Capítulo 31 — O Rosa Que Não Se Gasta

Capítulo 31 — O Rosa Que Não Se Gasta

Antes de ver a água, Wellington sentiu a curva que ela fazia dentro da pedra.

Parou no caminho das hortas.

A calha antiga corria meio enterrada à esquerda da trilha, coberta por musgo escuro e duas placas de pedra que escondiam a água por quase quatro passos. Ainda assim, alguma coisa fina tocava Wellington por dentro e devolvia o movimento.

Frio.

Contínuo.

Mais rápido perto da descida.

Ele abriu os olhos.

A água continuava escondida.

Wellington sorriu de lado.

— Melhor.

A espada de treino tinha ficado na Casa Ancestral.

As três pedras que levara no bolso no dia anterior continuavam ali apenas porque ele esquecera de tirá-las.

Naquela manhã, não queria acertar nada.

Depois da pedra norte, dos olhos na mata e do carvão deixado dentro da pegada, força parecia a pergunta errada.

Alguma coisa observava.

Se quisesse aprender a Aura Divina, Wellington preferia não ensinar pelo tamanho do estrago.

Continuou andando.

A trilha subia atrás da casa e passava entre muros baixos, canteiros medicinais e raízes antigas que obrigavam a pedra do caminho a fazer curvas. Mais abaixo, a Oliveira velha engolia parte da vista com o tronco colossal e os joelhos de raiz saindo da terra. A Casa Ancestral aparecia aos pedaços atrás dela: madeira escura, pedra grafite, telhado molhado pela névoa da manhã.

Wellington soltou a Aura Rosa outra vez.

Não houve clarão.

O rosa saiu dele como uma pressão tão fina que primeiro parecia ausência.

Depois o mundo ganhou bordas.

A pedra sob a bota.

A raiz grossa atravessando a terra rasa.

Um prego antigo dentro do poste de madeira.

A água escondida na calha.

Duas folhas raspando uma na outra acima do muro.

Um pássaro pousando no telhado baixo do depósito.

Wellington não via nenhuma dessas coisas com os olhos.

Também não as conhecia por inteiro.

A aura não entregava cor, nome ou história.

Entregava presença.

Contorno.

Mudança.

Peso onde antes não havia peso.

Ele deu mais dois passos.

O campo acompanhou.

Era diferente de reforçar o corpo ou empurrar aura para dentro de uma arma. Naquilo, qualquer desperdício voltava como excesso de mundo.

Wellington expandiu mais.

A raiz ficou maior.

A calha inteira entrou de uma vez no campo.

O poste deixou de ser poste e virou madeira, metal, rachadura, umidade.

Depois vieram o muro, o mato do outro lado, pedras sob o barro, pequenos movimentos entre folhas, o tremor curto de alguma coisa correndo rente ao chão.

Tudo junto.

O sorriso desapareceu.

Rosa demais.

Wellington parou.

A pressão subiu pela nuca.

A respiração encurtou antes que ele percebesse.

Quanto mais empurrava o campo, menos conseguia separar uma coisa da outra. O mundo não ficava mais claro.

Ficava mais cheio.

Ele recolheu a aura.

As bordas sumiram primeiro.

Depois a água.

Depois a raiz.

Quando o rosa voltou para junto da pele, o silêncio pareceu grande demais.

Wellington passou a língua pelos dentes.

Gosto de metal.

Nenhum sangue.

Ainda.

Na Raiz da Aura, alcance era uma mentira fácil.

Abrir mais campo parecia avanço porque ocupava mais espaço. Mas espaço não servia de nada se tudo chegasse misturado e, pior, se cada palmo de aura espalhada dissesse a qualquer coisa sensível onde ele estava, quanto sustentava e como respirava.

Nível media subida.

Não media o que cada um conseguia carregar enquanto subia.

Wellington olhou para a calha.

Tentou de novo.

Menos.

A Aura Rosa saiu apenas até o bastante para tocar a água escondida, a raiz e o muro.

Três coisas.

Ainda misturadas.

Ele recolheu.

Esperou uma respiração.

Abriu outra vez.

Desta vez não tentou alcançar mais longe.

Tentou permanecer menos tempo.

A água apareceu.

A raiz.

O prego no poste.

Recolheu.

Deu um passo.

Abriu.

Fechou.

Mais um.

Abriu.

Fechou.

O mundo começou a chegar em pedaços curtos.

Não era controle perfeito.

Longe disso.

