Capítulo 13 — A Promessa Pequena
A fivela não parou de tremer.
Ficou na terra diante da cerca, com os três riscos voltados para cima e a palavra incompleta escondida atrás.
Vol
A voz de Breno ainda parecia presa entre a curva e a praça.
— Não venham.
Baixa. Rouca. Quase humana.
Quase Breno.
Nilo fechou a mão. Sandra ficou ao lado dele, não à frente. Se ocupasse a passagem, ele teria de decidir entre obedecer e derrubá-la. Por pior que estivesse, Nilo ainda sabia que não conseguiria fazer nenhuma das duas coisas sem se partir.
— Ele está vivo.
Sandra olhou para a névoa. Ela mostrava a primeira curva e escondia todo o resto.
— Talvez.
— Ele falou.
— Talvez.
Nilo se virou.
— Vai dizer isso até quando?
— Até eu ter corpo, sangue ou mão.
A resposta acertou. Ele olhou de novo para a fivela.
— Então me deixa buscar.
— Não.
A praça inteira ouviu. Ninguém fingia cuidar de outra coisa desde a madrugada.
Davi estava entre Marta e Lina. Joel segurava o livro com as duas mãos. Wellington permanecia encostado à mesa, pálido demais para esconder a costela. Kauã mantinha o arco baixo no telhado. Riku guardava a porta da oficina, onde Diogo discutia com Heren sem força para transformar a discussão em fuga.
A fivela bateu.
Tac.
Davi apertou a mão de Marta.
— Vai falar de novo.
Nilo deu um passo. Sandra segurou seu braço.
— Fica.
A voz veio mais clara:
— Nilo.
Ele fechou os olhos.
Grito dava raiva. Nome dava caminho.
— Breno — respondeu.
Os dedos de Sandra apertaram seu braço.
— Não conversa.
— Ele me chamou.
— Eu ouvi.
A fivela tornou a bater.
— Nilo.
Joel olhou para Wellington.
— A voz está melhorando.
— Está treinando.
Nilo ouviu e travou a mandíbula.
— Ou ele está recuperando força.
— Talvez — disse Sandra.
Dessa vez, a voz chamou apenas uma palavra:
— Lembra.
Marta puxou Lina para mais perto. Joel abriu o livro por reflexo, e Alessandra ergueu o rosto.
— Lembra do quê?
Nilo não respondeu.
Sandra viu a recusa e o modo como a fivela esperava por ela.
— Nilo. Fala.
— Não aqui.
— Aqui.
Ele respirou pelo nariz.
— Breno me fez prometer uma coisa.
Wellington deixou a mesa. Joel molhou a pena, mas Nilo apontou para ele.
— Não escreve ainda.
Sandra fez sinal para Joel esperar.
— Que promessa?
Nilo olhou para a curva enquanto respondia:
— Quando entrei na patrulha norte, eu corria para qualquer barulho. Rastro, fumaça, grito. Um dia ouvi uma criança no barranco e fui sozinho.
Marta olhou para Davi sem querer.
— Era vento preso numa fenda. Quase caí. Breno me puxou pela gola, bateu atrás da minha cabeça e me fez prometer que, se eu ouvisse alguém pedir socorro no norte, chamaria outra pessoa antes de responder.
A fivela parou.
O alívio durou uma respiração.
— Prometeu — disse a voz.
Nilo avançou. Sandra o conteve.
— Eu chamei.
— Então vem.
O frio que atravessou a praça não veio da névoa. A coisa usara a promessa certa e encontrara dentro dela uma ordem que nunca estivera ali.
Alessandra falou baixo:
— Não está pedindo. Está cobrando.
— Ele sabe — disse Nilo.
Wellington olhava para a fivela, não para o homem.
— Ou sabe que você sabe.
— Qual é a diferença?
— Se Breno está falando, há uma pessoa do outro lado. Se não está, estão usando a parte dele que ficou em você.
A raiva de Nilo procurou um corpo e encontrou Wellington.
— Você fala assim porque não é seu homem lá fora.
Wellington aceitou o golpe em silêncio. Sandra respondeu:
— É por isso que você não vai.
— Se fosse Diogo?
Ela olhou para a oficina. A resposta demorou meio segundo.
— Mandaria prender minhas pernas antes que eu fizesse besteira.
Nilo acreditou. Isso tirou o chão sob sua raiva.
A voz tornou a chamá-lo, agora com frio suficiente para parecer um homem enterrado.
Davi começou a chorar.
— Não é ele inteiro.
Sandra olhou para o menino.
