Capítulo 12 — A Cadeira Vazia
Breno tinha uma cadeira na praça.
Na manhã seguinte, ninguém se lembrou de pôr uma tigela diante dela.
Joel percebeu quando já distribuía a farinha. Estava com o livro de registros preso debaixo do braço, a roupa da véspera e a paciência morta desde a madrugada.
— Cadê a tigela dele?
Marta olhou para a mesa de pedra.
— De quem?
Joel apontou com o queixo.
A cadeira era velha, torta no pé esquerdo e marcada por duas trocas de palha, porque Breno insistia em sentar sempre do mesmo jeito errado. Naquela manhã, estava vazia. Sem tigela, sem pão e sem a parte de café que ele costumava tomar com sal enquanto todos reclamavam.
Marta levou a mão à boca.
— Eu esqueci.
Davi ergueu os olhos para ela.
— Você não esquece comida.
— Hoje eu esqueci.
— Não.
A palavra saiu baixa. Mesmo assim, Sandra a ouviu da porta da oficina.
Desde a noite anterior, a vila inteira falava como se qualquer frase mais alta pudesse acordar o chão. Diogo estava costurado, febril e proibido de levantar. Tomás mal conseguia mover a língua marcada. O sino da patrulha continuava dentro de uma bacia de sal. Wellington voltara sem espada, com a costela pior e o antebraço aberto. Ninguém dormira o bastante para confiar na própria memória.
Ainda assim, Marta não esquecia comida.
Joel abriu o livro.
— Eu também não separei a ração dele.
Nilo deixou o portão norte como se alguém o tivesse puxado por uma corda.
— O quê?
— Separo comida dos patrulheiros antes do resto. Até quando voltam tarde. Até quando não voltam.
Seis tigelas deixavam marcas úmidas no canto da mesa todos os dias. Naquela manhã, havia cinco. O sexto círculo permanecia seco, limpo demais para uma superfície usada desde antes de Joel aprender a contar.
Sandra se aproximou sem tocar.
— Alessandra.
Alessandra já vinha. O cabelo preso de qualquer jeito dizia o bastante sobre a noite que passara. Ela olhou a marca seca, depois a cadeira.
— Quem sentava aqui?
— Breno — respondeu Joel.
O círculo escureceu.
Joel recuou meio passo.
— Falei errado?
— Falou certo. Diga de novo.
Ele olhou para Sandra. Ela assentiu.
— Breno sentava aqui.
A madeira respondeu.
Tac.
Nilo fechou os punhos. Sandra levantou uma mão antes que a raiva ganhasse voz, e ele se conteve por treino, não por calma.
Wellington apareceu na porta da oficina com uma faixa nova no braço. Heren surgiu atrás dele, agulha na mão.
— Volta para a maca.
— Estou na porta.
— Porta ainda é fora.
— Então fecha.
Heren ergueu a agulha. Wellington se afastou dele e olhou para a mesa.
— Não está escondendo só Breno. Está apagando os costumes em volta dele.
Marta ficou branca.
— Como se ninguém se lembrar da comida fizesse parecer que ele nunca teve lugar — disse Alessandra.
— Tinha — Joel respondeu.
O círculo tornou a estalar, agora mais fundo.
A raiva de Joel apareceu do jeito mais comum que conhecia: arrumando alguma coisa. Ele pegou uma tigela limpa, colocou-a sobre a marca e jogou farinha dentro.
— Breno come aqui.
A tigela rachou de cima a baixo.
Joel soltou a louça.
— Eu lavei isso hoje.
Do telhado do armazém, Kauã falou:
— O norte respondeu.
— Como? — perguntou Sandra.
— A névoa baixou até a primeira curva.
Nilo virou para o portão.
— Eu vou.
— Não vai.
— É meu homem.
— Por isso mesmo.
Ele encarou Sandra por uma respiração inteira.
— Então manda alguém.
Sandra olhou para Wellington. Ele levou a mão à costela.
— Eu sabia que você faria isso.
— Kauã vai junto.
Heren saiu da oficina.
— Ele não corre, não luta e volta antes de a faixa abrir.
Wellington olhou para ele.
— Essa confiança toda quase cura.
— Usa para andar devagar.
Davi apontou para a tigela rachada.
— Leva.
Joel puxou a louça para perto.
— Minha tigela?
— Ela lembra Breno.
