Capítulo 17 — O Brinquedo Que Aprendeu

Capítulo 17 — O Brinquedo Que Aprendeu

A roda permaneceu diante da cerca.

Pequena, clara e quase boba.

Pedra sangrando assustava. Sombra presa em sal assustava. Um homem sem sombra na primeira curva assustava.

Uma roda de carrinho fazia a praça lembrar que criança tinha mão pequena — e mão pequena pegava antes de perguntar.

Sandra levantou a lâmina.

— Ninguém toca.

Lina parou com o braço já estendido. Marta a puxou para trás.

— Eu não ia pegar.

— Ia.

Lina fechou a boca. Ia mesmo.

Davi observava os quatro riscos na lateral.

— Viu o jogo.

Joel abriu o livro.

— Como uma roda vê?

— Não sei.

— Ótimo. Pergunta errada de novo.

A madeira bateu uma vez no chão. Os riscos escureceram. Eram quatro marcas separadas, iguais demais às pedras que Lina colocara no caminho.

Kauã mantinha o arco armado no telhado.

Dentro da roda aberta, as crianças permaneciam imóveis. Nenhuma chorava ainda, e isso preocupou Marta mais que choro. Criança assustada demais não fazia barulho; guardava a regra no corpo e esperava o adulto dizer qual parte da infância precisava perder.

— Atira?

Sandra olhou para a roda e depois para a menina.

— Não. Se quebrar antes de entender, aprende quebra.

— E se rolar?

— Prende.

A roda rolou um palmo.

Parou.

Depois outro.

As crianças recuaram, menos Lina. Ela a encarava com a raiva pequena de quem vê alguém mexer no que não devia.

— Essa roda não é minha.

Joel escreveu a frase.

Marta apertou os ombros da filha.

— Como sabe?

— A minha tem um risco torto.

— Essa também tem.

— Não desse jeito. O meu parece dente.

Davi estreitou os olhos.

— Esse parece dedo.

Wellington deixou a porta da oficina, ainda torto por causa da costela.

— Alguém marcou copiando.

A roda avançou na direção do caminho de pedras. Lina tentou acompanhá-la; Marta a segurou.

— Ele quer entrar no jogo — disse a menina.

— Eu sei.

— Então não deixa.

— É o que estou fazendo.

— Não. Está me segurando.

Marta ficou sem resposta.

Sandra se ajoelhou perto de Lina.

— Se entrar, o que acontece?

— Ela é criança — protestou Marta.

— A coisa perguntou primeiro.

Lina examinou o caminho, a roda e as próprias mãos.

— Se entrar, o caminho fica com mão de fora.

Kauã soltou uma flecha. A ponta cravou no chão a um dedo da roda.

— Limite.

A roda tentou contornar. Duas flechas fecharam os lados, formando um triângulo ao redor dela. Presa, a madeira girou devagar até apontar para Lina.

Sandra avançou. A lâmina verde brilhou, e a roda recuou dentro do próprio espaço.

Da oficina, a marca na mão de Diogo bateu.

A roda respondeu.

Riku apareceu atrás dele.

— Está chamando coisa que cabe em mão.

Diogo tentou ocupar a janela com metade do corpo. Heren o empurrou para dentro.

— Eu estou vendo.

— Está sangrando para fora.

— Você virou enfermeiro?

Riku tomou o lugar da janela.

— Virei porta.

— Porta chata.

Lina olhou para os próprios dedos. Abriu. Fechou.

A roda girou.

Marta tornou a abrir a mão da filha.

— Não fecha.

O medo finalmente chegou ao rosto de Lina.

— Eu só mexi.

Davi falou baixo:

— Quer ensinar a pegar.

Era assim que entrava. Não por rugido ou fenda, mas pelo primeiro gesto de uma criança diante de algo que julgava seu.

Sandra ficou diante de Lina.

— Diga que sua mão não pega coisa chamada pelo norte.

— Minha mão não pega coisa chamada pelo norte.

A roda sacudiu as três flechas. A marca de Diogo respondeu de dentro da oficina.

