Capítulo 30 — Atrás da Oliveira
Joel nunca tinha passado da pedra atrás da oliveira velha.
Não por proibição escrita.
Não precisava.
Quem vivia no planalto sabia onde a vila terminava sem Sandra colocar cerca em tudo. A praça subia devagar até a árvore. À esquerda ficava a pedra quebrada onde as crianças gostavam de subir para ver o lado leste. À direita, duas trilhas se abriam para as hortas e para a fonte.
Atrás da oliveira começava outra coisa.
Naquela manhã, Joel estava parado entre as duas.
Lina ficava antes.
A terra ainda era mais escura junto às raízes. Não havia monumento. Marta recusara flor demais, Diogo recusara pedra bonita e Sandra não perguntara a opinião de ninguém quando decidiu que a cova não viraria lugar de espetáculo.
Havia só uma pedra baixa com o nome.
LINA.
Rosa tinha deixado uma fita clara ali antes do sol nascer.
Mais abaixo, dezenove cultivadores esperavam na praça.
Quatro grupos.
Três completos.
Um com espaço demais entre Nilo e Bardo.
No livro de Joel, a defesa da Montanha ainda tinha vinte nomes. No chão, a ausência de Breno continuava contando junto.
Joel apertou o livro contra o peito.
— Você foi chamado — Marta disse atrás dele.
Ele virou só o bastante para vê-la junto ao caminho, uma cesta apoiada no quadril.
— Fui.
— Então vai.
— Eu estou indo.
Marta mediu os dois pés dele, ainda do lado de fora da pedra.
— Está ensaiando.
Joel baixou os olhos.
Estava mesmo.
Marta seguiu para a fonte sem ajudar mais.
A casa ancestral dos Oliveira ficava poucos metros além da árvore e um pouco acima dela. Não era grande do jeito que Pedra Baixa chamaria de grande. Não tinha torre, varanda de exibição nem telhado colorido. Era comprida, feita de pedra grafite e madeira escura, com dois corpos ligados por um corredor coberto e um muro baixo protegendo o pátio interno.
Vista da praça, parecia menor porque a oliveira tomava a frente.
Vista dali, Joel percebeu que era velha.
Muito velha.
Não pelo musgo. Quase não havia musgo nas paredes usadas. A idade aparecia onde mão nenhuma tinha conseguido apagar: degraus gastos no centro, quinas refeitas com pedra de outra cor, madeira substituída dentro de encaixes mais antigos, marcas de ferramenta em blocos cortados antes de Heren nascer.
Talvez antes de alguém lembrar quem tinha cortado.
A porta também era velha.
A dobradiça, não.
Acima do fecho, uma oliveira pequena fora marcada a ferro na madeira. O desenho tinha perdido a aspereza sem perder a forma.
Joel parou diante dela.
Ferro fosco. Grosso. Sem ferrugem. O pino girava dentro de um encaixe tão justo que a folha pesada abriu sem ranger quando Sandra puxou por dentro.
Em Pedra Baixa, uma dobradiça daquela seria mercadoria de balcão.
Ali era só o que fazia uma porta funcionar.
Sandra apareceu inteira no vão.
O cabelo preto estava preso para trás. A roupa verde-escura seguia a matriz dos Oliveira sem chamar atenção: tecido denso, costura firme, proteção leve no antebraço, uma pequena oliveira no peito. Nada brilhava. Nada sobrava.
A mão ainda levava faixa por baixo da proteção.
— Entra.
Joel entrou.
Depois parou outra vez.
Sandra fechou a porta.
— Se continuar parando em cada pedra, termina amanhã.
— Eu nunca entrei.
— Eu sei.
— Isso não ajuda.
— Não era para ajudar.
O corredor tinha cheiro de madeira seca, óleo de lâmina e uma erva amarga que Joel não conhecia. À direita, uma sala comum estava aberta. Mesa, banco, duas cadeiras, um braseiro baixo. À esquerda, prateleiras guardavam mantas dobradas, caixas de couro e lamparinas.
Nenhum objeto parecia decorativo.
Mesmo assim, Joel começou a somar sem querer.
O couro das caixas não tinha rachadura. As mantas eram grossas e todas do mesmo tecido firme. As lamparinas tinham vidro limpo, sem bolha. Havia três facas sobre uma bancada e nenhuma tinha cabo frouxo. Um armário de mantimentos estava entreaberto; Joel viu sacos de grão protegidos de umidade, carne seca, sal, raízes, potes de conserva e ervas separadas por cordão de cor.
Não havia ouro.
Havia a irritante ausência de coisa ruim.
Sandra percebeu para onde ele olhava.
— O livro.
Joel voltou a ser Joel.
— Aqui?
— Mais dentro.
Ela passou por uma segunda porta.
Joel foi atrás.

O pátio interno o pegou desprevenido.
Não pela beleza.
Pelo uso.
Pedras largas cobriam o chão. No centro, anos de pés tinham desenhado círculos mais claros sem tinta nenhuma. Cinco postes de madeira escura ocupavam a lateral direita, cheios de cortes em alturas diferentes. No muro oposto havia alvos de arco repintados tantas vezes que o centro tinha virado uma cicatriz grossa.
