Capítulo 5 — O Sino Sem Corda

Capítulo 5 — O Sino Sem Corda

A vila inteira coube na praça.

Não com conforto. Coube do jeito que gente assustada cabe: ombro contra ombro, crianças no meio, velhos sentados onde dava, animais presos perto de adultos, panelas esquecidas no colo e facas nas mãos de quem nunca soubera usá-las direito.

Sandra não chamou aquilo de abrigo. Chamou de ordem.

— Crianças no centro. Dois adultos por lado. Ninguém fica sozinho. Ninguém responde chamado sem ver rosto.

Ninguém perguntou por quanto tempo. A pergunta já havia perdido a utilidade.

As portas das casas continuavam batendo por dentro, uma depois da outra, às vezes três em sequência. Alguma coisa passava de casa em casa testando madeira, trinco, banco, cama e nome.

Tac.

Tac.

Tac.

A cada batida, alguém olhava para trás. A cada olhar, Sandra descobria quem estava perto de correr.

— Olhos na praça.

As pessoas obedeciam, não por calma, mas por falta de opção melhor.

Diogo ficou entre as crianças e as casas. Não precisou dizer nada. Seu corpo já dizia: passa por mim primeiro.

Kauã percorria os telhados baixos, preso à vila por cordas finas que amarrara entre beirais, postes e a oficina. Não fazia barulho. Apenas surgia em outro ponto quando alguém começava a pensar que ele havia desaparecido.

Alessandra caminhava pela borda da praça, contando portas, janelas, sombras e espaços vazios. Heren carregava ferramentas numa das mãos e uma tira de bambu na outra. Joel apertava o livro de registros como se até o armazém pudesse fugir dele.

Marta estava sentada no chão, com Davi entre os braços.

Ele já não chorava, e isso era pior. Criança que chora ainda devolve o medo para fora. Davi começava a guardar.

Wellington percebeu e desviou o olhar. Costela, braço e peito doíam, mas nada incomodava tanto quanto a sensação de que a vila deixara de respirar do jeito certo.

Ele se aproximou de Sandra.

— Isso está juntando a gente.

— Eu sei.

— Não foi acidente.

— Eu sei.

— Se queria que a gente viesse para a praça...

— Wellington.

Ele se calou. Sandra olhava para o sino.

Preso a uma trave antiga perto da fonte, o sino servia para chamar patrulha, avisar incêndio ou reunir gente quando uma cabra sumia, uma criança desaparecia ou alguém voltava ferido da trilha.

Era um sino comum.

Até aquele dia, essa teria sido uma frase segura.

A corda e o metal permaneciam imóveis. Mesmo assim, Wellington sentiu vontade de olhar para eles.

— Heren.

O ferreiro já havia percebido. Aproximou-se sem tocar no sino e passou o bambu perto da corda.

Nada.

Passou-o perto do metal. A fibra vibrou, e Heren afastou a mão.

— Está frio.

Joel franziu o rosto.

— Sino fica frio.

— Não por dentro.

Diogo avaliou a trave.

— Se tocar, eu arranco.

— Não — disse Sandra.

Ele nem discutiu. Apenas fechou mais a mão no machado.

Alessandra parou diante da fonte. A água corria outra vez, mas baixo demais, como se tentasse não chamar atenção.

— O sino não quer tocar.

Wellington olhou para ela.

— Então o que quer?

Alessandra demorou, e a demora bastou.

Davi respondeu:

— Quer que alguém toque.

Marta o apertou contra o peito.

— Fica quieto.

— Mas quer.

Sandra se virou para o menino.

— Você ouviu?

Davi negou, depois transformou o gesto numa dúvida.

— Não com ouvido.

A frase entrou errada na praça. Sandra não o repreendeu.

— Onde?

Ele apontou para a própria barriga. Marta fechou os olhos.

— Ele está com medo.

— Todo mundo está — disse Sandra. — Mas ele ainda responde.

Davi fitou o sino.

— Parece quando dá vontade de levantar antes de alguém chamar.

Kauã apareceu no telhado da oficina.

— Tem gente dando meio passo.

Sandra examinou a praça. Era verdade. Ninguém saíra do lugar, mas vários pés haviam mudado de posição.

Meio passo. Quase nada. O tipo de movimento que uma pessoa nega porque nem percebe que fez.

Wellington voltou os olhos para o sino. A corda continuava imóvel. A vontade, não.

— Não está chamando por som.

— Está chamando por hábito — completou Alessandra.

Heren praguejou baixo.

— Pior.

Diogo olhou para ele.

— Como hábito é pior que bicho?

Heren apontou para a praça.

— Bicho você vê vindo.

O sino tocou.

Uma vez, sem força. Apenas o suficiente.

Tom.

Metade da praça deu um passo.

Sandra ergueu a lâmina.

— Parados.

O movimento morreu. Uma criança começou a chorar; um velho apertou o peito; Marta prendeu Davi com os dois braços. Diogo abriu os ombros como se pudesse manter a vila inteira no lugar.

