Capítulo 16 — A Mão Que Não Fecha
Diogo tentou fechar a mão.
A marca fechou antes dele.
Os dedos travaram no meio do movimento, duros, como se alguém tivesse enfiado ferro frio entre os ossos.
Ele não gritou.
Isso fez Heren xingar.
— Grita.
— Não estou com vontade.
— Eu não perguntei vontade. Dor que não sai pela boca costuma sair por lugar pior.
— Você fala isso para todo mundo?
— Só para idiota importante.
Sandra segurava o pulso de Diogo com dois dedos. Não apertava. Não precisava. A marca escura no centro da palma pulsava no mesmo ritmo do fragmento de sombra preso na tigela de sal.
Tac.
A pele ao redor esfriou.
Riku guardava a porta da oficina. Wellington permanecia encostado à parede, pálido demais para fingir bem. Alessandra acompanhava a luz que entrava pela janela, enquanto Kauã vigiava do telhado baixo, arco no colo.
Davi, Marta e Lina estavam do lado de fora. Ninguém mandara as crianças ficarem perto, mas, naquela manhã, mandá-las para longe parecia apenas outro modo de deixar a Montanha escolher onde encontrá-las.
Heren aproximou uma lamparina da mão de Diogo. A marca encolheu um pouco, e ele voltou a respirar direito.
— Então é só queimar.
— Não — disse Sandra.
— Não falei em cortar.
— Pensou.
— Isso é injusto.
— Você pensa alto com o corpo.
Riku soltou um som parecido com riso.
— Você está confortável demais perto da minha mão boa — Diogo avisou.
Riku olhou para a palma marcada.
— Qual delas?
A marca pulsou. Os dedos de Diogo se fecharam mais um pouco, contra a vontade. Heren agarrou o pulso.
— Abre.
O braço inteiro tremeu. A mão não abriu.
Sandra aproximou a lâmina do centro da palma. A marca parou. Não desapareceu; apenas ficou imóvel, como se também pudesse olhar.
— Reconhece ameaça — disse Sandra.
Alessandra se aproximou.
— Mais que isso. Ela quer que ele segure alguma coisa.
Diogo encarou a própria mão.
— Meu machado.
Do lado de fora, o cabo da arma bateu uma vez contra a parede.
Tac.
Ninguém havia tocado nele.
O machado permanecia apoiado perto da porta, com o cabo manchado de sangue antigo e o couro gasto no lugar exato em que a mão de Diogo costumava fechar. O sol entrava pelo lado oposto, mas a sombra da arma apontava para dentro da oficina.
Para ele.
Davi falou do degrau:
— Não deixa ele pegar.
— Eu não ia — Diogo respondeu.
— Ia — disse Marta.
Lina apontou:
— Seu pé mexeu.
Diogo baixou os olhos. O pé realmente avançara.
— Traidor.
Riku fez menção de afastar o machado, mas Sandra levantou a lâmina.
— Sem mão.
Kauã desceu do telhado e lançou uma corda ao redor do cabo. Puxou. O couro rangeu; a arma não saiu do lugar.
Oren apareceu à porta com Joel logo atrás. O ferreiro se agachou diante do machado, sem tocá-lo.
— Não é o ferro.
— Então é o quê? — perguntou Diogo.
Oren indicou o couro escurecido no formato de uma palma.
— Onde sua mão fica.
Heren resmungou:
— Sangue, suor, aura e teimosia. Péssima mistura.
Alessandra acompanhou a mancha até Diogo.
— A sombra não chama a arma. Chama o gesto de segurar.
— E, se eu fechar a mão no cabo?
— Talvez entenda como permissão.
Davi respondeu antes que alguém perguntasse para quê:
— Para entrar no golpe.
Diogo tornou a olhar para o machado. Pela primeira vez, não tentou se levantar.
Sandra percebeu.
— Heren, faixa.
Heren pegou uma tala curta e uma tira de couro grosso.
— Para prender?
— Para impedir que feche.
— Não — disse Diogo.
— Sim.
— Sandra.
Ela parou diante da maca.
