada respondeu. Uma folha caiu com o vento e parou no ar por meio segundo.

Kauã atirou.

A flecha atravessou a folha e bateu em alguma coisa invisível.

Tac.

O ar estourou. Uma silhueta recuou entre as árvores, nem inteiramente humana nem inteiramente besta, embora usasse a altura de um homem.

Kauã não perseguiu. Disparou outra flecha na rota de fuga, não para acertar, mas para marcar. A ponta cravou no tronco e uma pequena explosão de aura sacudiu a casca. A silhueta precisou mudar de direção.

Kauã sorriu sem humor.

— Agora você também desvia.

Na praça, Sandra recebeu os três sinais quase juntos: um assobio curto do norte, um pano azul no leste e uma detonação pequena no oeste.

Ela fechou a mão.

— Três frentes confirmadas.

Joel, ainda agarrado ao livro preso, perguntou:

— Isso é bom ou ruim?

Heren respondeu:

— Confirmado raramente é bom.

A porta de água fechou mais um dedo. Diogo suava, não de cansaço simples, mas de contenção. O machado começava a escurecer perto do cabo.

Wellington percebeu.

— Carga?

Diogo não respondeu. Riku respondeu por ele:

— Pouca. O bastante para quebrar a costela de um homem comum sem encostar direito.

Diogo olhou para o Takenaga.

— Você conhece isso?

— Conheço gente que finge ser muralha. Você não finge.

— E você conhece gente que foge usando floresta como desculpa.

Riku sorriu.

— Conheço. Eu era o melhor.

A porta se abriu de repente, não para a frente, mas para baixo. A água afundou no chão e puxou o machado.

Diogo percebeu antes de perder a arma. Em vez de recuar, empurrou-a para dentro.

Todos gritaram:

— Diogo!

Ele entrou com o peso, apenas um passo. O chão tremeu e a lâmina afundou até a metade.

A porta tentou engolir. Diogo permitiu por uma fração, então girou o cabo. A água entortou e a abertura perdeu a forma.

Não fechou. Dobrou.

Wellington entendeu o risco.

— Está usando a mordida dela como trava.

Sandra também entendeu.

— Diogo, sai antes que ela aprenda.

— Ainda não.

O machado escureceu mais. Uma carga subiu pelo ferro como brasa sem fogo.

Diogo respirou duas vezes. A água puxou, e ele cedeu outro dedo. Então soltou o cabo com a mão esquerda e bateu o punho no próprio peito.

Não foi ritual. Foi ritmo.

O corpo respondeu. Uma aura vermelha apareceu baixa, suja de calor, fechada em seus ombros e no machado.

A porta recuou, atingida através da força que ela mesma usara para puxar.

O sorriso de Riku desapareceu.

— Forja de Ira.

Diogo virou o rosto devagar.

— Você fala demais para quem está no chão.

— E você usa poder demais para quem diz estar só segurando porta.

Diogo puxou o machado. A água já não conseguiu prendê-lo. A lâmina saiu com um som seco.

Tac.

Metade da porta se desfez. A outra metade virou filete e correu para Arlo.

Alessandra já estava lá. Sua linha azul deteve a água antes do peito dele.

No impacto, o filete mostrou um reflexo. Não era Arlo, mas o mesmo homem que Brina vira na nascente: boca fina, barba curta, olhos frios.

Alessandra viu. Wellington viu no reflexo de sua aura. Sandra viu nos rostos dos dois.

— Quem?

Brina chegou à praça naquele instante, sem fôlego.

— Tem um nome no leste.

Sandra manteve os olhos na água.

— Fala.

— Mizu.

Riku fechou os olhos.

Kauã surgiu no telhado do armazém.

— Oeste tem presença invisível. Marcada, não presa.

Nilo entrou pela saída norte.

— Norte tem passo por baixo.

A praça pareceu encolher diante da quantidade de coisas tentando entrar ao mesmo tempo.

Wellington apontou para Riku.

— Ele conhece Mizu.

Diogo foi até o Takenaga. Sandra não o deteve dessa vez.

Riku abriu os olhos.

— Conheço o nome.

— Completo — ordenou Sandra.

Ele respirou fundo.

— Mizuhara.

Brina apertou a faca.

— Clã Mizuhara?

— Leste. Barreira. Fluxo. Contenção.

Alessandra olhou para a água retida em sua aura.

— Então não é só sul.

— Nunca foi só sul — respondeu Riku.

Diogo se abaixou diante dele, perto o suficiente para não precisar erguer a voz.

— Agora você vai dizer quem mais está nessa borda.

— E se eu não falar?

Diogo sorriu, baixo e feio.

— Aí descubro se você luta melhor em pé do que fala no chão.

Riku devolveu um sorriso de fúria real.

— Cuidado, Oliveira. Nem todo mundo de fora da Montanha é bicho perdido.

A praça sentiu a mudança. Não era ameaça da porta nem da marca, mas homem contra homem — algo mais antigo, simples e perigoso.

Diogo se levantou.

— Bom.

— Não agora — disse Sandra.

Ele não desviou os olhos de Riku.

— Eu sei.

A voz dizia outra coisa.

Riku também se levantou, devagar, sob a mira de Kauã.

— Também sei.

A porta quase desfeita soltou um último som.

Tom.

Não tac. Tom.

O sino do fundo.

Davi começou a chorar. Marta o segurou. Joel apertou o registro. Heren olhou para a dobradiça, que enfim esfriara.

A água recuou para dentro da terra e deixou uma marca.

Cinco riscos separados.

Não três curtos, um longo e um ponto. Cinco riscos. Cinco frentes.

Sandra guardou a lâmina pela metade.

— Agora ela sabe dividir.

Wellington olhou para norte, leste, oeste e sul.

Diogo ainda encarava Riku. Riku encarava de volta.

A Montanha havia parado de bater.

Os homens, não.