Alessandra concordou.
— E respondeu ao lugar dele. Serve de testemunha.
Joel fechou os olhos por um instante.
— Minha louça virou testemunha.
Oren Ishidoro afiava uma faca perto da oficina. Sem levantar a cabeça, disse:
— Melhor que virar porta.
— Você não ajuda.
— Eu sei.
Sandra entregou a tigela a Wellington.
— Só até a primeira curva. Se encontrar rastro, marca e volta. Se encontrar Breno vivo, chama.
Nilo ergueu o rosto.
Wellington fez a pergunta que ninguém queria ouvir:
— E se não estiver?
Sandra olhou para Nilo antes de responder.
— Não dá nome ao que não puder trazer.
Aquilo não era crueldade. Nilo reconheceu o cuidado pelo quanto doía e assentiu uma vez.
A vila abriu caminho quando Wellington e Kauã seguiram para o norte. Antes, as pessoas fingiam cuidar de panela, corda ou criança quando alguém saía em direção ao perigo. Agora observavam até o último passo, como se o olhar pudesse manter um pedaço da pessoa dentro da cerca.
A trilha parecia normal até o curral das cabras. Normal demais já não convencia ninguém.
Kauã avançava fora do centro do caminho. Wellington vinha três passos atrás, segurando a tigela com as duas mãos. A costela doía, o antebraço ardia e ele estava cansado de partes do corpo tendo opinião.
— Para.
Wellington parou.
Um retalho azul-escuro pendia de um galho baixo à esquerda. Tecido de uniforme.
Kauã se agachou sem tocá-lo. Sob o pano não havia pegadas, apenas um círculo raso na terra, do tamanho do fundo de uma tigela.
Wellington aproximou a louça rachada. A fenda escureceu.
— É dele? — perguntou.
— De patrulheiro. Ainda não sei se de Breno.
— A marca copiou a mesa.
Kauã olhou do círculo para a trilha.
— Para quê?
O vento chegava às árvores, mas não passava entre elas.
— Se Breno tem um lugar para comer na vila, alguma coisa pode tentar preparar outro para ele aqui.
— Isso é ruim.
— Obrigado.
— Não foi pergunta.
A tigela esquentou. Um cheiro de café frio saiu da rachadura.
Breno tomava café com sal. Wellington sabia disso, mas não se lembrava havia anos. A lembrança não chegou como pensamento; puxou seu corpo antes.
Ele deu meio passo.
Kauã segurou seu ombro.
— Não.
Wellington abriu os olhos. Estava perto demais do círculo e não lembrava de ter se movido.
— Droga.
— O que sentiu?
— Café com sal.
Kauã cravou uma flecha entre ele e a marca.
— Limite.
A tigela esfriou.
Medo grande todo mundo vigiava. Costume pequeno entrava pela lateral: café com sal, cadeira torta, uma tigela separada antes das outras.
O pano no galho começou a se mover.
Kauã puxou o arco. Wellington ergueu a tigela.
— Espera.
O tecido se abriu. Cinco grãos de milho caíram, rolaram até o círculo e pararam ao redor dele, como uma refeição servida para um homem ausente.
— Não quer matar — disse Kauã.
— Quer convidar.
Uma batida veio do fundo da trilha.
Tac.
A tigela respondeu.
Tac.
Kauã atirou. A flecha atravessou o círculo e entrou na terra. Os grãos saltaram. Um deles rachou no ar e soltou uma gota de sangue.
A gota não caiu. Tentou alcançar a tigela.
Wellington virou a louça de boca para baixo. O sangue bateu no lado externo, escorreu e enfim tocou a terra como sangue comum.
Kauã observou.
— Por que não entrou?
— Tigela virada não serve ninguém.
O norte ficou quieto. Quieto de verdade ou quieto aprendendo, Wellington não sabia.
— Agora voltamos.
Kauã não discutiu. Isso o preocupou mais do que uma discussão.
Nilo reconheceu o retalho antes que eles alcançassem a mesa. Pegou-o com dois dedos e mostrou três pontos tortos na costura interna.
— Breno rasgou na última chuva. Eu mandei trocar. Ele disse que costura feia assustava azar.
Riku, sentado à sombra da oficina, comentou:
— Funcionou mal.
Nilo se virou. Diogo gritou de dentro antes que ele escolhesse o que fazer com a raiva:
— Se brigarem sem mim, considero traição.