À esquerda, uma cobertura protegia armas de treino, pesos, cordas, escudos e lâminas guardadas em suportes simples. Joel reconheceu ferro bom antes mesmo de chegar perto. Heren reclamava de liga ruim com frequência suficiente para ensinar por irritação.
Uma espada curta tinha o cabo gasto e a lâmina perfeita.
Um escudo carregava uma rachadura antiga presa por três grampos de metal escuro.
Um machado sem fio estava apoiado no último suporte. Pequeno demais para Diogo.
Em cada peça, escondida perto da empunhadura ou na face interna, havia uma oliveira mínima.
— Isso tudo é de vocês? — Joel perguntou.
Sandra não parou.
— Foi.
Joel entendeu a diferença.
Algumas armas não esperavam dono.
Guardavam um.
No fundo do pátio, uma parede mais antiga atravessava a construção nova. A pedra era quase negra. Nela, nomes haviam sido gravados em linhas irregulares, uns nítidos, outros gastos até restar metade de letra.
Não formavam uma árvore bonita.
Formavam sobrevivência.
Ao centro havia uma placa de pedra clara com uma oliveira em baixo-relevo. O tronco estava polido onde gerações de mãos tinham tocado.
Joel diminuiu o passo.
— A Marca dos Ancestrais?
Sandra confirmou com um gesto curto.
— Minha mãe falava dela.
— Sua mãe foi apresentada aqui.
Joel levou um instante.
— Minha mãe não era Oliveira.
Sandra enfim parou.
— Eu sei.
Ela não explicou mais.
Joel olhou de novo para a pedra.
O entendimento veio devagar: sangue Oliveira não era a única forma de pertencer à Montanha.
Antes que pudesse perguntar, uma porta lateral abriu. Brina saiu carregando um bebê embrulhado numa manta cinza, seguida por uma mulher das hortas do leste. A mulher tinha os olhos vermelhos de quem chorara, mas não parecia triste.
Brina entregou a criança.
— Agora leva para comer antes que ele decida que tradição alimenta.
A mulher riu baixo.
— Ele já decidiu.
O bebê reclamou na mesma hora.
Brina apontou.
— Viu?
As duas passaram por Joel. A mulher fez um aceno pequeno para Sandra e seguiu até a saída.
Joel acompanhou com os olhos.
— Ela foi convidada.
— Foi.
— Porque o filho precisava ser apresentado.
— Sim.
— Então quem pode entrar aqui?
Sandra retomou o caminho.
— Sangue entra por direito. Função entra convocada.
— E curiosidade?
— Fica onde você ficou cinco minutos.
A sala de registro ficava depois do pátio, protegida por uma porta baixa e seca. Ali Joel entendeu que a primeira impressão do corredor tinha sido só a superfície.
Papel.
Não pilhas espalhadas. Papel guardado direito.
Livros de lombada simples ocupavam três estantes. Caixas protegiam folhas antigas contra umidade. Frascos de tinta estavam fechados com cera. Havia réguas de madeira reta, pesos pequenos de bronze, barbante fino, selos e mapas enrolados em tubos de couro.
Joel ficou ofendido.
— Vocês tinham isso?
Sandra colocou o próprio livro sobre a mesa.
— Tínhamos.
— Eu escrevi três meses com tinta que separava água.
— Você nunca pediu.
— Eu não sabia que existia.
— Então não saber funcionou.
Joel encarou as estantes.
Era a resposta mais Oliveira possível para possuir coisa boa.
Não mostrar.
Usar quando precisava.
Sandra puxou uma cadeira.
— Senta.
Ele sentou.
Ela abriu um mapa do planalto.
Não era desenho de criança. A folha mostrava o topo habitável, as nascentes, as áreas de horta, o pomar maior, a oficina, os quatro caminhos de patrulha e as linhas onde a pedra começava a cair para cada setor.
Joel passou o dedo sem tocar.
— Isso tudo é o topo?
— Cerca de sete quilômetros quadrados habitáveis.
No papel, a vila pareceu pequena de novo.
Sandra marcou o centro.
Praça.
Oliveira velha.
Casa ancestral.
Três coisas quase encostadas.
Depois vieram as casas, as hortas, a fonte, a oficina, os depósitos, os pomares e os pontos de vigia.
— Quero um segundo registro — Sandra disse.
Joel tirou a pena.
— Segundo como?
— O livro da praça continua público para fato, relato, entrada e saída. Esse não.
Ela tocou o mapa.
— Quero saber quem começou a subir depois de Pedra Baixa. Quem pergunta quantos Oliveira existem. Quem quer saber da subida. Quem compra comida demais para viagem curta. Quem fala de Silar sem ter estado lá. Quem ouviu Lina junto do nosso nome.
Joel não escreveu de imediato.
— Isso é espionagem.
— Isso é prestar atenção em gente que presta atenção em nós.
— Parece espionagem.
— Então escreve com letra pequena.
Ele soltou ar pelo nariz e começou.
