Capítulo 26 — A Oliveira Velha
Lina foi enterrada onde Marta mandou.
Debaixo da oliveira velha.
A oliveira velha erguia-se no centro alto da vila. O tronco era mais largo que algumas casas juntas, e as raízes atravessavam caminhos inteiros antes de voltar à terra.
Marta escolhera um intervalo entre duas delas. Ninguém plantava ali. Raiz daquela árvore quebrava qualquer linha reta.
Quando Lina era menor, dizia que a árvore tinha joelho.
Ninguém lembrou até Rosa falar.
— Ela dizia que a árvore sentava torta.
Marta fechou os olhos.
— Dizia.
A terra ainda estava mole da chuva.
Diogo tentou ajudar a abrir a cova.
Tentou era a palavra certa.
A mão continuava presa aberta. A costela ainda cobrava respiração. Na segunda pá, perdeu força. Na terceira, a madeira escorregou.
Heren chegou perto.
— Chega.
— Falta.
— Vai continuar faltando se eu precisar cavar você também.
Diogo pegou a pá.
Sandra falou atrás dele:
— Se cair dentro, fica.
Ele virou.
O ombro dela estava enfaixado. A lateral também. O corte no rosto parecia menor de manhã e, por isso, mais irritante.
Diogo olhou para a cova.
Depois para a própria mão inútil.
Soltou a pá.
— Tá.
A palavra saiu pequena demais para ele.
Nilo terminou o trabalho.
Ninguém comentou.
O corpo de Lina veio enrolado num pano claro.
Marta tinha penteado o cabelo outra vez.
Não porque precisava.
Porque ainda era uma coisa que mãe podia fazer.
Kauã carregou Lina até a árvore.
Quando chegou à beira da cova, Marta estendeu os braços.
Ele entregou.
Devagar.
O silêncio piorou.
Davi estava perto de Sandra.
Não encostava nela.
Também não se afastava.
Marta ficou com Lina nos braços por tempo demais.
Ninguém mandou descer.
As crianças da vila se juntaram aos adultos sem ordem. Antes fugiam de mão. Naquela manhã procuravam manga, cintura, braço, qualquer coisa que provasse onde o outro corpo estava.
Joel levou o livro.
Livro de registro não costumava ir a enterro.
Lina já estava nele.
Então foi.
Marta se ajoelhou e baixou a filha com ajuda de Heren.
Quando o pano tocou o fundo, Rosa começou a chorar.
Davi cobriu a boca.
Wellington ficou parado perto da oliveira, Aura Rosa tão baixa que quase não existia. Não queria medir terra. Não queria encontrar camada. Não queria transformar enterro em descoberta.
Mesmo assim, percebeu uma coisa.
As raízes da oliveira contornavam a cova.
Nenhuma entrava nela.
Alessandra percebeu também.
Os dois ficaram calados.
Sandra viu que tinham visto.
Também ficou.
Marta pegou o primeiro punhado de terra.
Deixou cair.
O som foi pequeno.
Davi se abaixou depois.
Pegou terra.
Não soltou.
Marta esperou.
— Foi minha voz — ele disse.
Ela respirou fundo.
— Não.
— Ela ouviu eu.
— Ela ouviu um homem roubando uma coisa sua.
Davi apertou a terra.
— Mas parecia eu.
Marta se aproximou.
— Então fica com a sua voz.
Ele ergueu o rosto.
— Como?
— Usando para falar dela certo.
Davi chorou.
Marta apontou para a cova.
— Fala uma coisa dela.
Ele demorou.
— Ela dizia que eu respirava alto.
— Outra.
— Ela escondia pão e achava que ninguém sabia.
Marta quase sorriu.
— Outra.
Davi olhou para a terra na mão.
— Ela era minha amiga.
A mão abriu.
A terra caiu.
Ninguém tentou melhorar aquilo.
Depois, cada um colocou um pouco.
Joel com a mão que contava saco.
Heren com a mão que fechava ferida.
Nilo com a mão que abrira a cova.
Rosa tão pouco que quase nada caiu.
Diogo pegou um punhado grande demais.
Sandra olhou.
Ele dividiu ao meio sem ela precisar falar.
Kauã foi um dos últimos.
Ficou com a lama apertada entre os dedos.
— Eu devia ter achado antes.
Sandra respondeu:
— Achou.
— Tarde.
Ela não mentiu.
— Sim.
Kauã olhou para a cova.
— Eu devia ter ido com você depois.
— E quem trazia Lina?
Ele não respondeu.
— Não divide o corpo em dois porque queria fazer as duas coisas — Sandra disse.
Kauã soltou a terra.
Depois subiu no primeiro galho grosso da oliveira.
Não por fuga.
De lá via a cova, as casas, a praça e o começo da trilha.
Ninguém mandou descer.
Quando a cova fechou, a vila ficou sem saber o que fazer com as mãos.
Marta resolveu.
— Cadê a comida?
Brina piscou.
— Eu achei que hoje...
— Cadê?
— Em casa.
— Busca.
Brina foi.
Sandra entendeu primeiro.
Marta olhou para ela.
— Criança morta não fecha fogão.
Sandra assentiu.
— Não fecha.
Aquilo não consertava nada.
Por isso servia.
Brina trouxe panela de raiz e sal. Joel trouxe tigelas. Heren trouxe água. Nilo bancos.
Ninguém tinha fome.
Sandra foi a primeira a comer.
