Capítulo 15 — A Flecha Que Errou Certo

Capítulo 15 — A Flecha Que Errou Certo

Sandra mandou virar a cadeira de Breno.

Joel quase protestou, não pela cadeira, mas pelo modo como ela deu a ordem — como se até madeira velha pudesse desobedecer.

— De cabeça para baixo — disse Sandra.

Nilo continuou olhando para o assento.

— Por quê?

Ela segurou o encosto.

— Cadeira virada não recebe ninguém.

— Igual à tigela — entendeu Joel.

Marta ajudou. As quatro pernas ficaram para cima, tortas e ridículas. Ninguém riu, mas a cadeira pareceu menos triste daquela forma. Menos convite.

A tigela rachada ficou virada ao lado dela. A fivela partida foi para uma bacia com sal; o pano azul, preso entre duas pedras. A pedra branca continuou dentro de outra tigela, atravessada pela flecha que impedia a borda de sair da terra.

Breno havia virado um punhado de objetos no centro da praça.

Nilo olhava para eles sem falar. Sandra preferia raiva com voz.

— Inteiro? — perguntou.

— Estou aqui.

— Não foi o que perguntei.

Ele demorou.

— Não. Não inteiro.

— Então fica onde eu possa ver.

Nilo foi até a mesa e parou ao lado do livro de Joel. Não sentou.

— Quer pão? — perguntou Joel.

Nilo apenas olhou.

— Pergunta errada — Joel concluiu, guardando o pedaço.

Davi estava perto de Marta, mas não tirava os olhos da primeira curva. Lina segurava a manga da mãe com uma mão e uma faca pequena com a outra.

Marta viu.

— Onde pegou isso?

— Com Joel.

Joel levantou a cabeça.

— Não dei faca a criança.

Lina mostrou a lâmina curta.

— É de descascar raiz — disse ele. — Ferramenta.

— Corta.

— Muita coisa corta.

Marta tomou a faca.

— Eu ia proteger Davi — reclamou Lina.

Davi respondeu sem olhar para ela:

— Eu ouvi.

— Então fica atrás.

— Já estou atrás.

— Fica mais.

— Ninguém protege ninguém com faca de raiz — encerrou Marta.

Diogo gritou da oficina:

— Depende da raiz.

Heren respondeu:

— Cala a boca e não sangra.

Riku estava sentado à porta, fingindo não se importar. Toda vez que Diogo respirava errado, porém, virava meio rosto. Wellington percebeu. Riku percebeu que ele percebera. Os dois deixaram o assunto quieto.

No telhado do armazém, Kauã mantinha três flechas presas entre os dedos. Não apontava para a curva, mas para o espaço entre ela e a cerca.

Sandra ergueu o rosto.

— Se for Breno?

— Não atiro.

— Se parecer Breno?

Kauã levou menos tempo para responder:

— Atordoo o caminho.

— Não o corpo.

— Não o corpo.

A primeira curva escureceu como tecido absorvendo água. A névoa subiu até a altura dos joelhos e parou.

Davi segurou a mão de Marta.

— Está vindo.

Sandra acendeu apenas o fio da lâmina. Nilo moveu meio pé, e Joel agarrou a parte de trás de sua roupa.

— Solta.

— Não.

— Você está tremendo.

— Estou. Mas estou segurando.

Nilo olhou para a mão de Joel e não se livrou dela.

A névoa abriu.

Breno surgiu na primeira curva, mais perto do que antes. O corpo pendia para a esquerda. O uniforme azul estava rasgado no peito e no ombro. Barro seco cobria um dos olhos; o outro olhava para a vila.

Ele levantou uma mão.

Davi começou a chorar. Marta se abaixou ao lado dele.

— É Breno?

O menino balançou a cabeça.

— É o corpo.

O sol já ultrapassara o telhado da oficina. As sombras das árvores, da cerca e das pedras cortavam a trilha com bordas nítidas. Sob os pés de Breno não havia nenhuma. Apenas uma mancha escura atrás dele, afastada do corpo como se tivesse esquecido a quem pertencia.

Kauã puxou a corda.

A pena roçou sua bochecha e tremeu uma vez. Era a única parte dele que admitia o risco.

— Não — disse Nilo.

Sandra nem se virou.

— Ele não vai acertar Breno.

— Como sabe?

— Porque mandei.

Entre a cerca e Breno, a trilha oferecia três pontos firmes: uma árvore à direita, uma pedra clara à esquerda e uma faixa de terra no centro. Kauã escolheu os três, não o homem.

A primeira flecha passou longe do homem e cravou numa árvore à direita. A segunda atingiu uma pedra à esquerda. A terceira entrou no chão entre a curva e a cerca.

Três pontos. Nenhum no corpo.

A mancha escura se contorceu.

Davi tapou um ouvido.

— Errou certo.

