Capítulo 18 — Mãos Abertas
Sandra mandou todos abrirem as mãos.
Foi uma ordem simples.
Difícil de obedecer.
A praça inteira ergueu as palmas como se esperasse chuva: moradores, patrulheiros, cultivadores e crianças.
Joel prendeu o livro contra o peito com o antebraço.
— Isso é ridículo.
Sandra olhou para ele.
Joel abriu mais os dedos.
— Ridículo necessário.
Na primeira curva, o braço continuava estendido para fora da névoa. As três pedras e a roda duplicada permaneciam diante dele.
A voz de Breno ainda parecia presa no ar:
Não deixem brincar com mão fechada.
Aviso, pedido ou armadilha.
Sandra decidiu tratar como os três.
— Mãos abertas até eu mandar.
Marta segurava Lina pelos ombros com os pulsos. A menina chorava baixo.
— Eu não quero brincar mais.
Davi olhou para ela.
— Agora não é brincadeira.
— Era minha.
Ele não respondeu. De algum modo, aquilo pegara dela.
Kauã mantinha o arco apoiado no joelho. Não conseguia deixá-lo pronto sem fechar a mão, e esse era o problema.
A vila dependia de dedos fechados para puxar corda, erguer balde, segurar faca, costurar ferida, cortar lenha, fechar porta e impedir que uma criança caísse.
Sandra viu a compreensão atravessar os rostos, não como ideia, mas como rotina quebrada.
— Ninguém agarra nada. Usem pano, braço, gancho, corda ou bacia. Se cair, deixem cair.
Marta perdeu a cor.
— E se for uma criança?
Sandra demorou meio segundo.
— Segura com o corpo. Se não der, grita.
A ameaça escolhera um gesto que vinha antes do pensamento.
Pegar.
Segurar.
Salvar.
Heren surgiu à porta da oficina.
— Eu não costuro ninguém assim.
Diogo ergueu a mão presa pela tala.
— Empresto a minha.
— Sua mão é o motivo desta reunião.
A marca pulsou sob o couro. O braço na curva respondeu.
Sandra chamou Joel.
— Registra.
Ele tentou abrir o livro sem fechar os dedos. A capa escapou e caiu no chão.
Joel encarou o registro a seus pés.
— Vou precisar de exceção.
— Não.
— Então fica no chão.
— Fica.
Ele se ajoelhou, abriu a capa com o cotovelo e prendeu a pena entre dois dedos estendidos. Demorou muito para escrever:
A marca responde à palavra mão.
A letra saiu feia, mas a pulsação perdeu força.
— Eu odeio funcionar mal — disse Joel.
Na curva, as três pedras começaram a rolar em linha. A roda permaneceu atrás.
— Quer caminho — avisou Kauã.
— Para o jogo — disse Davi.
Lina recuou.
Kauã puxou a corda por reflexo. Os dedos fecharam.
A marca de Diogo e o braço na curva bateram juntos.
Ele soltou antes de disparar. A flecha caiu do telhado e cravou torta na praça.
Ninguém foi buscá-la.
Kauã observou a própria mão.
— Fechei.
— Eu vi — disse Sandra.
— Foi reflexo.
— Eu sei.
A vergonha apareceu apenas na voz:
— Não posso atirar assim.
Sandra apontou para as telhas.
— Arco no chão.
Kauã colocou a arma ao lado do joelho, devagar, como quem deixava parte do corpo.
Oren viu e não comentou. Sena também não. Numa praça em que quase todo gesto virava informação, o silêncio dos dois foi respeito.
O braço distante abriu e fechou a mão uma vez.
Zombaria.
Diogo avançou para fora da oficina. Heren o conteve com o cotovelo.
— Eu arranco esse braço com os dentes.
— Está sem permissão para dentes também.
Riku acompanhou a mão na curva.
— Quer fazer alguém fechar de raiva.
— Então damos outra coisa para ouvir — disse Wellington.
Ele abriu a mão, palma para cima.
Vazia.
Davi entendeu.
— Serve para mostrar.
Alessandra ergueu a própria palma.