Às vezes a raiz entrava junto com pedra demais. Às vezes a água sumia porque ele recolhia cedo. Em uma tentativa, uma dor fina atravessou a têmpora esquerda e obrigou Wellington a ficar parado até a respiração voltar ao ritmo.

Mas havia diferença.

Antes ele precisava manter o campo aberto para não perder nada.

Agora começava a perceber que talvez pudesse perder quase tudo de propósito e ainda guardar o que importava.

Seguiu pela trilha.

Passou por um muro baixo onde a umidade deixava a pedra escura.

Abriu o campo da aura.

Sentiu a água atrás dele.

Uma ferramenta apoiada do outro lado do muro.

A raiz sob o pé.

Fechou.

Mais adiante, perto de um canteiro vazio, uma haste metálica estava enterrada no solo até quase desaparecer.

Ele só viu depois de sentir.

Wellington agachou e puxou a terra com dois dedos.

A ponta enferrujada apareceu.

— Você estava aí.

A haste não respondeu.

Diogo responderia.

Wellington cobriu de novo com terra e continuou.

O caminho estreitava antes da borda norte das hortas.

Ali, a pedra trabalhada acabava aos poucos. O muro ficava mais baixo. A vegetação crescia sem pedir alinhamento. A névoa entrava por entre os troncos e deixava gotas presas nas folhas largas.

Wellington diminuiu o passo.

Não tinha vindo patrulhar.

Era isso que repetia para si mesmo.

A Aura Rosa abriu.

Curta.

Água atrás.

Pedra abaixo.

Raiz à direita.

Folhas.

Um pássaro pequeno num galho baixo.

Fechou.

Deu mais dois passos.

Abriu.

A mesma raiz.

Outra pedra.

Folhas se movendo com o vento.

O pássaro tinha ido embora.

Fechou.

Wellington continuou até onde a trilha fazia uma curva e a mata começava a esconder o terreno mais depressa do que os olhos conseguiam organizar.

Abriu outra vez.

Uma folha se soltou no alto.

Ele a sentiu antes de vê-la.

Leve demais para ter peso de verdade, mas suficiente para alterar o campo enquanto girava.

A folha caiu.

Passou diante de um tronco.

Desapareceu.

Wellington parou.

A folha voltou.

Caiu mais meio passo.

Tocou o chão.

Ele não piscou.

O vento continuava.

O tronco continuava.

A raiz embaixo dele continuava.

Só aquele pequeno trecho entre a árvore e a pedra tinha engolido a folha por uma fração de segundo.

Wellington recolheu a aura.

Nada.

Abriu de novo.

Curto.

A pedra.

A raiz.

Folhas.

Tronco.

Nenhuma falha.

Ele fechou a mão.

Alguma coisa observava.

Ou ele queria demais que estivesse.

A diferença importava.

Wellington esperou.

Um.

Dois.

Três ciclos de respiração.

Nada se moveu.

Era exatamente o momento de voltar.

Ele sabia.

Desde Lina, dúvida parecia atraso. E atraso já tinha um corpo debaixo da Oliveira.

Por isso abriu a aura de novo.

Mais longe.

A pressão rosa atravessou a borda das hortas e entrou na mata.

Pedra.

Tronco.

Terra molhada.

Folhas.

Uma cavidade rasa junto à raiz.

Mais.

Wellington empurrou.

A dor voltou na têmpora.

Mais.

O campo ficou grosso.

As coisas começaram a se sobrepor.

A mão esquerda formigou.

Ainda assim ele procurou o ponto cego.

Não encontrou.

Empurrou mais um pouco.

O ar saiu curto dos pulmões.

Então alguma coisa mudou.

Não na mata.

Nele.

Wellington percebeu que já não estava tentando sentir.

Estava tentando obrigar o mundo a confirmar que ele tinha sentido certo.

Recolheu a aura de uma vez.

A trilha voltou a ser só trilha.

A mata voltou a ser mata.

O coração demorou mais que o resto.

Wellington ficou parado, mão esquerda abrindo e fechando devagar.

Se havia alguma coisa ali, acabara de aprender até onde ele estava disposto a procurar.

— Bom jeito de avisar o norte inteiro que você acordou.

Sandra vinha descendo pela lateral das hortas com um cesto pequeno apoiado no quadril.

Folhas medicinais.

Raízes.

Duas flores fechadas que Wellington não conhecia.

Ele olhou para ela.

— Eu estava sendo discreto.

— Estava rosa.

— Ninguém viu.

Sandra passou por ele.

