Capítulo 25 — O Nome Que Ficou

Capítulo 25 — O Nome Que Ficou

Sandra voltou antes de a noite fechar.

Kauã viu primeiro.

Estava no telhado da oficina desde que entregara Lina a Marta. O arco permanecia no colo. A chuva já tinha diminuído, mas ele continuava olhando a trilha como se água ainda pudesse trazer alguém de volta.

Quando Sandra apareceu na primeira curva, Kauã desceu.

Ela vinha sozinha.

Isso respondeu uma pergunta.

O jeito de andar respondeu outra.

Silar tinha acertado ela.

A manga estava cortada no ombro. Havia sangue seco e molhado misturado na lateral da roupa. Um risco atravessava o rosto. O antebraço tinha outro corte menor.

Kauã parou diante dela.

— Ele era tão bom?

Sandra continuou andando.

— Era bom.

— E isso?

Ele apontou para o sangue.

Sandra demorou um passo.

— Eu estava pior.

Kauã não perguntou mais.

A vila começou a sair das casas.

Não de uma vez.

Primeiro a porta de Joel. Depois a oficina. Depois duas janelas. Wellington apareceu na praça com a espada guardada. Diogo estava sentado onde Heren conseguia vigiar a mão aberta e a costela ao mesmo tempo.

Sandra colocou três coisas sobre a mesa de pedra.

Um colar quebrado.

Uma pedra branca.

Uma tira de couro marcada por um traço alto atravessado por três linhas finas.

Joel abriu o livro.

— Silar?

Sandra respondeu:

— Sentença cumprida.

A pena parou sobre a página.

— Testemunha?

— Pedra Baixa.

— Registro?

— Livro de passagem.

Joel escreveu.

Silar Vey executado em Pedra Baixa por sentença do Clã da Aura Divina pelo assassinato de Lina.

Sandra leu por cima.

— Coloca deliberado.

Joel acrescentou.

Assassinato deliberado.

— Por quê? — ele perguntou.

— Porque morte também acontece sem escolha. Escreve certo.

Joel olhou para ela.

A diferença importava mais depois de uma cabeça cair.

Ele manteve a palavra.

Wellington apontou para os objetos.

— E isso?

— Depois.

— Ele falou?

— Velkhar. Mavek. Véu Cinzento. Escrivão do Azar.

A praça ficou mais pesada a cada nome.

Sandra pegou um pano limpo e cobriu os três objetos.

— Depois — repetiu.

Ninguém discutiu.

Naquele dia, Lina vinha antes de quem tinha comprado Silar.

Sandra procurou a casa de Marta.

A porta estava fechada.

Ela atravessou a praça e parou diante dela.

Levantou a mão para bater.

O ombro ferido doeu.

A mão ficou no ar um momento.

Depois baixou.

— Marta.

A porta abriu.

Marta tinha o rosto de quem envelhecera sem passar tempo.

Viu os cortes em Sandra.

Viu que Silar não vinha atrás.

Não perguntou se ele estava morto.

Perguntou:

— Ele gritou?

Sandra respondeu a verdade.

— Sim.

Marta fechou os olhos.

— E ela não.

Não havia resposta boa.

Sandra entrou.

Lina estava sobre uma mesa coberta por pano limpo. Heren tinha lavado o sangue. Marta penteara o cabelo. A mão direita permanecia aberta ao lado do corpo.

Davi estava sentado no chão.

A roda de Lina ficava encostada na parede perto dele.

Ele não tocava.

Sandra parou diante da menina.

Por um instante, a praça de Pedra Baixa voltou inteira.

A voz de Lina saindo da boca de Silar.

A faca entrando no ombro.

A lâmina atravessando chuva e pescoço.

Nada daquilo mexeu a mão pequena sobre a mesa.

Marta falou atrás dela:

— Você viu ele antes.

Sandra virou.

Kauã tinha contado.

— Vi.

— E mandou ele embora.

— Mandei.

— Ele obedeceu?

— Naquele momento.

Marta se aproximou da filha.

— Ele tinha matado alguém quando você viu?

Sandra apertou a mandíbula.

— Não.

— Tinha entrado na vila?

— Não.

Marta passou a mão no cabelo de Lina.

— Então não inventa um crime de ontem porque eu tenho um morto de hoje.

Sandra ficou quieta.

A frase não tirou a culpa.

Só impediu que ela mentisse sobre a origem.

Marta continuou:

— Se você tivesse cortado um homem antes dele fazer alguma coisa, eu também teria medo de você.

Sandra sentiu aquilo entrar onde Silar não tinha conseguido.

— Eu perdi o controle.

Marta olhou para o sangue na roupa dela.

— Eu vi.

— Não viu.

— Vi o que voltou.

Sandra não respondeu.

Davi falou do chão:

— Foi minha voz.

As duas viraram.

Ele continuava olhando para as mãos.

— Lina saiu porque ouviu eu.

Sandra foi até ele e se agachou.

— Ouviu Silar.

— Com a minha voz.

— Sim.

Davi levantou o rosto.

— Então foi minha voz.

Sandra não tentou resolver com frase inteligente.

Sentou no chão diante dele.