— Você quer segurar o machado?
Diogo fechou a boca.
Sandra esperou.
— Quero.
— Então a mão fica aberta.
Heren colocou a tala no centro da palma. Quando a madeira tocou a marca, fumaça preta subiu, e Marta puxou as crianças para trás. Sandra sustentou a tala com dois dedos; a Aura Verde brilhou apenas o suficiente para impedir que ela queimasse inteira.
— Continua.
A primeira volta de couro passou pelos dedos. A segunda firmou o punho. A terceira impediu qualquer fechamento completo.
Diogo respirava curto. O suor descia pelo pescoço. Riku olhava para a parede, não por desinteresse, mas por respeito torto.
Quando Heren terminou, a mão estava aberta, presa e inútil para agarrar qualquer coisa. O machado silenciou. A marca diminuiu, embora não desaparecesse.
— Ótimo — disse Diogo, com a voz áspera. — Agora posso dar tapa.
— Se bater em alguém com essa mão, quebro a outra — respondeu Heren.
— Finalmente uma boa regra — disse Riku.
Diogo virou o rosto para ele.
— Você está acumulando.
— Estou esperando você conseguir ficar de pé para cobrar.
— Covarde paciente.
— Vivo.
A palavra permaneceu na oficina.
Breno estava vivo ou quase. Tomás continuava vivo com a língua marcada. Davi estava vivo, ouvindo coisas que nenhuma criança deveria ouvir. A vila ainda respirava, mas cada pessoa havia perdido um pedaço de costume.
Sandra chamou Joel.
— Registra: Diogo Oliveira não segura arma até separarmos a marca da mão.
— Eu posso lutar sem machado — Diogo disse.
— Pode. Também não vai.
Ele ficou imóvel.
O silêncio seguinte não era medo de Diogo atacar. Era medo de vê-lo quebrar por dentro.
— Vai me deixar parado enquanto os outros descem?
— Vou deixar você vivo enquanto os outros fazem a parte deles.
— Minha parte é ficar parado?
Sandra não suavizou.
— Hoje, sim.
A marca respondeu com uma pulsação fraca, como se gostasse da raiva.
Wellington percebeu.
— Não alimenta.
— Quer trocar?
— Não. Eu não aguentaria ficar sem espada melhor que você aguenta ficar sem machado.
A honestidade parou Diogo.
Alessandra se aproximou do livro.
— Não registra só a proibição. Escreve o motivo.
Joel molhou a pena.
Diogo Oliveira mantém a mão aberta para impedir que a sombra use seu golpe.
A marca estalou. O machado não respondeu.
— Melhor — disse Joel.
Diogo não concordou, mas deixou de olhar para a tala como se pretendesse arrancá-la com os dentes.
Do lado de fora, a praça retomou uma manhã quebrada. Marta distribuía água. Lina separava pão. Nilo e Tomás vigiavam juntos a lamparina suspensa no limite. Oren levou a tigela com a sombra para uma pedra alta, cercada por ferro e água corrente. Sena ficou junto à fonte.
A vila parecia funcionar.
Até uma menina de trança torta empilhar três pedrinhas perto da mesa.
A de cima caiu.
Tac.
Todos se viraram. A menina congelou.
— Eu só estava brincando.
Davi perdeu a cor.
— Não faz três.
Marta recolheu as pedras.
— Ela não sabia.
Joel abriu o livro com cansaço imediato.
— Vou registrar brincadeira agora?
Sandra observou a praça. Todas as crianças estavam paradas. Nenhuma corria, batia madeira ou tocava pedra.
A ameaça não tinha entrado apenas no sangue ou na sombra. Tinha entrado na brincadeira.
— Não registra — decidiu Sandra. — Isso não vira proibição.
Ela se ajoelhou diante da menina e recolocou uma pedra no chão. Pôs a segunda ao lado, não em cima, e a terceira mais longe.
— Agora não é torre. É caminho.
Davi inclinou a cabeça. Nada respondeu.
— Nada de empilhar três ou bater três vezes. Se forem brincar, façam caminho aberto.
A menina limpou o nariz no braço.