Breno deu um passo. A flecha central tremeu, e o corpo parou como se houvesse encontrado uma parede. A sombra tentou avançar sozinha; as duas flechas laterais puxaram sua borda para trás.

— Prendeu a rota — disse Oren.

Breno abriu a boca.

— Nilo.

Nilo fechou os olhos. Joel apertou sua roupa.

— Não responde — ordenou Sandra.

— Nilo.

A segunda chamada parecia mais humana. Mais Breno.

— Estou aqui — respondeu Nilo.

A sombra cresceu um dedo na direção da praça.

Wellington viu.

— Alimenta com resposta.

Nilo ficou branco.

— Eu só...

— Eu sei — disse Sandra. — Kauã, corta a escuta.

Ele trocou a flecha por uma ponta enrolada em pano e sal.

Joel reconheceu o tecido.

— Esse é meu saco de sal.

Kauã soltou. A flecha passou sobre Breno e explodiu contra um galho. O sal caiu entre a curva e a vila como uma chuva fina.

A voz falhou. A sombra recuou.

Nilo levou a mão à boca para impedir que o próprio nome saísse outra vez.

Breno tentou ajoelhar. O corpo dobrou num ângulo ruim.

Nilo puxou a roupa contra a mão de Joel.

— Ele vai cair.

— Deixa.

— Joel.

— Se for ele, buscamos depois. Se for coisa, não abrimos a vila.

A voz de Joel quebrou, mas a mão não. Nilo permaneceu.

Breno caiu de joelhos. A sombra atrás dele cresceu depressa.

Kauã atirou no escuro. A flecha atravessou sem deixar marca.

— Não pega.

Wellington olhou da sombra para Nilo. O capitão observava Breno como se a praça inteira tivesse desaparecido.

— Nilo, fecha os olhos.

— Não.

— Fecha.

Sandra chamou seu nome uma única vez. Ele obedeceu.

A sombra parou.

Nilo respirou como se segurasse o próprio peito.

— Não posso nem olhar?

— Pode — respondeu Alessandra. — Mas não sozinho.

Ela colocou uma mão em seu ombro e chamou Tomás. O patrulheiro ocupou o outro lado.

— Eu olho junto — disse, ainda com dificuldade.

Nilo abriu os olhos. A sombra se moveu, mas já não cresceu. Três pessoas olhavam para Breno e lembravam de três formas diferentes. A ausência deixou de ter uma linha única por onde puxar.

Breno ergueu a cabeça. Os lábios se moveram sem som.

Davi apertou os olhos.

— Está falando sem voz.

A palavra era curta. Breno repetiu, e a sombra se debateu.

Wellington leu:

— Luz.

Sandra pediu fogo. Heren surgiu à porta.

— Fogo perto de sombra falsa costuma vir acompanhado de ideia ruim.

— Pedi fogo, não opinião.

— A opinião vem junto.

Joel correu à cozinha comum e voltou com uma lamparina. A chama tremia dentro do vidro.

Sandra a levou até a cerca. A sombra recuou antes que a luz alcançasse a linha.

Wellington ergueu a mão.

— Não aproxime do corpo. Se empurrar a sombra para dentro dele, perdemos a separação.

Kauã desceu e recebeu a lamparina de Sandra.

— Suspende no limite.

Ele amarrou uma corda fina ao aro, tornou a subir e passou a linha por uma viga alta da cerca. A lamparina ficou no ar, a meio caminho entre a praça e a curva.

A chama se firmou.

A linha verde permanecia do lado da vila. Depois dela vinha a lamparina; além da luz, Breno; atrás do corpo, a sombra falsa. Pela primeira vez, o perigo tinha lugares separados.

Uma sombra pequena apareceu aos pés de Breno.

Fraca, estreita e ligada a ele.

Davi soltou o ar.

— Achou um pedaço.

A mancha maior continuava atrás, separada. Kauã tornou a puxar o arco, mirando não o centro, mas a borda onde ela tentava tocar a sombra de Breno.

Wellington acompanhou o ângulo.

— Por que ali?

— O centro imita. A borda esquece.

A flecha acertou o ponto de contato. Não houve impacto, apenas um silêncio curto, semelhante a pano molhado sendo rasgado no escuro.

A sombra falsa recuou. Breno caiu de lado.

Nilo gritou seu nome. Sandra deixou o grito passar, não o homem.

A sombra pequena permaneceu sob o corpo. A falsa voltou a se estender.

Kauã pegou outra flecha. O braço estava firme; o rosto, não.

A pena tornou a encostar em sua bochecha. Desta vez não tremeu, mas Kauã demorou uma respiração a mais.

Wellington percebeu a pausa.

— Tem ângulo?

— Se errar, acerto a perna.

Sandra respondeu:

— Dúvida não dispara.

Kauã baixou a ponta um dedo.

