Capítulo 32 — O Corte Que Fica
Sandra venceu quando a lâmina não tocou o pano.
O tecido branco balançou diante dela.
Inteiro.
Uma linha verde correu pela espada e morreu perto da ponta.
Sandra ficou na posição final por uma respiração.
Depois baixou o braço.
Era a primeira tentativa boa da manhã.
As seis anteriores tinham cortado.
O pátio menor atrás da casa ancestral servia para treino de precisão. Não tinha postes grossos nem alvos de arco. Tinha fios, placas finas, blocos de madeira com marcas estreitas e uma mesa onde diferentes lâminas descansavam em tecido escuro.
Nenhuma era enfeitada.
Todas estavam afiadas.
Sandra usava a própria.
Não precisava de desculpa melhor.
Ela reposicionou o pano.
Um dedo mais perto.
O objetivo era simples: sacar, chegar até a linha e parar antes do contato.
Diogo chamaria aquilo de treino para não fazer nada.
Diogo estaria errado.
Fazer nada no instante certo exigia mais controle do que cortar pano.
Sandra segurou a respiração no meio.
A faixa na mão apertou quando os dedos fecharam na empunhadura. Melhor não significava curada. Heren tinha deixado isso claro demais para ela fingir que não ouvira.
Pé esquerdo firme.
Quadril sem abrir.
O polegar soltou a guarda.
A lâmina saiu.
Verde.
Rápida.
Parou.
O pano tocou o fio com o vento do movimento.
Separou em dois.
Sandra fechou os olhos apenas o tempo de registrar o erro.
Não repetiu o corte.
Pegou outro pano.
A própria técnica não gostava de repetição. Cada linha usada contra um adversário precisava ensinar a próxima, deslocar a próxima, negar o conforto de executar duas vezes a mesma resposta. Na forma mais alta, essa lei ficaria muito mais cruel.
Sinfonia do Relâmpago Verde.
O nome fazia parecer música para quem nunca tinha ficado diante dela.
Para Sandra, era disciplina. O primeiro corte fechava uma possibilidade. O segundo precisava nascer da posição que o primeiro tinha criado. O terceiro não tinha o direito de pedir que o inimigo repetisse o mesmo erro. Usar de novo a mesma linha contra o mesmo corpo era admitir que ela aprendera menos que o adversário.
Sandra ainda não estava lá.
Ela baixou o pano por um momento e foi até o poste redondo no canto.
Treze faixas estreitas de couro envolviam a madeira em alturas e inclinações diferentes. Não eram treze cortes para ela executar. Eram treze lugares onde um corte podia começar a pedir o próximo.
Sandra escolheu três.
Só três.
Sacou.
O primeiro movimento veio diagonal, curto, e arrancou uma lasca do lado direito do poste. A eletricidade verde apareceu atrás do fio, fina como nervura de folha.
Ela já não podia usar aquela mesma linha contra aquele alvo.
Mudou o próprio eixo em vez de girar a madeira.
O segundo corte subiu da esquerda e morreu dentro de outra faixa, sem cruzar a cicatriz anterior.
O corpo pediu o terceiro antes da cabeça terminar de escolher.
Sandra recusou.
Esperou.
A aura diminuiu.
Só então entrou por baixo, com a ponta, e tocou uma terceira faixa sem atravessar o poste.
Três decisões.
Três ângulos.
Nenhuma repetida.
Era pouco perto da forma plena que os registros antigos descreviam. Para o décimo segundo nível, pouco era exatamente o tamanho certo. Sandra não tinha interesse em fingir domínio futuro porque conhecia o nome das etapas.
Voltou ao pano.
Madeira aceitava erro e ficava para o treino seguinte.
Pessoa, nem sempre.
Raiz da Aura terminava no décimo nível.
Ela já tinha atravessado essa porta.
No décimo segundo, dentro do Corpo Ancestral, a mudança não era brilho maior. A aura começava a se fundir ao corpo de verdade. Músculo, tendão, osso e arma deixavam de receber energia apenas por fora e passavam a suportá-la por dentro.
Suportar não significava dominar.
O corte que partira Silar Vey tinha sido limpo.
Sandra não confiava nisso.
Limpeza podia esconder raiva muito bem.
Ela colocou o segundo pano.
Lina apareceu onde não devia.
Não como fantasma.
Como lembrança.
Uma mão pequena estendida para a direção errada.
