Capítulo 4 — A Porta Por Dentro
Marta não gritou quando encontrou a porta fechada por dentro.
Isso assustou mais do que um grito.
Ela permaneceu diante da própria casa, uma das mãos no trinco e a outra segurando Davi pelo ombro.
— Sandra.
Desde o armazém, a vila inteira falava mais baixo. Ainda assim, o nome de Sandra atravessou a praça.
Sandra veio sem pressa. Diogo, com pressa. Wellington veio porque tentara ficar parado e falhara. Alessandra já examinava a janela antes mesmo de chegar.
Kauã não apareceu. Por isso, Wellington procurou o telhado e o encontrou deitado contra as telhas baixas, arco na mão, olhando para os fundos da casa.
Sandra parou diante da porta.
— Quem está dentro?
Marta apertou o ombro de Davi.
— Ninguém.
— Tem certeza?
— Eu saí com ele. Tranquei por fora, levei as cabras para o pátio alto e voltei. A chave gira, mas o trinco não abre.
Diogo levou a mão ao machado.
— Então eu abro.
— Não — disse Sandra.
— É uma porta.
— Hoje nada é só porta.
Ele fechou a cara.
— Essa frase vai virar desculpa para tudo?
Wellington tocou a madeira perto do trinco.
— Não tem marca de arrombamento.
— Obrigado. Agora posso quebrar sem culpa.
Sandra lançou um olhar a Diogo. A mão dele saiu do machado.
Alessandra se aproximou da janela sem tocar o vidro escuro. Inclinou o rosto, procurando o interior pelo reflexo.
— A cortina está do lado errado.
Marta engoliu em seco.
— Como assim?
— O nó fica à esquerda?
— Fica.
— Agora está à direita.
Davi ergueu o rosto para a mãe.
— Eu não mexi.
Marta o puxou para perto.
— Eu sei.
Wellington se abaixou para observar a fresta. Nenhuma sombra se movia, e a luz do interior não parecia diferente. Só a terra junto à soleira estava limpa demais.
Ele odiou reconhecer o sinal.
— Igual ao armazém.
Heren atravessava a praça com uma bolsa de ferramentas. Sandra esperou que ele se aproximasse.
— Sem tocar direto.
— Eu sei.
O ferreiro retirou uma lâmina fina de bambu, marcou a ponta com carvão e a introduziu devagar pela fresta. A madeira avançou dois dedos e parou. Quando Heren tentou puxá-la, ela não veio.
Diogo avançou um passo.
— Agora?
— Não.
A lâmina voltou sozinha, lentamente, intacta — exceto por quatro riscos na ponta.
Três curtos. Um longo.
Davi começou a chorar sem produzir som. Marta se ajoelhou diante dele.
— Olha para mim.
Ele obedeceu.
— Você respondeu alguma coisa?
Davi negou depressa. Depressa demais.
Sandra se agachou perto dos dois.
— Davi.
O menino mordeu o lábio.
— Eu não entrei.
— Não perguntei isso.
Ele apertou a manga de Marta.
— Eu ouvi.
A praça pareceu encolher ao redor da casa.
Wellington olhou para a porta.
— O que você ouviu?
Davi tentou responder e não conseguiu. Marta passou a mão pelo cabelo dele, rígida demais para fingir calma.
— Fala. Eu estou aqui.
— Chamou meu nome.
Diogo ficou imóvel. Sandra não piscou.
— De dentro?
Davi assentiu.
— Com a voz de quem?
Ele olhou para Marta. Ela fechou os olhos.
— Minha?
O menino confirmou.
Diogo puxou o machado. Antes do primeiro passo, Sandra agarrou o cabo.
— Se você quebrar, ensina força.
— Chamou uma criança com a voz da mãe.
— Eu ouvi.
— Então me solta.
— Não.
Diogo respirou como se engolisse pedra.
Wellington se levantou devagar. A costela ainda doía, mas a dor aprendera a permanecer no canto.
— Davi, você respondeu?
— Não.
— Por quê?
O menino limpou o rosto com o braço.
— Porque minha mãe estava do meu lado.
Marta o apertou contra o peito. Por um instante, ninguém falou.
Aquilo salvara Davi e quebrara alguma coisa dentro dele.
Alessandra se virou para Sandra.
— Não queria apenas a porta.
— Queria resposta — completou Wellington.
Heren examinou os riscos no bambu.
— Nome, mão e testemunha.
Sandra criara a regra. A coisa ouvira.
Kauã falou do telhado:
— Fundos limpos.
Sandra ergueu os olhos.
— Janela?
— Fechada por dentro.
— Telhado?
— Sem peso.
— Chão?
Kauã demorou.
— Quieto.
Wellington reconheceu a pausa.