No alto da folha, escreveu:
REGISTRO DE FORA.
Pensou.
Riscou.
Escreveu:
QUEM ESTÁ OLHANDO.
Sandra não corrigiu.
Joel apontou com a pena para o mapa.
— E como eu chamo este lugar?
— Qual lugar?
— Aqui. A casa. Sede do Clã da Aura Divina?
Sandra respondeu rápido:
— Não.
— Por quê?
— Porque o clã não cabe numa casa.
Joel esperou o resto.
Ela não deu.
Então ele se levantou e foi até a janela estreita.
Do lado de fora, os dezenove cultivadores ainda esperavam. Heren atravessava a praça com uma caixa de ferramentas. Brina descia com a mulher e o bebê. Duas crianças levavam cestos pequenos para a horta. Um homem consertava a calha do depósito. Kauã era uma sombra escura sobre um telhado, escolhendo ângulo.
Além deles, o planalto abria verde e pedra até encontrar a floresta.
Joel voltou para a mesa.
No canto da página escreveu:
Casa ancestral dos Oliveira.
— Melhor? — perguntou.
— Melhor.
— E o clã?
Sandra colocou um dedo no centro do mapa e abriu a mão sobre o papel inteiro.
Joel não perguntou de novo.
Quando voltaram ao pátio, a casa começou a receber função.
Não todos de uma vez.
Heren entrou primeiro para conferir o depósito que Wellington abrira. Tocou caixa, fecho, lona, gancho e prateleira. Reclamou de duas coisas que estavam boas e de uma que realmente precisava trocar.
Brina veio depois para contar mantimento e remédio. Marta entrou com ela, não como mãe de Lina, mas porque sabia qual casa tinha criança com febre, qual idoso comia menos sal e qual família mentia quando dizia que ainda tinha farinha.
Nilo recebeu passagem para a sala dos mapas. Os outros líderes de patrulha ficaram no pátio e marcaram os setores com pedra, corda e pedaços de madeira. Não precisavam ver todo o mapa para cumprir uma função. Precisavam saber onde começava a parte deles e quem chamariam quando terminasse.
Sandra não fez discurso.
Disse apenas:
— A casa abre para trabalho. Quem entrar por função não leva história de família para fora. Quem entrar por sangue não usa sangue para atrapalhar função.
Diogo, encostado num poste por ordem médica, perguntou:
— Essa segunda parte tem nome?
Sandra não olhou para ele.
— Tem vários.
Heren riu dentro do depósito.
Os grupos receberam sinais novos, corda seca, dois escudos reforçados, mapas parciais e uma obrigação que nenhum deles tinha antes: toda patrulha voltaria com o que viu e com o que decidiu não seguir.
Joel abriu uma linha para cada função.
Norte.
Sul.
Leste.
Oeste.
No quinto espaço da patrulha norte, não escreveu substituto.
Escreveu:
BRENO — AUSENTE.
Sandra viu.
Não mandou apagar.
— Vinte nomes — Joel disse. — Dezenove pessoas.
— Então não transforma conta em corpo — Sandra respondeu.
Perto do meio-dia, o pátio já não parecia segredo.
Também não parecia praça.
Continuava sendo uma casa, mas agora cada porta fechada precisava ter razão melhor que costume.
Foi quando Wellington entrou.
Trazia uma espada de treino numa mão e três pedras pequenas no bolso. A roupa negro-violeta estava limpa, mas já tinha reparo no punho. O emblema da oliveira aparecia pouco no peito e maior nas costas quando ele virou para fechar a porta.
O pátio estava cheio o bastante para todo mundo perceber que ele chegara por último.
Sandra perguntou:
— Terminou de ficar longe?
— Por enquanto.
— O inventário não terminou.
— Eu sei.
— O sinal oeste?
— Nilo terminou comigo antes da praça encher.
Nilo confirmou com a cabeça.
Sandra não agradeceu.
Também não usou a demora contra ele.
Apontou para os alvos.
— A partir de hoje, treino não é intervalo entre problema. É resposta.
Wellington olhou para os dezenove cultivadores, para o espaço de Breno no livro e para as portas abertas.
— Resposta para qual pergunta?
— A que cada um errou quando Lina morreu.
Ninguém gostou.
Era por isso que servia.
Joel fechou o livro e seguiu para a saída. Antes de cruzar o corredor, percebeu uma coisa na parede do pátio.
Entre duas armas antigas havia um pedaço de tecido preservado sob madeira e vidro. A cor quase tinha ido embora. Restava preto, violeta e uma linha rosada contornando a velha oliveira bordada.
Wellington passou diante dela.
Por um segundo, uma luz rosa muito fraca correu pela mão que segurava a espada.
Não tocou o tecido.
Não fez a casa responder.
Só repetiu a cor.
Joel ficou parado outra vez.
Wellington percebeu.
— O quê?
Joel abriu a porta.
— Nada.
Dessa vez ele não estava ensaiando.
Atrás dele, a linha rosada no tecido antigo continuou apagada.
Mas Joel já tinha visto.
Aquela cor não tinha começado com Wellington.