Capítulo 14 — A Sombra Que Não Voltou
A pedra sangrou sem deixar cair uma gota.
O vermelho ocupava a rachadura por dentro, fresco demais para caber em pedra e imóvel demais para ser sangue comum.
Joel olhou para o livro, depois para a prova do lado de fora da linha verde.
— Não vou registrar isso como pedra normal.
— Ninguém pediu — disse Sandra.
Nilo continuava de joelhos. Wellington e Kauã mantinham as mãos perto dos ombros dele, sem apertar. Se tentasse correr, teriam de derrubá-lo. Nenhum dos dois queria descobrir quanto ainda restava de força naquele homem.
Sandra permanecia diante da cerca com a lâmina baixa. A névoa fechara a primeira curva como se Breno nunca tivesse aparecido ali, sem sombra e com a palavra isca rasgando a boca.
Tomás chorava no banco. Marta segurava Lina e Davi. Sena Mizuhara mantinha as mãos molhadas sobre a fonte, Oren Ishidoro segurava o martelo e Riku guardava a oficina.
Atrás dele, Diogo tentava enxergar a praça sem abandonar a maca.
Heren o puxou pela faixa do peito.
— Mais um passo e amarro você.
— Só quero ver.
— Vê deitado.
Diogo olhou para Riku.
— Sai da frente.
— Não.
— Você está gostando disso.
— Muito.
Sandra chamou:
— Heren. A pedra.
O ferreiro olhou para Diogo e depois para Riku.
— Se ele passar da porta, derruba.
— Com prazer.
— Sem prazer demais.
Heren levou a caixa de couro até a linha verde. Não cruzou. Retirou uma pinça comprida e fez sinal para Kauã.
— Se mexer, prende no chão. Não quebra.
— E se vier em alguém?
— Aí quebra.
Sandra não corrigiu.
A pinça atravessou a linha. O fio verde da lâmina brilhou quando o metal passou, mas nada reagiu até Heren tocar a pedra.
Tac.
Nilo levantou a cabeça.
— Breno?
— Fica — ordenou Sandra.
Heren ergueu a pedra. O sangue correu para o lado mais baixo da rachadura como líquido comum. Coisa impossível obedecendo ao peso era pior do que coisa impossível voando.
Ele a colocou numa tigela vazia e espalhou sal ao redor, sem cobrir a superfície.
— Até agora, não gosta de chão.
Oren se agachou à distância.
— Nem de pertencer aqui. Essa pedra não é do norte.
— De onde é? — perguntou Nilo.
Oren apontou com a faca para o grão branco e sem veios.
— Caverna do oeste. Osso de rio antigo. Aparece pouco.
Sena observou a textura.
— Nascente profunda também traz.
— Quando a água rouba da caverna.
— Ou quando a caverna devolve.
Oren olhou para a fonte.
— Vocês Mizuhara falam como se água tivesse opinião.
Sena mostrou a superfície ainda inclinada para o norte.
— Hoje tem.
Joel ergueu a pena.
— Oeste ou nascente?
— Escreve só o que sabemos — respondeu Wellington. — Não pertence à trilha norte.
Joel registrou. A pedra estalou dentro da tigela.
Davi apertou a mão de Marta.
— Fez frio no meu dente.
Joel olhou para a frase recém-escrita.
— Registrei uma direção. Se a pedra não gostou, reclama no livro.
Heren retirou uma agulha da caixa.
— Vou colher o sangue.
Nilo se levantou depressa.
— Pode ser de Breno.
Kauã ergueu o arco. Nilo parou antes que alguém mandasse.
Heren baixou a voz.
— Pode. Também pode ser de outra pessoa, imitação ou isca. Enquanto não souber, trato como se pudesse ser dele.
Aquilo bastou.
A agulha tocou o sangue. O vermelho não grudou: agarrou o metal e subiu na direção dos dedos de Heren.
Ele soltou. A agulha caiu na tigela, e o sangue voltou para dentro da pedra.
Diogo falou da oficina:
— Tentou morder?
— Tentou subir.
— Pior.
Sena lançou três gotas da fonte perto da tigela. Duas ficaram onde caíram. A terceira rolou contra a inclinação, procurando a rachadura vermelha.
Ela fechou a mão, e a gota parou.
— A gota procurou o sangue.
Alessandra se aproximou. Estivera em silêncio desde que Breno desaparecera, e seu silêncio exigia mais cuidado que qualquer explicação.
— E isso já basta para nos fazer pensar em corpo.
Joel baixou a pena.
— Escrevo “sangue de Breno”?