— Quieto esperando?
— Quieto cheio.
Ninguém gostou da diferença.
Sandra soltou o cabo do machado.
— Porta.
Diogo entendeu. Ficou diante da casa, largo e firme, machado na mão, sem golpear. Virou limite.
A madeira estalou. Não abriu; apenas reconheceu a presença dele.
Heren passou uma tira de couro pela maçaneta, mantendo distância.
— Se puxar?
Alessandra respondeu antes de Sandra:
— Ela aprende o puxão.
Heren soltou a tira.
— Então fala com a casa.
Marta o encarou.
— O quê?
— A casa é sua.
Sandra confirmou:
— É.
Marta se levantou. Não parecia uma guerreira. Era uma mulher cansada, com terra na barra da roupa, cheiro de animal nos braços e um filho agarrado a ela.
Mas a casa era dela. Isso importava.
— Abre — ordenou à porta.
Nada.
Diogo rangeu os dentes.
Marta respirou de novo.
— Eu disse abre.
O trinco se moveu uma vez e parou. A Aura Rosa se arrepiou sob a pele de Wellington, mas ele a conteve.
Sandra percebeu mesmo assim.
— Baixo.
— Está baixo.
— Mais.
Ele obedeceu.
Marta encostou a palma na madeira. Sandra não a impediu. Talvez porque aquela fosse a mão certa.
— Essa casa não chama meu filho com minha voz.
O trinco bateu.
Tac.
Davi chorou mais forte. Marta não recuou.
— Essa casa me conhece. Conhece meu passo, minha panela, minhas cabras, minha cama e a tosse dele à noite. Se tem alguma coisa aí dentro, ela entrou sem nome.
A porta tremeu. Diogo sorriu sem humor.
— Boa.
Sandra não mandou que ele se calasse.
Marta aproximou o rosto da madeira.
— E coisa sem nome não manda na minha soleira.
O trinco abriu sozinho. A porta não escancarou; cedeu apenas um dedo, o bastante para mostrar o escuro.
Diogo avançou, mas Sandra o puxou pelo ombro.
— Eu primeiro.
— Nem pensar.
— Diogo.
— Chamou criança.
Dessa vez, o olhar de Sandra não trazia apenas comando. Trazia cálculo.
— Então entra comigo. Um passo atrás.
Ele aceitou porque era o máximo que conseguiria.
Sandra entrou com a lâmina curta abaixada. Diogo veio logo atrás, ocupando quase toda a porta. Wellington ficou na soleira, com Alessandra ao lado e Heren às costas. Marta permaneceu do lado de fora, segurando Davi.
A casa era pequena: mesa, fogão apagado, três bancos, uma prateleira com tigelas, cordas penduradas, cobertor dobrado junto à parede.
Tudo conhecido. Tudo fora do lugar.
As tigelas estavam viradas para baixo. Marta nunca as deixava assim; dizia que pegavam cheiro de madeira velha.
O banco de Davi ocupava o centro da sala. Sozinho.
Sobre ele, havia uma colher pequena.
A dele.
Wellington olhou para Marta. Ela viu pela fresta e levou a mão à boca.
— Ele deixou na mesa ontem.
Alessandra entrou e mediu primeiro a distância entre o banco e a porta.
— Altura de criança.
Wellington acompanhou o desenho: banco no centro, colher em cima, porta entreaberta, voz de mãe.
— Fez um lugar para ele sentar.
Diogo apertou o machado. A casa respondeu.
Tac.
A colher saltou uma vez sobre o banco. Davi soluçou, e Marta tentou entrar. Heren segurou seu braço.
— Não.
Ela se virou com raiva.
— É minha casa.
— Por isso mesmo.
Sandra estendeu a mão para Heren, recebeu outra lasca de bambu e usou-a para empurrar a colher. Ela caiu no chão com o som comum de madeira contra terra.
Por um instante, todos quase respiraram.
Então o banco se arrastou um dedo na direção da colher.
Diogo pisou nele. Não bateu, apenas o prendeu. O banco parou, e a casa inteira estalou.
Wellington compreendeu o padrão. Não era força. Era convite. A coisa não precisava empurrar a criança se conseguisse preparar um caminho para que ela obedecesse.
— Não quer pegá-lo à força.
Sandra não desviou os olhos da sala.
— Quer que ele venha.
Alessandra foi até a parede dos fundos. Ali também havia quatro riscos, não na madeira, mas no barro seco entre as tábuas. Estavam na altura do ouvido de Davi.
O rosto dela perdeu a cor.
— Chamou daqui.
Marta soltou um som baixo. Não era choro; era alguma coisa mais antiga.
Diogo encarou Sandra.
— Agora eu bato?