O sino não se mexera. A corda não balançara. O metal não vibrara.

Mesmo assim, todos tinham ouvido.

A Aura Rosa subiu pela pele de Wellington. Ele a conteve antes da ordem.

Sandra percebeu.

— Bom.

Ele quase sorriu.

Quase.

O sino tocou de novo.

Tom.

Dessa vez, ninguém andou. Todos quiseram — e a vontade aparecia na garganta, nos dedos, no joelho quase dobrado, na criança procurando a mãe, no adulto buscando uma ordem.

Sandra não falou. O silêncio também era ordem quando vinha dela.

A praça resistiu.

O sino respondeu com outro som.

Tac.

Não era metal. Era madeira contra pedra. O mesmo ritmo.

Diogo rosnou.

— Está irritado.

— Está testando — disse Wellington.

— Para mim dá no mesmo.

Heren chegou mais perto da trave e examinou a corda.

— Está limpa.

Joel fez uma careta.

— Isso virou palavra ruim.

— Virou.

Heren apontou para o nó: três voltas curtas e uma longa. Não estava assim antes.

Sandra se voltou para Joel.

— Registro.

Ele abriu o livro.

— Sino revisado há três dias, corda trocada há duas semanas, nó simples. Eu anotei porque Heren reclamou que o nó antigo era de bêbado.

O ferreiro não tirou os olhos da corda.

— Era mesmo.

O sino chamou pela terceira vez.

Tom.

Uma mulher avançou um passo. Kauã soltou a flecha antes que ela completasse o movimento. A ponta não a atingiu; cravou-se na terra diante de seu pé.

A mulher congelou.

— Desculpa depois — disse Kauã, do telhado.

Sandra respondeu:

— Não pede desculpa por impedir alguém de morrer.

A mulher começou a tremer.

— Eu não queria ir.

— Eu sei.

Ouvir aquilo foi pior do que ser acusada.

Wellington olhou para o sino.

— Se aprende a chamar pela rotina, não precisa entrar em casa.

Alessandra acompanhou o raciocínio.

— Só precisa fazer a vila obedecer ao que ela já obedece.

Sino. Voz de mãe. Lugar de criança. Registro de armazém. Porta de casa.

Nada vinha como ataque. Vinha como costume. A coisa aprendia onde a vila baixava a guarda.

Davi se mexeu nos braços de Marta.

— Eu ouvi antes.

Sandra virou-se devagar.

— Antes do quê?

— Antes do sino tocar.

— O que você ouviu?

Davi hesitou. Marta encostou a testa nos cabelos dele.

— Fala.

— A madeira respirou.

Heren olhou para a trave. A corda subiu um dedo sozinha.

Diogo saiu do lugar, mas não foi até o sino. Foi até Davi e parou entre o menino e a trave.

Grande. Quieto.

O movimento da corda cessou.

Wellington viu. Alessandra também.

— Não queria Diogo — ela disse.

Ele lançou um olhar a ela.

— Quem não quer?

— A chamada.

Wellington entendeu.

— Quer quem responde fácil.

Diogo olhou para as crianças no centro da praça. Sua raiva mudou de forma e esfriou.

— Então chama por cima de mim.

O sino tocou.

Tom.

Diogo não se mexeu. A corda bateu na trave.

Tac.

Tom.

Tac.

Tom.

O ritmo acelerou. Crianças choraram. Alguns adultos fecharam os olhos.

Sandra ergueu a voz pela primeira vez:

— Ninguém responde.

A corda se enrolou sozinha: uma volta, duas, três. A volta longa ficou por último. Então o nó desceu até a altura de uma mão.

Altura de criança.

Wellington deu um passo. Sandra permitiu.

Ele parou diante da corda, sentindo a chamada no fundo do peito. Não como voz, mas como um hábito emprestado.

Se o sino toca, a vila vai.

Se mãe chama, filho vai.

Se porta abre, dono entra.

Se um lugar está vazio, alguém senta.

Simples. Terrível.

Wellington olhou para Davi. O menino estava branco, mas não andara.

— Davi.

— O quê?

— Quando o sino toca, quem manda você ir?

O menino fungou.

— Sandra.

— Não o sino?

— Não.

— Quem manda você responder sua mãe?

Davi olhou para Marta.

— Minha mãe.

— Não a voz?

Ele compreendeu um pouco — o bastante.

— Não.

Wellington encontrou o olhar de Sandra. Ela já tinha entendido.

— Todo mundo ouve — disse à praça. — O sino não manda. A voz não manda. A porta não manda. O lugar não manda.

O sino tremeu.

Sandra avançou.

— Quem manda é gente com rosto.

A corda se esticou.

— Quem chama dá nome.

A trave rangeu.

— Quem entra tem mão.

A fonte parou de correr.

— Quem pertence tem testemunha.

O sino produziu um som rachado.

Tom.

Ninguém se moveu. Nem meio passo.

Marta foi a primeira a repetir:

— Quem chama dá nome.

Joel veio depois, baixo:

— Quem entra tem mão.

Heren olhou para o sino como se desejasse desmontar o mundo.