Alessandra segurou seu pulso antes que a ponta tocasse o papel.
— Não sabemos de quem é.
Nilo olhou para o vermelho preso na rachadura.
— Veio com ele.
— Veio com a isca — corrigiu Wellington. — Primeiro damos dono ao sangue. Depois tratamos a pedra como parte desse dono.
Sandra corrigiu a direção da ameaça:
— Não está usando Breno. Está usando a falta dele.
A diferença era pequena, mas devolvia ao homem ausente algo que ainda lhe pertencia.
Joel escreveu:
A falta de Breno não é Breno.
A pedra bateu com força. A tigela tentou virar, e Kauã disparou. A flecha atravessou a borda e a prendeu à terra.
O sangue pulsou duas vezes antes de parar.
Alessandra olhou para a página.
— A frase separou Breno da prova. A pedra tentou desfazer a diferença.
Sandra apontou para Joel.
— Então a frase fica.
Joel endireitou a coluna um pouco. Nilo, não.
— E o Breno de verdade?
Sandra guardou metade da lâmina.
— Chegou até a curva.
— Sem sombra — disse Wellington.
— E foi puxado de volta — acrescentou Heren.
Nilo passou a mão pelo rosto.
— Sempre parte, sempre talvez. Vocês falam assim porque não são vocês lá fora.
Quem respondeu foi Tomás.
— É pior quando é a gente.
Nilo se virou. Tomás não deixou o banco.
— Voltei com a boca usada. Se Sandra tivesse me chamado de Tomás inteiro, talvez eu tivesse aberto a vila. Quero Breno de volta. Não quero que volte errado.
A raiva de Nilo perdeu o caminho. Ele assentiu, não por aceitar, mas por não conseguir mais mentir.
Sandra se aproximou de Tomás.
— Lembra do norte?
A marca em sua língua escureceu.
— Um pouco.
— O bastante para desenhar?
Nilo respondeu por ele:
— Não.
Sandra manteve os olhos em Tomás.
— Você decide.
Ele passou a mão na boca.
— Se desenhar sozinho, talvez use o mapa.
— Por isso não vai desenhar sozinho — disse Alessandra.
Joel fechou o livro.
— Nem pensem em usar minhas páginas.
— No chão — respondeu Sandra.
— Pior.
Marta trouxe sal. Sena, água. Joel buscou carvão, e Oren reclamou quando Heren tomou cinza fria da forja sem pedir.
Enquanto preparavam o chão, Marta recolheu o pão que endurecera sobre a mesa. O sol já alcançava o centro da praça. Todos haviam mudado de posição várias vezes; ninguém se afastara de verdade.
Abriram um espaço pequeno no centro da praça. Tomás sentou diante dele. As mãos tremiam. Nilo ocupou o lado esquerdo, não para orientar, apenas para que ele não tremesse sozinho. Alessandra ficou à direita; Sandra, em pé atrás dos dois.
Tomás desenhou o portão, a cerca e a primeira curva. Joel observou a linha torta e começou:
— Isso parece uma...
Sandra olhou para ele.
— Nada.
Quando o carvão marcou o lugar onde Breno aparecera, a pedra bateu uma vez contra a tigela.
Tomás parou.
— Continua apenas se lembrar — disse Alessandra.
— Eu lembro.
Depois da curva, ele traçou um barranco.
Nilo franziu o rosto.
— Não existe barranco aí.
— Agora existe.
Tomás desenhou uma abertura estreita.
— A voz vinha daqui.
Nilo reconheceu a direção.
— Perto do caminho velho de caça.
— O que foi fechado? — perguntou Wellington.
— Depois de um deslizamento.
Kauã falou do telhado:
— Não foi só deslizamento. Meu pai dizia que aquele caminho fazia volta sozinho.
Sandra virou para Joel.
— Está no registro?
— Meu livro nem existia quando o pai dele tinha medo de trilha.
— Existe agora.
Joel tornou a abrir o livro.
Tomás continuou. A marca na língua escurecia a cada linha. Alessandra tocou seu ombro e deixou uma camada azul, fina como água sobre pedra, estabilizar sua respiração.
Davi inclinou o rosto.
— O medo dele ficou reto.
Alessandra não respondeu. Tomás conseguiu terminar.
No desenho, o caminho ultrapassava a curva, contornava o barranco e voltava para trás do próprio portão.
Joel empalideceu.
— Entra por trás da vila?
Wellington observou a volta impossível.
— Quer que a gente pense que sim.
Oren apontou para o traço.
— Posso travar a volta com ferro.