O gesto fez o ombro ferido reclamar.

— Fala meu nome — ela disse.

Davi piscou.

— Sandra.

— Agora se outra pessoa copiar isso, deixa de ser sua voz?

Ele pensou.

— Não sei.

— Eu também não sei como chamar. Mas sei uma coisa.

Sandra apontou para a garganta dele.

— O que você faz com ela continua sendo seu. O que Silar fez é dele.

Davi chorou.

Não muito.

O bastante.

Marta se sentou ao lado e puxou o menino para perto.

Rosa apareceu na porta com Alessandra.

— Vai enterrar hoje?

Marta respondeu:

— Amanhã cedo.

— Onde?

— Na oliveira velha.

Rosa assentiu como se tivesse recebido tarefa.

Joel entrou depois, com o livro apertado contra o peito.

— Posso?

Marta olhou para Lina.

— Se escrever ela. Não só o que fizeram.

Joel abriu uma página limpa.

— Então me diz.

Marta ficou sem voz.

Era mais fácil dizer como alguém morreu do que dizer quem alguém tinha sido.

Davi falou primeiro.

— Ela mordeu a roda.

Joel ergueu os olhos.

— A roda?

— Quando era menor. Porque eu disse que era minha.

Marta corrigiu:

— Ela mordeu antes disso também.

— Porque queria saber se dente marcava madeira — Davi disse.

Por um segundo, Marta quase sorriu.

Não chegou.

Joel escreveu:

Lina mordeu a roda para descobrir se dente marcava madeira.

— Eu briguei — Marta disse.

— E eu ri — Davi completou.

— Escreve que escondia pão — Marta pediu.

Joel escreveu.

— E fingia que eu não sabia.

Escreveu.

Rosa entrou mais um passo.

— Ela arrumou minha boneca e ficou torta.

— Ficou horrível — Davi disse.

Rosa ficou ofendida.

— Eu gostei.

Joel escreveu os dois.

A página começou a receber uma menina em vez de um caso.

Kauã falou da porta:

— Ela discutia com regra até entender por quê.

Wellington, atrás dele, acrescentou:

— E às vezes depois de entender também.

Marta soltou ar pelo nariz.

Dessa vez foi quase riso de verdade.

Diogo gritou da praça:

— Teimosa.

Heren respondeu de algum lugar:

— Você não tem moral.

— Por isso reconheço.

Joel escreveu:

Lina era teimosa.

Essa foi a frase que fez Marta chorar.

Não assassinato.

Não Silar.

Teimosa.

Porque ali estava uma coisa que a morte não tinha inventado.

Sandra olhou para a página.

— Escreve o nome inteiro.

Joel esperou.

Marta disse:

— Lina de Marta.

Depois corrigiu a si mesma.

— Lina. Só Lina já basta.

Joel escreveu grande o suficiente para ninguém perder.

Lina.

A tinta secou normal.

Naquele dia, normalidade parecia uma coisa rara.

Do lado de fora, Heren finalmente perdeu a paciência com o sangue de Sandra.

— Agora.

Sandra saiu.

— Depois.

— Você já usou depois.

Heren apontou para um banco.

— Senta.

Sandra sentou.

Diogo ergueu uma sobrancelha.

— Quero aprender esse poder.

— Primeiro aprende a obedecer com a costela — Heren respondeu.

Enquanto Heren limpava o ombro, Alessandra examinou a lateral de Sandra sem tocar.

— Faca curta.

— Sim.

— Ele te pegou quando mudou a voz?

Sandra ficou quieta.

Kauã entendeu antes.

— Lina.

Sandra assentiu.

Ninguém comentou.

Diogo foi o único que apertou a mão boa até os dedos estalarem.

Joel voltou para a mesa com o livro de passagem copiado num pedaço de papel seco que Sandra trouxera protegido dentro da roupa.

— A regra de Pedra Baixa entra aqui?

— Entra.

— Como?

Sandra ditou devagar:

— Quem atacar alguém do Clã da Aura Divina, ou alguém sob nossa proteção, responde pelo que causar. A responsabilidade precisa ser provada. Assassinato deliberado pode receber sentença de morte.

Diogo levantou o rosto.

— Pode?

Sandra olhou para ele.

— Pode.

— Silar recebeu.

— Porque foi provado.

— Matou criança.

— E por isso morreu. Não transforma lei em vontade de matar antes do fato.

Diogo ficou quieto.

Sandra também.

Aquilo servia para ele.

Servia mais para ela.

Joel escreveu sem melhorar a frase.

Depois perguntou:

— E os nomes que ele deu?

Sandra apontou para os objetos cobertos.

— Outra página. Amanhã.

— Por quê?

Ela olhou para a casa de Marta.

— Porque hoje a gente não transforma Lina em pista.

Joel fechou o livro.

Ninguém abriu de novo.

Antes de a noite cair, Marta saiu e apontou para a oliveira velha atrás das casas.

— Amanhã. Quando clarear.

Sandra assentiu.

Kauã já sabia onde ficaria durante a noite.

No alto da árvore.

Vendo vila, trilha e o lugar onde abririam a cova ao mesmo tempo.