Capítulo 11 — Sangue Não Cai Sozinho

Capítulo 11 — Sangue Não Cai Sozinho


Diogo não apagou bonito. Apagou pesado.

Um joelho bateu na terra, depois o ombro e, por pouco, a cabeça. Riku o segurou antes.

Aquilo provavelmente irritaria Diogo quando acordasse.

Sandra viu a mão do Takenaga em seu braço. Viu também a pedra que teria aberto sua testa.

— Heren.

— Já estou indo.

O ferreiro correu com a caixa de couro batendo contra a perna.

Diogo respirava mal, como se cada entrada de ar precisasse atravessar alguma coisa quebrada. O peito subia torto. Sangue escorria pela faixa do ombro, descia pelo braço e se reunia na ponta dos dedos.

Uma gota caiu.

Não chegou à terra.

Parou no ar por meio segundo e subiu de volta, entrando no dedo de Diogo como um animal assustado voltando à toca.

Ninguém falou. Nem Riku.

Heren parou com a mão sobre o curativo.

— Isso não é bom.

Joel apertou o livro do outro lado da praça.

— Sangue agora também faz isso?

Sandra se ajoelhou.

— Todo mundo para.

A praça parou melhor.

Davi segurou a mão de Marta.

— Ele não quer cair.

Ela o puxou para trás.

— Não fala perto disso.

— Mas é verdade.

Sandra olhou para o menino.

— O sangue de Diogo não quer cair?

Davi negou.

— Quer. Mas alguma coisa quer pegar antes.

Riku ergueu os olhos.

— De baixo.

— Heren, segura o corte.

— Eu ia fazer o quê? Admirar?

O pano ficou vermelho depressa demais. Diogo não acordou.

Sandra decidiu:

— Oficina.

Riku começou a erguê-lo. Sandra segurou seu pulso.

— Você não carrega sozinho.

— Eu consigo.

— Eu não perguntei.

Oren Ishidoro ocupou o outro lado sem esperar ordem. Baixou o ombro, tomou parte do peso e fez uma careta.

— Ele pesa como porta de mina.

Riku respondeu:

— E tem a mesma educação.

Mesmo apagado, Diogo soltou um som próximo de um rosnado.

Riku olhou para ele.

— Está vendo? Ainda ofende.

Heren apontou para a oficina.

— Anda.

A cada passo, gotas escapavam do pano. Nenhuma alcançava o chão. Uma delas tentou entrar numa rachadura entre duas pedras.

Kauã disparou. A flecha atingiu a gota antes que sumisse. A madeira escureceu, o sangue chiou e então caiu como sangue comum.

— Se tocar antes, cai — disse Kauã.

Sandra assentiu.

— Então ninguém deixa cair direto.

Joel quase riu de desespero.

— Como ninguém deixa sangue cair direto?

Sandra olhou para ele. Joel fechou a boca.

— Vou buscar bacias.

— E sal.

— Claro. Sangue, bacia e sal. Uma manhã normal.

Ele correu.

Marta puxou Davi.

— Você vem comigo.

O menino não saiu do lugar.

— Se eu for, não escuto.

— Melhor.

— Não.

Wellington se aproximou antes que a rigidez de Marta virasse discussão.

— O que você escuta?

Davi apontou para a trilha de sangue que não conseguia virar trilha.

— Não é voz. Parece alguém contando moedas no outro cômodo.

Joel voltou com duas bacias e quase tropeçou.

— Ouvi meu nome nesse exemplo?

— Não foi você — disse Davi.

Joel pareceu pouco aliviado.

Sandra colocou uma bacia sob a mão de Diogo antes de entrarem na oficina. A gota caiu.

Tac.

Soou como pedra, não líquido, e ficou redonda demais no fundo do metal.

Heren empurrou a porta com o pé.

— Maca.

Riku e Oren deitaram Diogo sobre a madeira. Ele abriu os olhos por um instante e viu Sandra, Riku e Oren.

— Quem morreu?

— Ninguém — respondeu Heren.

— Então por que tem tanta gente feia perto de mim?

— Porque gente bonita não levanta você.

Diogo tentou sorrir, falhou e apagou outra vez.

Sandra olhou seu rosto por meio segundo. Depois se virou para Heren.

— Fecha o ombro.

— Preciso limpar primeiro.

— Limpa.

— E preciso que todo mundo inútil saia.

Ninguém saiu.

Heren olhou para Sandra.

— Eu disse útil.

Ela distribuiu funções:

— Riku segura o braço. Oren, a perna. Wellington na porta, Kauã no telhado, Alessandra comigo, Joel com a bacia e o registro. Davi...

Marta respondeu:

— Davi vai sair.

O menino apertou sua mão.

— Se eu sair, ele conta sem ninguém ouvir.