Ela observou o banco preso sob o pé dele.
— Ainda não.
— Eu estou ficando sem partes de mim que aceitam isso.
— Guarda uma.
Wellington entrou um passo. A sala ficou nítida demais: colher, banco, marca, porta, lugar da mãe, lugar da criança. Uma linha invisível ligava tudo.
Sua mão se fechou quando a Aura Rosa tentou subir.
Não ali. Não para ensinar.
— Temos que desfazer sem repetir o jogo.
Alessandra olhou para Marta.
— Ela precisa tirar a casa do papel que deram a ela.
— Como? — perguntou Marta.
Sandra respondeu:
— Faz o que faria se isso fosse apenas uma coisa errada na sua casa.
Marta respirou, ainda tremendo, e soltou Davi.
— Fica atrás da Sandra.
— Mãe...
— Atrás da Sandra.
Davi obedeceu.
Assim que Marta entrou, a casa estalou. Diogo e Sandra mantiveram posição enquanto ela passava pelos dois, apanhava a colher do chão e a colocava no alto da prateleira.
Depois, Marta segurou o banco. A madeira resistiu ao primeiro puxão e resistiu mais ao segundo.
Diogo moveu o pé, pronto para ajudar. Sandra segurou seu braço.
— Ela.
Marta puxou outra vez.
— Você senta onde eu mando.
O banco soltou. Ela o arrastou até seu canto de sempre, junto à mesa — o lugar onde Davi comia torto, derrubava farelo e chutava a madeira quando mentia.
Os riscos na parede escureceram.
Marta pegou um pano úmido e esfregou o barro. Nada saiu. Esfregou com mais força.
Heren sacou uma faca pequena, mas Sandra negou.
— Sem cortar.
Marta olhou para a marca e depois cuspiu no pano.
Davi arregalou os olhos.
— Mãe.
— Hoje pode.
Ela esfregou de novo. O primeiro risco se apagou, e a casa gemeu. O segundo desapareceu. Depois o terceiro.
A linha longa permaneceu.
A mão de Marta tremia.
— Essa não quer.
Wellington sentiu a resposta antes do som.
Tac.
O chão bateu sob o banco.
Tac.
A parede respondeu.
Tac.
A porta respondeu, e a colher caiu da prateleira.
Davi se moveu por reflexo. Sandra agarrou sua gola antes que o primeiro passo terminasse.
— Não.
Ele começou a chorar de verdade.
— Eu ia pegar.
Marta se virou. Seu rosto mudou, e até a casa pareceu perceber.
Ela apanhou a colher e a quebrou no joelho.
O estalo foi seco. Comum. Humano.
A linha longa se apagou.
O silêncio que veio depois não pediu comemoração.
Marta ficou olhando para os dois pedaços em suas mãos.
— Era a favorita dele.
Davi chorava quieto.
— Eu sei.
Ela se ajoelhou diante do filho.
— Coisa que chama você para longe de mim não fica sendo favorita.
Ele assentiu sem entender tudo. Entendeu o bastante.
Sua infância perdeu mais um pedaço ali.
Wellington desviou o olhar. Sandra percebeu e não falou.
Kauã apareceu na janela.
— Outra casa.
Todos se viraram.
— Qual? — perguntou Sandra.
Kauã apontou para o outro lado da praça.
— Joel.
Perto do armazém, Joel perdeu a cor.
— Minha casa?
Kauã assentiu.
— Porta fechada por dentro.
Ninguém se moveu por um segundo. Um vento frio e errado atravessou a praça.
Então uma batida veio da casa de Joel.
Tac.
Não foi alta. Não precisou ser.
Marta apertou os pedaços da colher contra o peito. Davi se escondeu atrás dela. Diogo olhou para Sandra.
— Agora?
Sandra encarou a praça. A fonte fazia som; o armazém e a casa de Marta estavam quietos. Mesmo assim, a vila já não parecia feita de casas. Parecia feita de portas aguardando a própria vez.
Ela ergueu a lâmina curta.
— Todo mundo para a praça.
Ninguém perguntou por quê.
Joel deu um passo em direção à própria casa. Sandra cortou a intenção antes que se transformasse em palavra.
— Não sozinho.
Ele parou.
Wellington fitou a porta de Joel. A costela doeu quando respirou — ou talvez não fosse a costela.
Tac.
Outra batida na casa de Joel, seguida por uma terceira na casa ao lado.
Kauã tensionou a corda do arco.
— Está passando de porta em porta.
Wellington fechou a mão. A Aura Rosa permaneceu rente à pele, baixa e contida, quase uma raiva.
— Não.
Sandra olhou para ele.
Wellington continuou sem tirar os olhos das casas:
— Está aprendendo qual abre primeiro.