— Quem pertence tem testemunha.

Outras vozes se juntaram. Não em coro, nem bonitas. Cada pessoa repetiu do seu jeito, com medo, raiva ou a voz quebrada.

Mas repetiu.

O sino enfim balançou. Metal de verdade. Som de verdade.

Tom.

Por ser verdadeiro, perdeu força.

Diogo sorriu.

— Ah.

Sandra olhou para ele.

— Não.

— Eu nem falei.

— Pensou alto.

Wellington apanhou uma das lascas de bambu que Heren deixara perto da fonte. Em vez de aproximá-la do sino, colocou-a entre a corda e as crianças.

— Isso não atravessa.

A corda desceu, tocou a lasca e parou.

Kauã já estava em outro telhado.

— As portas pararam.

Alessandra olhou para as casas, uma por uma.

— Não pararam.

Wellington seguiu o olhar dela.

As portas não batiam mais. Estavam abertas por dentro, todas elas, apenas um dedo — como a casa de Marta.

A vila prendeu a respiração.

Sandra não olhou para trás.

— Ninguém sai da praça.

Uma porta rangeu. Depois outra. Então todas ficaram quietas.

Wellington sentiu a coisa esperando, não com paciência, mas com cálculo.

Diogo percebeu também.

— Agora quer que a gente vá fechar.

— Sim — respondeu Alessandra.

— Então não fecha.

Joel quase engasgou.

— Dormir com porta aberta?

Marta olhou para as casas.

— Dormir?

Ninguém pensara nessa palavra até ela aparecer. Dormir era deixar o corpo virar confiança. Naquela noite, confiança parecia uma porta aberta por dentro.

Sandra guardou a lâmina só o bastante para mostrar que ainda calculava.

— Ninguém dorme em casa. Hoje a praça vira casa.

Ninguém gostou. Ninguém discutiu.

Kauã apontou para o lado norte.

— Se todo mundo fica aqui, as bordas ficam fracas.

— Você fecha a borda.

— Sozinho?

— Não.

Sandra olhou para Diogo. Ele ergueu as sobrancelhas.

— Achei que eu era muralha.

— Muralha também tem canto.

— Isso foi quase elogio.

— Não estraga.

Wellington respirou curto e disfarçou mal.

Sandra se virou para ele.

— Você fica no centro.

— Posso ajudar na borda.

— Você mal ajuda sua costela.

— Estou sendo perseguido por essa frase.

— Porque ela corre mais que você hoje.

Davi riu. Foi um som pequeno e assustado, mas mudou um pouco a praça. Lembrou a todos que ainda havia gente ali — e gente não era apenas alvo.

O sino tremeu sem tocar.

Heren se aproximou da trave.

— Posso tirar o badalo?

Sandra pensou.

— Se tirar, ensina ausência.

— Se deixar, ele tenta tocar.

— Então prende sem cortar.

Heren sorriu pela primeira vez naquele dia.

— Agora falou minha língua.

Ele subiu na base da trave levando uma tira de couro, duas lascas de bambu e um pedaço de pano grosso. Prendeu o badalo por cima. Não o retirou nem quebrou; apenas impediu que se movesse.

O sino tentou tocar e falhou. A corda se esticou, enquanto a lasca no chão escurecia pela ponta.

Wellington pisou sobre ela.

Sandra se virou.

— Wellington.

— Não é técnica.

— É burrice?

— É pé.

A lasca parou de escurecer. Um frio subiu pela sola, fraco e curioso, como uma língua experimentando a pele.

Wellington não recuou.

Diogo percebeu.

— Quer trocar de pé?

— Quero que você fique onde mandaram.

— Então não faz coisa que dá vontade de sair do lugar.

A corda caiu, morta. O sino ficou mudo.

Durante três respirações, a praça acreditou que havia vencido alguma coisa.

Então o som veio de baixo.

Não da trave, do metal ou das portas. De sob a praça.

Tom.

Davi tapou os ouvidos. Marta o abraçou. Joel deixou o livro cair. Heren desceu devagar da trave. Alessandra fechou os olhos, enquanto Kauã se virava para o sul. Diogo levantou o machado.

Sandra e Wellington olharam para o chão.

O som não era alto. Era profundo, como se um sino enorme estivesse enterrado muito longe.

Ou muito perto.

Tom.

A fonte respondeu com um fio de água. O armazém estalou. As portas abertas tremeram. A lasca sob o pé de Wellington rachou.

Tom.

Dessa vez, ninguém se moveu. Não porque deixara de sentir, mas porque aprendera.

Sandra falou baixo, e a vila inteira ouviu:

— Agora sabemos o nome do chamado.

Wellington olhou para ela. Sandra não sorriu.

— O sino não está na praça.

O chão respondeu.

Tac.

Tac.

Tac.

No fundo da Montanha, alguma coisa tocou outra vez.

Tom.

Capa da faixa Vila do Mistério
Faixa bônus · Capítulo 5
Vila do Mistério
Composição original inspirada nos segredos que respiram entre as casas da vila.