— Você acha que ser visto é a única maneira de ser percebido?

Wellington ficou quieto.

Ela percebeu o formigamento antes de ele esconder a mão.

— Quanto?

— Pouco.

— Isso não é número.

— O bastante para aprender.

Sandra parou.

— Aprendeu o quê?

Wellington olhou para a curva da trilha.

A folha já estava no chão.

O ponto onde desaparecera parecia comum.

— Que tem coisa que some quando eu tento olhar direito.

Sandra acompanhou o olhar dele.

Não perguntou o que era.

— E você foi atrás.

— Eu confirmei que não consegui confirmar.

— Excelente uso do corpo.

— Funcionou.

— Sua mão está tremendo.

Wellington fechou os dedos.

Parou de tremer por teimosia.

Sandra voltou a andar.

Ele seguiu ao lado dela.

Por alguns passos, só a água nas calhas falou.

A Casa Ancestral apareceu entre as raízes enormes da Oliveira velha.

Wellington lembrou da faixa preservada na parede.

Preto.

Violeta.

Uma linha rosa em torno da árvore bordada.

— A faixa de ontem.

Sandra não diminuiu o passo.

— O que tem?

— A linha rosa.

— Eu sei qual é.

— Era dele?

Sandra levou mais tempo para responder do que precisava.

— Do antigo líder da linhagem.

Wellington mexeu o polegar dentro da mão ainda dormente.

— A aura dele era igual?

— Não.

Resposta rápida.

Ele esperou.

Sandra completou:

— Era próxima.

— Próxima quanto?

— O bastante para todo mundo achar que a sua veio dele. Longe o bastante para você morrer se tentar lutar como ele.

Wellington olhou outra vez para a mata.

— Ele também conseguia sentir o campo assim?

Sandra ajeitou o cesto.

— Do jeito dele.

— Isso quer dizer o quê?

— Que você continua querendo usar homem morto como manual.

Wellington soltou ar pelo nariz.

— Economizaria tempo.

— Também economizaria você.

Ele guardou a resposta.

— Então a Aura Divina Rosa já existia.

Sandra olhou para ele.

— A Aura Divina existia antes de nós dois. A sua forma é sua.

— E se minha forma for pouca?

— Cresce.

— Enquanto isso a gente baixa a cabeça.

Sandra voltou a andar.

— A casa abriu ontem.

— A casa não é o vale.

— E não virou trono quando abriu.

Wellington chutou uma pedra pequena para fora da trilha.

— Poder guardado por tempo demais vira poder cedido.

— Poder gasto só para provar que existe é cedido para a primeira pessoa que estiver olhando.

Wellington virou o rosto para ela.

A mata ficou atrás dos dois.

A frase pareceu pior naquela manhã.

— Você sempre tem uma frase pronta?

— Não. Algumas eu precisei sobreviver para aprender.

Sandra tocou com dois dedos a mão esquerda dele.

O formigamento respondeu até o cotovelo.

— E algumas você vai aprender antes de perder a mão.

— Dramática.

— Filho.

Foi pior.

Wellington deixou que ela seguisse na frente.

Esperou a respiração normalizar.

Depois não voltou para a mata.

Também não voltou direto para casa.

Ficou no caminho.

A água continuava correndo dentro da pedra.

Ele abriu a Aura Rosa.

Pouco.

A calha apareceu.

A raiz.

O prego no poste.

Fechou.

Abriu de novo.

Dessa vez a água veio primeiro.

Não porque estivesse mais perto.

Porque ele já sabia qual mudança procurar.

Fechou.

Mais um passo.

Abriu.

Uma pedra sob a lama.

Duas folhas se tocando.

A madeira úmida do muro.

Fechou.

Wellington olhou para a própria mão.

Não precisava ocupar tudo para perceber.

Não precisava sustentar tudo para continuar sabendo que estava ali.

A melhora não era alcançar mais longe.

Era quanto do mundo conseguia tocar sem deixar a própria forma espalhada por tudo que tocava.

No limite das hortas, o vento mexeu as folhas.

Wellington não abriu a aura outra vez.

Nenhum olho apareceu.

Nenhum tigre.

Nada que pudesse levar até Sandra como prova.

Só manhã.

Ele preferiu assim.

Por enquanto.

Se alguma coisa lá fora queria aprender a Aura Divina, Wellington já tinha mostrado mais do que pretendia.

Na próxima vez, mostraria menos.

E, se o nome Oliveira só chegava depois do dano, Wellington faria a própria percepção aprender a chegar antes.