Wellington permaneceu junto à mesa, longe o bastante para Sandra não mandá-lo voltar.

— Com o nome dela, Joel.

O carvão correu pela página:

Lina de Marta não pega coisa chamada pelo norte.

A roda parou. Não derrotada. Ouvindo.

Lina respirou.

— Eu não pego coisa dos outros.

Marta levantou uma sobrancelha.

— Desde quando?

— Ela pegou minha manga — disse Davi.

— Eu devolvi metade.

— Mordida.

— Ainda era metade.

O rangido que saiu da roda parecia madeira irritada.

Davi apontou.

— Não sabe a manga.

Joel ergueu o carvão.

— Então damos coisas pequenas.

Lina baixou o rosto.

— Eu quebrei uma roda do meu carrinho e escondi atrás da fonte.

Marta virou devagar.

— Quebrou?

— Foi antes.

— Antes de quê?

— De agora.

Sena procurou atrás da pedra da fonte e retirou uma roda velha, suja e rachada, com um risco torto que realmente lembrava um dente.

— Esta?

Lina perdeu a cor.

— Eu ia contar.

— Quando?

— Quando parasse de dar problema.

— Problema aqui cresce quando espera — disse Joel.

Sena mostrou a roda verdadeira de longe. Ela não tremeu, não chamou e não tentou provar nada.

— Porque sabe que está quebrada — disse Sena.

Davi negou.

— Porque não precisa provar que é dela.

Sandra permitiu que Lina avançasse até a borda do caminho.

— Você não é minha roda — disse a menina para a cópia. — A minha quebrou porque eu sentei no carrinho e ele não era para sentar.

— Eu falei — murmurou Davi.

— Você empurrou.

— Depois.

Lina ergueu a voz:

— A minha ficou atrás da fonte. Está suja, rachada e tem risco de dente. Marta brigou comigo. Davi riu. E eu ia contar.

Marta cruzou os braços.

— Ia?

Lina olhou para ela.

— Agora contei.

Uma fenda abriu a roda falsa. De dentro surgiu um fio escuro, sem força para escolher direção.

— Não sabe mais brincar — disse Davi.

A cópia precisava que alguém aceitasse o jogo. Sem Lina, restava apenas madeira errada.

Heren veio com pinça e sal.

— Agora posso odiar de perto?

Sandra assentiu.

Quando ele ergueu a roda, a peça tentou girar no ar e quase escapou. Kauã disparou pelo buraco do eixo, prendendo-a outra vez ao chão.

— Tenta girar quando perde nome — disse.

Oren observou o ponto atingido.

— Viu pelo buraco?

— Pelo eixo.

— Arqueiro de borda mesmo.

Kauã levantou os olhos.

— Kauã.

Oren aceitou a correção.

— Kauã.

Joel registrou:

Roda falsa presa por Kauã. Não pertence a Lina.

A madeira se partiu. O fio escuro tentou escapar, mas Sandra cortou o ar acima dele e Heren lançou sal. O movimento cessou.

Lina soltou o ar como se o segurasse desde o norte.

As outras crianças continuavam junto ao caminho, sem saber se a derrota da roda também encerrara a brincadeira. Sandra indicou as pedras.

— A roda perdeu. O caminho, não.

A menina da trança torta recolocou a folha que marcava a porta. Outra endireitou uma pedra. O jogo voltou em pedaços, ainda cuidadoso, mas pertencendo a elas outra vez.

Davi apontou para a roda verdadeira.

— Dá para arrumar?

— Eu arrumo — disse Oren.

Lina a escondeu atrás do corpo.

— Você cobra?

Ele pensou.

— Uma manga.

Lina olhou para Davi.

— Não a minha — ele avisou.

Oren recebeu a roda com cuidado.

— Vou deixar o risco de dente.

— Tem que deixar.

— Por quê?

— Porque é minha.

— Justo.

A praça começava a respirar quando um pequeno embrulho de pano caiu da névoa e parou antes da cerca.

Kauã o atravessou com uma flecha presa a corda e puxou até a linha verde. Heren usou a pinça para desfazer o nó.