— Água corrente quebra caminho fechado — disse Sena.
Kauã acrescentou:
— Dá para marcar de cima.
Riku não olhava para o desenho. Observava o ferro na mão de Oren, os dedos molhados de Sena e a flecha que Kauã já separara. Sua mão se fechou no batente.
Riku falou da porta:
— Takenaga chama isso de trilha com fome. Não pega quem pisa. Pega quem tenta endireitar.
Oren baixou a faca. Sena afastou a mão da fonte. Kauã não chegou a encaixar a flecha.
O mapa oferecera a cada um exatamente a resposta em que mais confiava.
Wellington viu a armadilha primeiro nas mãos deles.
— Não precisa que todos entremos pela mesma abertura. Basta que cada um tente corrigir o caminho do próprio jeito.
A pedra se moveu dentro da tigela e rompeu uma parte do círculo de sal.
Joel fechou o livro.
— Odeio quando concorda.
Sandra transformou o entendimento em regra:
— Ninguém corrige o caminho velho. Ninguém prende, lava, corta, marca, queima ou testa sem ordem.
Oren guardou a faca. Sena tirou as mãos da água. Kauã relaxou a corda.
Nilo continuou olhando o mapa.
— E Breno?
— Mandou não vir. Chamou de isca. Está lutando para não virar porta.
Aquilo não o consolou. Deu-lhe algo para respeitar.
O sangue dentro da pedra começou a subir. Sandra ergueu a mão antes que Heren jogasse sal.
Na superfície vermelha, formou-se uma imagem pequena: o rosto de Breno, o olho aberto, barro até o lábio rachado.
A boca se moveu sem produzir som.
Davi começou a chorar.
— Está sem voz.
Breno repetiu a palavra. Wellington não conseguiu ler. Alessandra também não.
Tomás compreendeu porque a própria língua conhecia aquele tipo de prisão.
— Sombra.
A pedra estalou. A imagem sumiu.
Nilo olhou para Sandra.
— A sombra dele está fora do corpo. Então buscamos a sombra.
— Não agora.
Dessa vez, ele não gritou.
— Quando?
Sandra apontou para o mapa.
— Quando soubermos buscar sem levar outra junto.
Da oficina, Diogo falou:
— Breno é teimoso. Se segurou até aqui, segura mais.
Heren respondeu:
— Você não tem direito de chamar ninguém de teimoso.
Diogo apareceu no batente, quase caindo em pé.
— A gente busca. Mas busca direito.
Nilo assentiu.
— Direito.
Sandra olhou para o sangue que já manchava a madeira sob a faixa de Diogo.
— Volta para a maca.
— Estou inspirando a patrulha.
— Está pingando na porta.
Heren o empurrou para dentro. Riku fechou a porta na sua cara.
— Traidor — reclamou Diogo.
— Vivo — respondeu Riku.
O quase-riso morreu quando a pedra tornou a rachar.
Dessa vez, não saiu sangue. Um fio escuro subiu da abertura, pesado como fumaça molhada.
Kauã atirou. A flecha atravessou sem prender o fio.
O fio foi direto para a cadeira de Breno.
Sandra avançou e cortou o ar. A sombra se partiu; uma metade caiu e desapareceu na terra, a outra tocou a palha do assento.
A cadeira rangeu e afundou como se alguém invisível tivesse sentado.
Nilo deu um passo. Sandra ergueu a lâmina.
— Ninguém toca.
Davi recuou até bater nas pernas de Marta.
— Não tem o mesmo frio.
Alessandra olhou da pedra para a cadeira.
— Porque não veio de Breno.
— Então o que é?
Wellington sentiu a resposta encaixar.
— Um molde. Está preparando um lugar para a sombra caber.
Joel começou a escrever sem esperar ordem:
A cadeira de Breno está vazia. Nenhuma sombra senta no lugar dele sem o corpo.
A palha estalou. O fio tentou se erguer, e Sandra o cortou pela segunda vez. A Aura Verde correu apenas pelo fio da lâmina. A sombra virou cinza antes de alcançar a terra.
A cadeira voltou à forma antiga: torta, gasta e vazia de verdade.
Joel terminou a frase. A pedra perdeu o brilho.
Heren surgiu novamente na porta com as mãos sujas de sangue de Diogo.
— Acabou?
Sandra olhou para o norte.
— Não.
A primeira curva escureceu. Não de névoa, mas de sombra.
Lá dentro, três batidas repetiram a cadência do aplauso. Não precisaram de voz para mostrar que agora vinham mais perto.