Tentou usar a mão direita.
O ombro reclamou e um pouco caiu no chão.
Ela trocou para a esquerda.
Marta viu.
Pegou uma tigela também.
Davi ficou olhando para a própria comida.
Diogo sentou ao lado com cuidado.
— Come.
Davi negou.
Diogo provou a dele.
Fez careta.
— Está ruim.
Brina virou de longe.
— Está nada.
— Tem tristeza.
— Isso não fui eu que pus.
Davi olhou para os dois.
Diogo deu outra colherada.
— Eu também não quero. Come mesmo assim.
O menino conseguiu duas.
Foi o bastante.
Joel abriu o livro perto da árvore.
A página de Lina já tinha as memórias do dia anterior.
Marta apontou para uma linha vazia.
— Escreve mais uma.
— O quê?
Ela olhou para a terra nova.
— Lina está aqui.
Joel escreveu.
Lina está aqui.
A tinta secou sem se mover.
Nenhuma letra puxou nome.
Nenhuma página bateu.
Só secou.
Wellington soltou o ar.
Na praça, a roda verdadeira de Lina ainda estava perto da casa de Marta.
Depois da comida, Joel perguntou:
— Guarda onde?
Marta olhou para a roda.
— Na praça.
— Não em casa?
— Não.
Davi virou para ela.
Marta explicou:
— Se eu guardar, vira só coisa de mãe com saudade. Ela brincava com isso lá fora.
Rosa perguntou:
— E se alguém pegar?
Sandra respondeu:
— Pergunta antes.
Rosa pareceu achar pouco.
Naquele dia, pouco certo bastava.
Kauã pendurou a roda num poste baixo perto de onde as crianças costumavam correr.
O risco de dente ficou visível.
Davi tocou a madeira.
— Ela mordeu forte.
Rosa perguntou:
— Doeu?
— Na roda?
— Nela.
Davi pensou.
— Acho que não.
Rosa assentiu, satisfeita com uma resposta que adulto teria complicado.
No meio da tarde, Sandra chamou Joel, Wellington, Alessandra, Kauã, Diogo e os patrulheiros perto da cerca.
Marta ouviu de onde estava.
— Regra nova — Sandra disse.
Joel preparou a pena.
— Ninguém segue voz que não consegue ver.
Kauã acrescentou:
— Guarda confirma posição antes de responder.
— Sim.
Sandra continuou:
— Criança chamada fora de vista fica onde está e chama um adulto. Se a voz disser que alguém se feriu, o adulto vai. A criança não.
Diogo perguntou:
— E se for verdade?
— Então o adulto encontra.
Alessandra olhou para as casas.
— Não pode virar prisão.
Sandra ficou quieta.
Essa frase tinha peso depois de Lina.
— Não vai virar — respondeu.
— Pode.
Sandra olhou para ela.
Alessandra não recuou.
— Medo faz regra crescer sozinha.
Sandra passou o polegar pela faixa do ombro.
— Então vocês me avisam quando crescer demais.
Diogo quase sorriu.
— Eu aviso antes.
— Você avisa até quando está certa.
— Serviço completo.
O humor morreu rápido.
Mas existiu.
Já era alguma coisa.
Quando a tarde começou a cair, uma folha soltou da oliveira velha.
Não havia vento suficiente.
Wellington viu.
Alessandra também.
A folha caiu devagar e pousou sobre o livro aberto de Joel.
Exatamente sobre a linha:
Lina está aqui.
Joel tirou a mão.
Sandra levantou.
— Não toca.
Ninguém tocou.
A folha não escureceu.
Não escreveu.
Não virou voz.
Ficou.
Marta se aproximou.
— É dela?
Wellington olhou para a folha, para a cova e para as raízes que haviam contornado a terra.
Poderia inventar uma resposta bonita.
Não inventou.
— Não sei.
Marta assentiu.
— Então fica até a gente saber.
Joel fechou o livro com a folha dentro.
À noite, a vila apagou os fogos cedo.
Kauã ficou na vigília.
Sandra também não dormiu.
Perto da segunda troca, ele chamou baixo da praça:
— Sandra.
Ela apareceu com a espada na mão.
— O quê?
Kauã apontou para o poste.
A roda de Lina tinha girado.
Uma vez.
Não havia vento.
O risco de dente estava virado para a oliveira velha.
Sandra não se aproximou primeiro.
Esperou Wellington e Alessandra.
Os três foram até a árvore com Kauã na frente.
Marta já estava acordada, sentada perto da cova.
Ela apontou para o tronco.
Uma linha clara tinha aparecido na casca.
Não era escrita.
Não era corte.
Parecia uma veia fina subindo da raiz até a altura aproximada do ombro de uma criança.
Marta tocou antes que Sandra conseguisse mandar não.
Sandra deu um passo.
Nada aconteceu.
Marta fechou os olhos.
— Está morna.
Sandra olhou para Wellington.
Ele não tinha resposta.
Alessandra também não.
Depois de um homem que roubava vozes, ninguém estava com pressa de dar voz à árvore.
Sandra chamou:
— Joel.
Kauã já corria para buscar o livro.
Naquela noite, a vila não decidiu o que a oliveira queria dizer.
Só registrou que, depois de Lina ser enterrada, a madeira velha ficou morna.
Era pouco.
Era verdade.
E foi assim que o nome de uma menina ficou na Montanha enquanto, lá embaixo, o nome Oliveira começava a descer.