A sombra falsa avançou.

Davi chorou.

— Vai sentar nele.

Kauã não atirou.

Saltou do telhado, correu até a cerca e parou antes da linha verde. Cravou uma flecha no chão, puxou a corda e baixou a lamparina até a altura do peito. Depois prendeu a linha à haste.

A luz abriu um corredor estreito.

Breno gemeu.

Som real. Pequeno.

Nilo caiu de joelhos.

— Está vivo.

Sandra não disse talvez.

Heren foi mais preciso:

— O corpo está.

A sombra falsa tentou contornar a luz. Kauã cravou mais três flechas na terra, não para feri-la, mas para segurar a corda. A lamparina parou de balançar.

O escuro buscou o lado, tentou passar por baixo e, por fim, subiu como fumaça pesada.

Wellington sacou a espada. Sandra ergueu a lâmina. Alessandra deu um passo.

Kauã prendeu a ponta livre da corda a uma flecha e atirou primeiro.

A flecha passou por cima da chama e entrou na árvore atrás de Breno. A corda presa a ela arrastou a lamparina um palmo para a frente.

Foi a luz que atingiu a sombra.

A mancha rasgou. Um pedaço escuro caiu e, pela primeira vez, não desapareceu na terra.

Kauã já procurava outra flecha.

— Heren.

O ferreiro entendeu. Correu com uma pinça e uma tigela de sal.

— Eu odeio correr para sombra.

— Pega.

Heren se esticou até o limite, prendeu o fragmento e o jogou no sal. A pinça esfriou em sua mão. A sombra bateu três vezes contra a cerâmica.

Kauã manteve o arco apontado.

— Fica.

Ela ficou, não por obedecer, mas porque já não conseguia sair.

Joel abriu o livro com a mão trêmula.

— O que escrevo?

Sandra respondeu:

— Fragmento de sombra falsa preso com luz e flecha.

Kauã negou.

— A flecha não cortou. Levou a luz.

Joel riscou antes de terminar e escreveu de novo:

Sombra falsa rasgada por luz levada por flecha.

As batidas cessaram.

Davi observou a tigela.

— Parou de bater.

Marta olhou para ele.

— Isso é bom?

— Não sei.

Sandra mandou Heren guardar a amostra longe da cadeira, da tigela, da fivela e de qualquer pessoa. Oren ofereceu ferro em volta; Sena, água corrente por perto. Sandra permitiu apenas que guardassem, sem testar nem tentar corrigir o caminho.

Na curva, Breno se moveu.

Nilo avançou. Sandra segurou seu braço, dessa vez apenas para lhe dar tempo.

Breno levantou a cabeça. A sombra pequena continuava sob ele, frágil, mas presa ao corpo.

— Não... confiem... no meu rosto.

Nilo ficou imóvel.

Breno tossiu. Algo dentro da névoa o puxou. Sua sombra tentou ficar e foi arrastada junto.

Kauã ergueu o arco.

Não havia ângulo, corpo seguro nem flecha certa.

Breno desapareceu.

A lamparina balançou no corredor vazio. O fragmento preso no sal bateu uma vez e parou.

Sandra soltou Nilo.

— Você ouviu.

— Ouvi.

— Repete.

Ele fechou os olhos.

— Não confiar no rosto dele.

Joel registrou a frase. Ao relê-la, fez uma careta.

— Isso é horrível.

Ninguém discordou.

Kauã começou a recolher as flechas que não tinham quebrado, uma por uma. A mão precisava de um trabalho simples para parar de tremer.

Oren observou o corredor de luz.

— Você mirou na borda.

Kauã não levantou o rosto.

— Era onde tentava passar.

Sandra apontou para a cadeira virada, a tigela, a fivela no sal, o fragmento capturado e a curva vazia.

— A regra é esta: nada entra só porque parece nosso.

A praça recebeu a frase como se recebe uma tranca nova — sem alegria, mas com espaço para respirar atrás dela.

Davi continuou olhando para o fragmento.

— Ainda está ouvindo.

Sandra fez sinal para Heren.

— Leva.

Ele ergueu a tigela.

A sombra bateu.

Tac.

Outra batida respondeu.

Não da curva. Não da terra.

Da oficina.

Todos se viraram.

Diogo ficou quieto lá dentro. Quieto demais.

Riku entrou primeiro e saiu devagar.

— Sandra.

Ela já estava andando.

Diogo permanecia sentado na maca, pálido e suado, com a mão direita fechada sobre o peito.

— Abre — ordenou Sandra.

Ele obedeceu.

No centro da palma havia uma marca escura do tamanho de uma moeda. Não era corte nem sangue.

Era sombra.

Batendo no mesmo ritmo da tigela.

Tac.

Tac.

Tac.

Diogo tentou sorrir e não conseguiu.

— Acho que ela não gostou de mim.