— Pode ter quatro?
Joel fechou os olhos.
— Criança pergunta o que adulto tem medo de perguntar.
Davi escutou por um momento.
— Quatro espalhadas pode.
— Tem certeza? — perguntou Sandra.
— Não.
— Serve por enquanto.
Lina sentou no chão e colocou pão no fim do caminho.
— Aqui é casa.
Outra criança acrescentou uma folha.
— Aqui é porta.
Davi demorou, mas acabou sentando. Pôs uma pedra afastada das demais.
— Aqui é lugar que não responde.
Era pesado demais para uma criança. Ainda assim, as outras aceitaram como regra e voltaram a brincar — baixo, com cuidado, mas brincar.
Diogo assistia pela janela, com a mão aberta sobre a perna. Riku permanecia encostado ao lado.
— Difícil? — perguntou.
— Ficar parado?
Riku assentiu.
— Você faz perguntas idiotas para alguém que quer te bater.
— Quer, mas não pode segurar machado.
Diogo virou o rosto.
— Ainda posso morder.
— Isso foi ameaça?
— Plano.
Heren apontou uma agulha.
— Sem morder na minha oficina.
As crianças espalhavam caminhos que não levavam ao norte quando a marca pulsou de novo. Só Diogo e Riku ouviram.
— Está chamando — disse Diogo.
Sandra entrou.
— Estado.
No centro da marca havia agora um ponto claro. Não luz: espaço vazio.
Alessandra examinou sem tocar.
— Tirar o fragmento deixou um encaixe.
Na pedra alta, a sombra presa respondeu no mesmo ritmo.
Davi surgiu à janela antes que Marta o alcançasse.
— Para o pedaço voltar.
Heren cobriu a palma com outra faixa. Sandra levou a mão à lâmina, mas Alessandra a conteve.
— Se cortar agora, pode deixar o encaixe aberto.
— Tradução simples — exigiu Diogo.
— Se a sombra não voltar para você, pode procurar outra mão.
Uma criança riu na praça. Todos se voltaram para a janela, e o riso morreu.
Riku acompanhou a mão presa de Diogo.
— Se precisa de outra, eu posso...
— Não — cortou Sandra.
Diogo virou devagar.
— Você ia oferecer a sua?
— Não.
— Ia.
— Não por você.
— Claro.
— Então ninguém toca no fragmento — disse Sandra. — E ninguém oferece nada.
A marca reagiu à palavra.
Davi tapou os ouvidos.
— Gostou de “oferece”.
Sandra esperou Joel abrir o livro.
— Escreve: nada será oferecido à sombra.
Joel registrou. O fragmento bateu três vezes na tigela, mas as pedras do jogo ficaram quietas.
Marta percebeu primeiro.
— Não era com elas.
Sandra falou alto o suficiente para alcançar a praça:
— Continuem o caminho.
Lina colocou uma pedra longe das outras. Nada aconteceu. Outra criança fez o mesmo, depois outra. O caminho cresceu ao redor da oficina, da mesa e da cadeira virada de Breno.
Era uma roda torta, aberta em três lugares.
Imperfeita.
Humana.
A marca na mão de Diogo perdeu força e silenciou.
— Criança resolveu? — perguntou Joel.
— Criança atrapalhou — respondeu Wellington.
— Hoje isso é resolver.
A menina da trança torta levantou a mão.
— Deixamos aberto para Breno voltar.
Nilo fechou os olhos junto ao portão. Sandra examinou as três aberturas. Nenhuma apontava para o norte.
— Bom.
Então três batidas vieram da primeira curva.
Kauã se levantou no telhado.
— Tem alguma coisa na estrada.
Um objeto pequeno rolou pela névoa e parou antes da cerca.
Era uma roda de carrinho infantil.
Não vinha da praça.
Vinha do norte.
Na lateral, havia quatro riscos.
Lina sussurrou:
— Eu fiz quatro.
A roda bateu no chão uma vez e ficou quieta.
Wellington sentiu a costela gelar.
Sandra falou baixo:
— Aprendeu a brincar.