— Testemunhar.
Sandra fez o mesmo. Depois Marta, Joel, Nilo, Tomás, Sena e Oren.
Riku demorou.
— Está difícil? — perguntou Diogo.
Ele abriu os dedos.
— Não por você.
As crianças acompanharam. A praça inteira ficou de mãos abertas, não como gente rendida, mas como gente mostrando que não havia pegado nada.
O gesto mudara de dono.
Na curva, a mão aberta oferecia caminho. Na praça, testemunhava recusa. A mesma forma sustentava duas leis contrárias, e agora o que as separava era a intenção de quem a mantinha.
O braço na curva travou. A roda falsa parou.
Joel se curvou sobre o livro.
Mão aberta não pega chamado do norte.
A palavra norte escureceu.
Alessandra indicou que continuasse.
Mão aberta mostra que nada foi aceito.
A roda duplicada rachou.
O braço na curva fechou de repente. A marca de Diogo puxou seus dedos contra a tala, fazendo a madeira ranger.
Heren agarrou o pulso.
— Grita.
Diogo resistiu, e Heren deu um tapa no rosto dele.
— Você me bateu?
— Grita.
Diogo rugiu.
Não foi técnica nem Forja. Foi dor humana, feia, atravessando a praça. O braço recuou um palmo.
— Eu odeio estar certo — murmurou Heren, já reforçando o couro.
A marca tornou a puxar. Na oficina, o machado esperava encostado à parede.
Riku ocupou o espaço diante dele, sem tocar no cabo.
— Sai — ordenou Diogo.
— Não.
— Riku.
Ele ergueu as duas palmas.
— Olha. Não estou pegando.
A frase não era bonita, mas entrou no lugar certo. Diogo viu o machado, as mãos vazias de Riku e a própria raiva tentando fechar seus dedos.
A marca perdeu ritmo.
— Isso não foi por você — disse Riku.
— Claro.
Na praça, a roda falsa tentou avançar. Lina deu um passo, e Marta ficou ao lado dela sem a agarrar.
A menina mostrou as palmas.
— Eu não pego você. Eu não brinco com você. Minha roda está quebrada e é minha porque quebrou comigo.
Oren sustentou a roda verdadeira, já consertada sem apagar o risco de dente.
Kauã desceu do telhado com uma pedra equilibrada na palma. Colocou-a diante da cópia.
— Limite.
Pôs outra de um lado e uma terceira do outro. Nenhum dedo se fechou.
A roda ficou cercada por um limite aberto.
— Não sabe sair sem alguém pegar — disse Davi.
Joel registrou:
Roda falsa cercada. Ninguém pegou.
A madeira se partiu. O fio escuro caiu no sal e parou.
— Acabou? — perguntou Lina.
Sandra examinou os pedaços e a primeira curva.
— Essa roda, sim.
Lina aceitou a resposta sem gostar.
Heren trouxe a tigela com a unha. Ela arranhou três riscos e a linha curta de patrulha. Depois começou a formar letras.
N.
A.
O.
Joel se aproximou.
— Não.
Vieram mais três letras.
M.
A.
O.
— Não. Mão — ele leu.
Wellington não tirou os olhos da tigela.
— Pode ser “não usem a mão”.
Nilo olhou para a curva.
— Ou não peguem Breno com ela.
O braço bateu no chão. A unha não respondeu.
Sandra não transformou hipótese em certeza.
— Se ele aparecer, ninguém agarra. Pano, rede, corda aberta e vara. Corpo apenas para bloquear.
Oren já calculava.
— Faço gancho para corda sem mão fechada.
— Não agora — disse Sandra. — Agora a vila aprende.
A manhã continuou de um modo absurdo.
Marta carregou pão sobre pano estendido. Sena ensinou duas mulheres a puxarem baldes com laços nos antebraços. Oren improvisou ganchos de madeira. Kauã percorreu a borda sem arco, com pedras nas palmas. Riku guardou a oficina com as mãos visíveis, e Diogo odiou isso em silêncio — mais ainda porque funcionava.