Marta fechou os olhos. Sandra viu a dor que aquilo lhe causava.

— Davi fica na porta. Não entra.

Marta quis discutir e não conseguiu.

Heren cortou a faixa grudada no ombro. A ferida apareceu longa, vermelha demais nas bordas e escura no centro. Não era o pior corte que ele já vira em Diogo.

O pior era o movimento do sangue.

Ele não saía em fluxo. Hesitava, como se esperasse permissão.

Heren ficou sério.

— Isso não é só ferida.

Sandra se aproximou.

— Fala simples.

— O corpo quer sangrar. O sangue não sabe para onde ir.

Os dedos de Riku apertaram o braço de Diogo sem que ele percebesse.

— Por causa da marca?

Alessandra olhou para a bacia. A gota girava devagar.

— Por causa da porta.

Joel espalhou sal ao redor do metal. O sangue parou.

Todos olharam para ele. Joel ergueu as mãos.

— Só fiz o que ela mandou.

— Faz de novo — ordenou Sandra.

Ele traçou uma linha irregular ao redor da maca, torta em três pontos. Mesmo assim, quando fechou o contorno, o ar da oficina mudou.

Não ficou seguro. Ficou ocupado, como uma casa cheia demais para um estranho entrar sem ser visto.

Davi falou da porta:

— Melhorou.

Marta sussurrou:

— Graças aos céus.

— Não foi céu. Foi sal — corrigiu o menino.

Joel olhou para ele.

— Aceito os dois.

Heren começou a limpar a ferida. Diogo acordou e mordeu o pedaço de couro que lhe enfiaram na boca. Seus olhos se abriram vermelhos de dor.

Sandra segurou seu rosto.

— Fica.

O corpo inteiro queria se erguer. Riku percebeu primeiro.

— Não.

Diogo tentou puxar o braço. Riku o conteve.

— Se levantar agora, seu sangue abre caminho. Aí eu bato em você depois de morto.

Diogo travou não pela ameaça, mas pela informação. Olhou para Sandra, que confirmou:

— Fica.

Ele fechou os olhos e obedeceu. Custou mais do que a dor.

A primeira agulha entrou. A bacia bateu.

Tac.

Sandra se virou. A gota havia se achatado, virado duas linhas e começava a formar um círculo.

Alessandra pegou a bacia antes que o desenho fechasse.

— Não.

A água armazenada no canto tremeu. A gota voltou à forma redonda.

Joel abriu o livro depressa.

— Escrevo?

— Ainda não.

— Quando vocês dizem isso, sempre fica pior.

Alessandra aproximou o metal da luz. O sangue puxou na direção da sombra.

— Quer chão.

Wellington falou da porta:

— Não. Quer fundo.

Riku olhou para ele.

— Qual a diferença?

— Chão é onde cai. Fundo é para onde chama.

Davi assentiu.

— É isso.

Heren fechou o primeiro ponto. Diogo soltou o ar com força, e a gota respondeu.

Tac.

O som acompanhara sua respiração.

Sandra entendeu.

— Está usando a dor.

Heren manteve a agulha no ar.

— Então paro?

— Se parar, ele sangra.

— Se continuar, ela aprende.

Diogo cuspiu o couro.

— Continua.

Sandra olhou para ele.

— Você não decide.

— É meu ombro.

— É meu chão.

A dor cortou a resposta de Diogo. Riku falou:

— Continua, mas muda o ritmo.

Todos olharam para ele. Riku odiou a atenção.

— Ela responde quando dor e respiração batem juntas. Separa as duas.

Heren estreitou os olhos.

— Você costura gente agora?

— Eu corto. Sei quando alguém espera o próximo corte.

Sandra decidiu:

— Faz.

Heren respirou fundo.

— Quando eu mandar, prende o ar.

Diogo tornou a morder o couro. Heren esperou não pela ferida, mas pela bacia.

A gota girou.

— Agora.

Diogo prendeu o ar. A agulha entrou, e a gota não bateu.

— Solta.

Tac.

A resposta veio atrasada.

Riku sorriu sem alegria.

— Tarde demais.

A gota tremeu como se estivesse irritada.

— De novo — disse Sandra.

Prende. Agulha. Solta.

Tac.

Prende. Linha. Solta.

Tac.

A cada ponto, a resposta chegava menor e atrasada. Diogo suava frio. Riku segurava seu braço; Oren, a perna. Davi ouvia da porta, preso ao abraço de Marta.

Heren amarrou o último ponto.

— Fechado.

Diogo cuspiu o couro.

— Mentiroso.

— Fechado o suficiente para você não morrer enquanto reclama.

A bacia bateu mais uma vez.

Tac.

A gota abriu-se em três riscos curtos e um longo.

— Marca — avisou Kauã do telhado.