— Como sabe?
— Só chama Nilo. Breno cantava errado para irritar Tomás. Devia chamar Tomás também.
Tomás ergueu o rosto do banco. A língua marcada ainda doía.
— É verdade.
Davi continuou:
— E deve dinheiro a Oren.
Oren levantou uma sobrancelha.
— Metade do pagamento de uma faca.
— Se fosse Breno inteiro, lembrava da dívida.
— Ou fingia que esqueceu — corrigiu Oren.
Joel apontou a pena.
— Isso eu posso escrever?
Alessandra assentiu.
— Pequeno e concreto.
Joel registrou que Breno cantava errado no terceiro verso e devia metade de uma faca a Oren Ishidoro. A fivela tremeu. A batida seguinte pareceu irritada.
Riku sorriu sem humor.
— Não gostou da dívida.
Diogo gritou de dentro:
— Ninguém gosta.
— Você está abrindo os pontos falando — respondeu Heren.
— Então costura minha boca.
— Não me tenta.
O som quase humano aliviou a praça por um instante. Sandra aproveitou.
— Leia, Joel.
Ele olhou para o livro.
— Em voz alta?
— É para isso que voz serve.
Joel leu as duas lembranças. A fivela tremeu, e a resposta veio depressa:
— Depois.
Oren inclinou a cabeça.
— Isso ele diria.
— Qualquer devedor diria — Joel corrigiu.
Davi fechou os olhos e demorou um pouco antes de falar:
— Está faltando o jeito.
Nilo olhou para ele.
— Que jeito?
— Breno fala com pressa para ninguém perceber que tem medo. Essa voz fala devagar para você sentir medo por ele.
A fivela bateu.
Tac.
— Nilo.
Ele não respondeu.
— Prometeu.
Nilo fechou a mão, mas já não tentou avançar. Alessandra se aproximou.
— Promessa não é corda.
A fivela ficou imóvel.
Sandra apontou para Nilo.
— Repete.
A primeira tentativa saiu fraca:
— Promessa não é corda.
A terra em volta da fivela rachou. Joel escreveu a frase antes que alguém mandasse.
Então a voz mudou. Perdeu a paciência e parte do disfarce.
— Deixou.
Nilo perdeu o ar.
— Não.
— Deixou.
Ele avançou com força suficiente para se livrar da mão de Sandra. Kauã caiu do telhado entre Nilo e a cerca, o arco já armado.
— Para.
— Sai.
— Você passa por mim primeiro.
Não havia provocação na voz de Kauã, apenas um corpo ocupando o lugar necessário. Nilo freou antes de colidir.
A fivela começou a bater mais rápido.
Tac. Tac. Tac.
— Deixou. Deixou. Deixou.
Tomás tapou os ouvidos. Marta abraçou as crianças. Joel apertou o livro contra o peito.
Wellington pegou a tigela rachada no lugar de Breno e a colocou no chão, virada para baixo, entre Nilo e a fivela.
Sandra o observou.
— Sem fazer bonito.
— Eu odeio bonito.
A voz parou.
— Se Breno quer voltar, sabe onde senta — disse Wellington. — Se alguma coisa quer levar Nilo, vai ter que passar pelo lugar de Breno primeiro.
A cadeira rangeu perto da mesa. Davi apontou para ela.
— Respondeu porque é o lugar dele.
A voz voltou menor:
— Frio.
Nilo quebrou no ombro antes de quebrar no rosto. Sandra soltou seu braço devagar.
— Responde certo.
Ele respirou duas vezes.
— Breno, se é você, fica com frio mais um pouco.
Marta chorou sem esconder.
— Se eu for errado, viro porta. Se viro porta, você não volta. Então não vou agora.
A fivela parou. A terra da palavra incompleta caiu até restar apenas o V.
— Eu chamei outro antes de responder — continuou Nilo. — Cumpri a promessa.
Joel escreveu. Alessandra colocou a mão sobre a página.
— A promessa foi cumprida sem abrir caminho.
A fivela rachou.
No mesmo instante, a água da fonte se inclinou dentro da pedra. Não derramou; puxou para o norte, como se a distância tivesse mudado de lado.
Sena Mizuhara segurou a borda.
— Alguma coisa lá fora está ficando mais real para a água do que a própria fonte.
A faca de Oren virou sobre a pedra e apontou para a primeira curva.
Wellington olhou da fivela para a fonte.
— Não está chamando só Nilo.
Alessandra completou:
— Está puxando tudo que tem relação com Breno.
Davi se escondeu atrás de Marta.