As crianças transformaram a ordem em jogo: mão aberta para entrar, mão aberta para sair; quem fechasse voltava ao começo.
Lina perdeu três vezes.
Davi perdeu uma e fingiu que não.
Marta viu e deixou passar.
Uma menina carregou uma folha na palma como se fosse prato. Um menino empurrou a pedra com o pulso e reclamou que aquilo não contava como mão. Pela primeira vez desde a curva, houve uma discussão que não tentava descobrir quem morreria.
Durante quase uma hora, a vila reaprendeu a viver com os dedos abertos.
Devagar.
Feia.
Funcional.
Então Joel derrubou o tinteiro.
O frasco escorregou da mesa. Ele o agarrou no ar por reflexo e ficou imóvel, com tinta escorrendo entre os dedos fechados.
— Eu soltei — disse assim que abriu a mão.
O tinteiro quebrou no chão.
A tinta correu para o livro.
Wellington pisou na frente. A mancha parou sob a sola e tentou subir pelo couro.
— Tira a bota — ordenou Sandra.
— Com a mão?
Kauã apareceu com duas varas, prendeu o calcanhar entre elas e puxou. Wellington deixou o pé descalço; a tinta cobriu a bota como sombra molhada.
No chão, a mancha formou cinco dedos.
Uma mão preta se abriu.
Depois fechou.
O livro de Joel abriu sozinho, e as páginas começaram a virar.
Sandra cortou a distância entre a tinta e o registro. A lâmina verde parou as folhas, mas a mão continuou inteira.
— Joel — chamou Wellington. — Diga alguma coisa pequena que pertença à sua tinta e ao seu livro.
Joel tremia.
— Eu diluo tinta boa para parecer que dura mais.
A mão hesitou.
— Escondo a melhor na gaveta de baixo e digo que acabou.
Marta cruzou os braços.
— Eu sabia.
— Depois você briga. Eu derrubei tinta no primeiro registro da vila e culpei a umidade.
Sandra olhou para ele.
— Foi você?
— Eu era jovem.
— Foi há dois anos.
— Jovem de espírito.
Um dos dedos de tinta se abriu.
Joel respirou e continuou antes que a vergonha pudesse fechá-lo:
— Também tenho uma conta errada no livro. Corrigi o total e não contei porque eram só dois punhados de farinha.
Sandra inclinou a cabeça.
— Depois.
— Eu sabia.
Outro dedo perdeu a forma.
Lina correu até um pedaço de carvão, equilibrou-o na palma e levou para Joel.
— Usa isso.
Ele se ajoelhou e escreveu grande, torto e feio:
Joel derrubou a tinta. Joel soltou o tinteiro. A tinta não escreve sozinha.
A mão se desfez. Restou uma mancha comum o bastante para sujar e nada mais.
Na oficina, a marca de Diogo também silenciou.
Riku apareceu à porta, sem ar.
— Ele não fechou.
Heren veio atrás.
— Porque sentei em cima dele.
— Isso não conta como vitória — gritou Diogo.
— Conta como medicina.
No fim da tarde, as mãos de todos doíam. Oren consertava a roda de Lina com ferramentas presas ao antebraço. Joel escrevia mal. Marta alimentava crianças sem agarrá-las. Kauã ainda vigiava sem arco.
Uma voz baixa saiu da tigela que guardava a unha:
— Aprenderam.
Nilo se levantou.
— Breno?
A unha arranhou uma palavra.
Não.
Depois outra.
Eles.
Ninguém soube se a voz fraca corrigira a si mesma ou se outra coisa usara a tigela.
Nilo ficou diante dela com as mãos abertas, incapaz de decidir se acabara de receber ajuda de Breno ou mais uma cópia feita com uma parte dele. Sandra não ofereceu resposta. Dar certeza naquele momento seria apenas outra maneira de abrir caminho.
Sandra fechou a mão no cabo da lâmina por reflexo. Percebeu e tornou a abrir os dedos.
Tarde demais.
Da primeira curva, veio uma batida.
E algo que não era Breno repetiu com a voz dele:
— Aprenderam.