Chuva no cabelo.
Terra nova debaixo da oliveira.
Sandra puxou a lâmina.
O pano caiu em duas partes.
Outra falha.
Ela não xingou.
Também não procurou desculpa na morte da menina.
Trocar dor por justificativa seria fácil demais.
Sandra recolheu os dois pedaços e colocou sobre a mesa.
Havia oito ali.
Se alguém entrasse naquele momento, pensaria que ela treinava para cortar melhor.
Era o contrário.
Ela precisava saber se a mão ainda obedecia antes de a ferida dar ordem.
No muro à frente, treze riscos antigos formavam uma sequência irregular. Alguns quase horizontais. Outros diagonais. Um subia de baixo para cima numa linha que parecia errada até Sandra imaginar um corpo ocupando o espaço diante dele.
Não eram os cortes dela.
Tinham sido deixados por gente antiga da casa.
Sandra não treinava para copiá-los.
Usava porque cada risco lembrava a mesma coisa: o ângulo que salvou alguém uma vez podia matar quem repetisse sem pensar.
Ela trocou de posição.
Terceiro pano.
Dessa vez, não sacou rápido.
Sacou tarde.
De propósito.
Deixou o corpo sentir a vontade de corrigir com velocidade.
Não corrigiu.
A eletricidade verde apareceu perto da guarda, correu metade da lâmina e parou junto com a mão.
O fio ficou a dois dedos do pano.
Inteiro.
Sandra recolheu a espada.
Melhor.
Do lado de fora do pátio, uma criança riu.
Outra mandou falar baixo.
Depois as duas riram mais baixo, o que era pior porque exigia esforço.
Sandra reconheceu Rosa e Davi sem ver.
Deixou.
Dias antes, teria mandado os dois para longe do muro enquanto alguém treinava.
Agora estavam do lado externo, fora da linha de risco e com Marta perto.
Era suficiente.
Proteção que expulsava criança de todo lugar acabava ensinando que sobreviver era outra forma de prisão.
Sandra odiava essa frase.
Por isso não a disse a ninguém.
Quarto pano.
Ela mudou o pé de entrada.
O corpo protestou menos do que deveria. Corpo Ancestral fazia isso cedo: ensinava músculo a aceitar pressão que antes exigia esforço consciente.
Sandra não confundia facilidade com permissão.
Soltou a lâmina.
O verde apareceu como um fio de relâmpago comprimido.
Parou um dedo antes.
O pano balançou.
Não cortou.
Sandra manteve os olhos abertos.
Do corredor veio a voz de Joel:
— Posso entrar?
— Não.
Silêncio.
— Fui convocado ontem.
— Ontem.
— A regra é irritante.
— Está funcionando.
Joel ficou do outro lado.
Sandra guardou a espada.
— O que foi?
— Homem do sul voltou de Pedra Baixa. Trouxe três nomes novos e quatro versões da mesma história.
A mão de Sandra permaneceu na bainha.
— Alguém perguntou pela subida?
— Dois.
— Pelos Oliveira?
— Três.
— Pela criança?
Joel demorou.
— Um perguntou o nome.
A bainha fez um som pequeno sob os dedos de Sandra.
Ela soltou.
— Anota separado.
— Já anotei.
— Quem perguntou?
— É isso que eu vim dizer. Não sabemos.
Sandra encarou o pano inteiro diante dela.
Outro dia, não sabemos teria empurrado a mão para frente.
Naquela manhã, ela respirou uma vez e deixou a lâmina onde estava.
— Então não inventa um inimigo para preencher espaço.
— Eu não invento.
— Joel.
— Eu tento não inventar.
Melhor.
Sandra recolheu os panos cortados e colocou os inteiros em outra pilha.
Oito falhas.
Quatro acertos.
Do lado de fora, Joel ainda esperava.
— Posso ir?
— Pode.
— Isso conta como ser desconvidado?
Sandra pegou o quinto pano.
— Agora conta.
Os passos dele se afastaram depressa.
Rosa riu do outro lado do muro.
Sandra quase sorriu.
Quase.
Recolocou o pano.
O mundo lá fora estava começando a aprender o nome Oliveira.
Ela não podia impedir isso cortando cada pergunta.
Sacou.
O relâmpago verde percorreu a lâmina.
Parou.
O pano continuou inteiro.
Dessa vez, Sandra não contou.