Heren apareceu na porta.
— E você considera deitado. Está sangrando pelo ponto.
Um silêncio culpado veio de dentro.
Sandra apontou para Wellington.
— Conta.
Ele contou sem enfeite: o pano, o círculo, o milho, o cheiro de café e a gota atraída pela tigela. Quando terminou, Davi ainda olhava para o retalho como se escutasse alguma coisa presa na costura.
— Ele ainda sabe daqui.
Marta apertou seu ombro.
— Breno?
— Não sei. O pano puxa para a praça e para o norte ao mesmo tempo.
Alessandra examinou os três pontos tortos.
— A lembrança dele ainda responde à vila. Alguma coisa está tentando dar outro destino a ela.
Joel abriu o livro.
— Então a gente escreve certo.
Alessandra se aproximou da mesa.
— Coisas pequenas. Só de Breno. Nada que sirva como ordem ou promessa.
Nilo falou primeiro:
— Ele põe sal no café.
Joel escreveu. A tinta permaneceu normal.
Marta acrescentou:
— Conserta cerca reclamando da cerca.
Kauã disse:
— Pisa mais forte com o pé esquerdo quando mente.
Oren ergueu a faca que afiava.
— Comprou isto de mim e ainda deve metade.
Tomás levou a mão à boca marcada.
— Cantava errado de propósito na ronda.
Nilo fechou os olhos.
— Não era de propósito.
Tomás quase sorriu.
— Era, sim.
Joel registrou tudo. A marca seca na mesa perdeu a cor. A cadeira continuou vazia, mas deixou de parecer um buraco. Parecia o lugar de alguém que ainda podia voltar.
Davi se aproximou do livro.
— Escreve que ele não é lugar vazio.
Sandra olhou para o menino.
— Repete.
— Breno não é lugar vazio.
Joel escreveu devagar. Quando terminou, a rachadura da tigela parou de crescer.
Nilo apoiou a mão ao lado do retalho.
— Ele está vivo?
Davi fechou os olhos e tornou a abri-los pouco depois.
— Quando a gente fala dele, alguma coisa responde. Do norte, quase nada.
— Isso é vivo?
Alessandra escolheu a verdade que não entregava mais do que possuíam.
— É não confirmado morto.
Nilo quase cedeu, mas permaneceu de pé.
Sandra respeitou isso sem oferecer consolo.
— Agora a vila come.
Ele a encarou.
— Com Breno lá fora?
— Se a ausência parar nossa mesa, aprende a mandar mais que qualquer corpo.
Ninguém gostou. Ninguém tinha resposta melhor.
Marta distribuiu o pão. Joel colocou cinco tigelas e deixou a rachada, virada para baixo, no lugar de Breno.
— Enquanto ele não volta — disse Sandra —, ninguém serve a ausência.
No início, mastigar pareceu errado. Depois uma colher bateu em cerâmica, uma criança reclamou de pouco mel, Joel respondeu que mel não brotava de medo e Marta mandou Davi mastigar antes de ouvir o mundo.
O pão esfriou. O sol ultrapassou o telhado da oficina, e a sombra da cadeira de Breno encurtou sob a mesa. Nilo não tocou no próprio café.
A praça respirou. Torta, cansada, mas respirou.
Kauã continuava no telhado quando falou:
— A névoa subiu.
A primeira curva apareceu ao longe. Por um momento, nada saiu dela. Então um objeto pequeno rolou pela trilha e parou antes da cerca.
Era uma fivela velha, torta, marcada por três riscos de faca.
Nilo se levantou. Sandra não o impediu de se aproximar, apenas o fez parar antes de tocar.
— É dele — disse Nilo.
A fivela virou sozinha. Na parte de trás, terra úmida formava uma palavra incompleta.
Vol.
— Voltar — murmurou Joel.
Davi perdeu a cor.
— A palavra ficou mais firme quando Nilo chegou perto.
Wellington olhou da fivela para a primeira curva.
— Então não está pedindo que alguém volte. Está medindo o que nos faz responder.
Davi engoliu.
— Treino.
A fivela bateu no chão.
Tac.
Além da primeira curva, alguma coisa devolveu a batida.
Tac.
E, dessa vez, a voz de Breno veio junto, baixa, rouca e próxima demais de ser humana.
— Não venham.