Dentro havia uma unha humana, quebrada na ponta e suja de terra.

Nilo ficou branco.

— Breno roía até sangrar.

Davi não se aproximou.

— Essa não está mentindo.

Heren colocou a unha numa tigela limpa, sem sal.

— Se for dele, sal antes do nome pode tratar como ameaça. Se for isca, vai tentar alguma coisa quando ouvir.

Joel abriu o livro.

Nilo começou:

— Breno roía unha quando pensava. Dizia que ia parar.

Tomás levou a mão à boca ainda marcada.

— Nunca parava.

Joel registrou. A unha permaneceu imóvel.

Heren respirou melhor.

— Bom.

— Pior — disse Wellington.

Sandra acompanhou o olhar dele até a primeira curva.

— Primeiro mandou uma mentira. Depois, uma verdade.

Alessandra entendeu.

— Está separando isca de prova.

Davi completou:

— Está aprendendo como a gente separa.

A unha bateu uma vez na tigela. Ninguém soube dizer se confirmava ou ameaçava.

Na oficina, a marca de Diogo respondeu. O ponto claro no centro havia aumentado e agora possuía forma circular.

— Buraco de roda — disse Diogo.

Wellington viu a ligação.

A roda falsa procurara uma mão. A sombra procurara um gesto. Agora a marca aprendera um eixo.

— Cobre — ordenou Sandra.

— Com quê? — perguntou Heren.

— Tudo que não seja mão.

Ele usou pano e couro. Diogo não reclamou, o que mostrou o tamanho do problema.

Do lado de fora, Lina acompanhava os adultos.

— Foi minha culpa?

Marta tentou impedir que ela olhasse.

Davi respondeu:

— Não. Era a roda mentindo que queria ser sua.

— E se aprendeu por minha causa?

Sandra voltou à praça e se ajoelhou diante dela.

— Aprendeu porque tentou roubar sua brincadeira.

— Então fiz certo?

— Fez.

— Mas piorou.

Sandra demorou apenas o necessário para não mentir.

— Fazer certo nem sempre impede de piorar. Fazer errado teria deixado entrar.

Lina chorou primeiro no queixo, depois nos ombros. Marta procurou um consolo melhor e não encontrou nenhum que também fosse verdadeiro.

Sandra não corrigiu o choro nem a verdade; apenas pousou a mão em seu ombro.

Aquilo também era custo. Não corte, sangue ou osso. Uma criança aprendendo cedo demais que acertar não garantia um final feliz.

Joel escreveu:

Lina recusou a roda falsa. Mesmo assim, a roda ensinou eixo à sombra.

— Tem que ficar certo — disse ele.

— Tem.

A unha começou a arranhar o fundo da tigela.

Um risco.

Depois outro.

O terceiro veio igual aos anteriores.

— Não é a marca da sombra — disse Davi.

Tomás se aproximou.

— É contagem de patrulha. Três riscos iguais antes do nome: faltam homens, mas a formação ainda responde.

A unha acrescentou uma linha curta sob os três.

Tomás perdeu a cor.

— O faltante ainda carrega função.

Nilo não pediu para descer. Apenas perguntou:

— Breno ainda está segurando alguma coisa?

A unha bateu uma vez.

Nilo fechou os punhos, percebeu o gesto e tornou a abri-los. No dia anterior, teria atravessado a linha antes de Sandra terminar a ordem. Agora permaneceu no portão.

Progresso ou destruição.

Ninguém sabia qual dos dois ensinava mais depressa.

A lamparina balançou no limite.

Kauã tornou ao telhado.

— Movimento na curva.

A névoa abriu.

Um braço saiu dela, estendido em direção à vila. A mão fechada se abriu e revelou três pedras pequenas e uma roda quebrada.

Oren deixou cair a roda verdadeira que ainda segurava.

Ela continuava ali.

Na curva havia outra.

Igual demais.

— Agora aprendeu a fazer certo — sussurrou Davi.

A mão fechou e bateu três vezes no chão.

Então a voz de Breno veio de trás da névoa, mais fraca que antes:

— Não deixem... brincar... com mão fechada.