— Está juntando.
Sandra virou para o menino.
— Mostra.
Davi apontou para a cadeira, a tigela, a fivela e Nilo.
— Lugar. Comida. Roupa. Promessa. Agora água e caminho.
Alessandra acompanhou a ordem dos objetos.
— Não está reconstruindo o corpo. Está reunindo as relações que fazem a vila reconhecê-lo.
Wellington fechou a mão.
— Até construir uma porta com o formato de Breno.
Nilo passou a mão pelo rosto.
— Então preciso parar de lembrar?
— Não — disse Alessandra, firme. — Se esquecer, a coisa fica sozinha com a lembrança.
Sandra mandou a praça lembrar direito.
Oren repetiu a dívida. Tomás falou da música. Marta lembrou que Breno criticava sua sopa e comia duas tigelas. Kauã contou que ele fingia não ver as crianças roubando manga atrás do armazém. Lina confessou ter recebido uma delas.
Marta olhou para a filha.
— Depois conversamos.
Por fim, Davi disse:
— Ele tinha medo de aranha grande.
— Pequena — corrigiu Nilo.
— Grande também. Mentia.
Nilo quase sorriu.
— Mentia.
Joel escreveu. A fonte voltou ao nível, a faca caiu de lado e a cadeira rangeu como madeira velha.
A manhã avançara. O pão abandonado endurecia sobre a mesa, o sal começava a umedecer dentro das bacias e ninguém se afastara o bastante para fingir que o dia continuava normal.
Diogo apareceu na porta da oficina, de pé apenas porque o batente aceitava metade do peso. Heren vinha atrás, furioso.
— Eu mato esse homem antes da Montanha.
Diogo ignorou.
— Breno me deve uma queda de braço.
Nilo piscou.
— Desde quando?
— Desde ontem. Se perdesse, admitiria que café com sal é crime.
Ontem.
Antes da ausência, da voz e da cadeira vazia.
— Escreve — pediu Diogo.
Joel registrou. A fivela se abriu no meio como semente seca. De dentro caiu um fio de tecido azul, úmido de terra.
Nilo o pegou com dois dedos. Nada puxou. Nada chamou. Era apenas pano: frio, sujo e real.
Um ruído veio da primeira curva. Algo pesado arrastava uma perna sobre as pedras.
Kauã subiu na cerca.
— Movimento.
Sandra puxou a lâmina.
Uma sombra curvada apareceu na névoa e levantou a mão. Havia outro retalho azul entre os dedos.
Wellington segurou o braço de Kauã antes que a corda fechasse por completo.
— Espera.
A figura avançou até o rosto entrar na luz.
Breno.
Terra no uniforme. Lábio rachado. Um olho aberto; o outro, coberto por barro seco.
Nilo fez um som baixo. Sandra ergueu a mão, e ele ficou.
Breno parou antes da primeira marca de limite.
Seus pés não tinham sombra.
Wellington viu ao mesmo tempo que Sandra.
— Eu vi — disse ela.
Breno tentou avançar. Sandra cortou a terra entre ele e a vila. Uma linha verde se abriu no chão.
O corpo travou.
Algo atrás dele puxou. Breno foi arrastado um palmo para dentro da névoa.
Nilo se lançou. Kauã e Wellington o seguraram juntos.
— Solta!
Sandra não se virou.
— Se passar, corto sua perna.
Ele parou porque acreditou.
Breno deixou cair uma pedra branca. Ela rolou até a linha verde e parou. Na superfície lisa havia três riscos curtos e um longo.
A pedra bateu.
Tac.
— Não é... caminho — Breno conseguiu dizer.
Sandra apertou a lâmina.
— O que é?
A névoa se moveu atrás dele como uma garganta. O corpo foi puxado outra vez.
— Isca.
A palavra chegou. Breno, não.
A névoa fechou a curva, e Nilo caiu de joelhos sem gritar.
Sandra chamou Joel. Ele já estava com a pena pronta.
— Breno chegou à primeira curva sem sombra. Entregou uma pedra marcada. Disse “isca”.
Joel registrou cada frase.
Ao terminar a última, a pedra branca rachou. Sangue fresco apareceu dentro dela, sem escorrer, como um olho abrindo.
Davi encolheu os ombros na primeira batida.
— Não está chamando.
Wellington manteve os olhos na pedra.
— Não. Está mostrando que nos ouviu.
Do norte vieram três batidas lentas, separadas pelo mesmo intervalo.
Tac. Tac. Tac.
Não chamavam ninguém.
Aplaudiam.