Sandra pegou a lâmina. O sangue tentou subir pela parede do recipiente.

Joel fechou o livro por instinto. A gota parou.

Todos olharam para o registro.

Joel olhou de volta.

— O quê?

Alessandra se aproximou.

— Abre devagar.

— Acabei de fechar.

— Abre.

A última página estava limpa demais.

Sandra apontou.

— Escreve.

Alessandra ditou:

— O sangue de Diogo Oliveira caiu em bacia segurada por mão da vila. Não caiu em terra. Não caiu em fundo.

Joel escreveu. A tinta entrou torta, como se a página resistisse.

Riku olhou para o sobrenome.

— Oliveira?

Diogo abriu um olho.

— Problema?

— Nenhum.

— Pareceu.

— Estou ocupado não deixando você arrancar os pontos.

Quando Joel terminou, a marca sumiu da gota. O sangue não se tornou comum; permaneceu escuro no centro.

Oren se inclinou.

— Quer virar chave.

— Como sabe? — perguntou Sandra.

— Ferro faz isso quando encontra fechadura que ainda não existe.

Joel parou a pena.

— Eu odeio essa frase.

Wellington entrou um passo.

— Porta de sangue.

Diogo não gostou.

— Estou começando a levar essa história para o lado pessoal.

Sandra pegou a bacia. A gota puxou em direção à sua mão sem chegar a subir.

Reconheceu.

— Não é qualquer sangue.

— É linhagem — disse Alessandra.

Davi falou baixo:

— É família.

A palavra pesou mais do que linhagem. Família tinha rosto, mesa, briga por café — e Diogo tentando se levantar quando não podia.

Diogo moveu a mão. Riku o conteve.

— Quieto.

— Eu ia falar.

— Pior.

Diogo respirou.

— Se quer sangue Oliveira, usa o meu e acaba logo.

Sandra se virou devagar. A oficina esfriou sem magia alguma.

— Repete.

Ele sustentou o olhar por um segundo e desviou.

— Esquece.

— Não. Repete.

Diogo se calou. Sandra chegou perto da maca.

— Você sangrou, caiu, quase abriu uma porta e ainda acha que isso lhe dá o direito de se oferecer como lenha?

— Se proteger...

— Proteger não é morrer primeiro para poupar trabalho.

Riku olhou para o outro lado. Oren encontrou uma rachadura muito interessante na parede. Heren fingiu organizar as agulhas.

Sandra baixou a voz.

— Você é meu filho. Não ferramenta.

Diogo fechou os olhos. A frase alcançou onde nenhuma armadura cobria.

Davi falou quase sem perceber:

— Ferramenta não tem nome de casa.

A bacia respondeu.

Tac.

Sandra olhou para o menino.

— O que foi?

Davi ficou branco.

— Ele ouviu.

— Quem?

— O fundo.

A gota começou a formar letras.

D.

I.

Diogo.

Sandra cortou o ar entre a bacia e a oficina sem tocar no sangue. A letra se partiu, e a gota se espalhou como líquido comum.

Então uma cabra gritou do lado de fora.

Marta soltou Davi. Kauã já se movia. Wellington saiu primeiro.

A cabra de Marta estava caída perto da cerca, viva e assustada, com as quatro patas rígidas e os olhos arregalados. Um sino tremia em seu pescoço sem som.

Joel chegou atrás.

— Tirei os sinos dos animais.

Marta levou a mão à boca.

Aquele sino não pertencia à cabra. Era pequeno, velho e manchado de terra.

Nilo o reconheceu.

— É da minha patrulha.

Tomás, sentado num banco com a língua marcada, começou a tremer.

— Não.

Kauã se agachou sem tocar no metal.

— Veio sem corda.

Não havia rastro, mão, buraco ou marca no chão. Apenas o sino onde não devia estar e uma gota de sangue escuro e antigo sobre ele.

Nilo avançou.

— É dos meus?

Sandra saiu da oficina carregando a bacia.

Diogo gritou de dentro:

— Não leva meu sangue para passear!

Heren respondeu:

— Cala a boca ou costuro ela também.

A gota da bacia puxou em direção ao sino. A gota escura no metal respondeu.

Duas coisas tentando se reconhecer.

Alessandra colocou-se entre elas.

— Não aproxima.

Sandra parou.

O sino tremeu e produziu som.

Tac.

Tomás caiu do banco, segurando a boca. Nilo o amparou.

— Tomás!

Ele tentou falar, mas a língua marcada não permitiu. Os quatro riscos escureceram.

Davi tapou os ouvidos.

— Tem alguém faltando.

Nilo olhou para a estrada norte.

— Minha patrulha tinha seis.

Wellington se virou para ele.

— Voltaram quantos?

A mente de Nilo resistiu à contagem.

— Cinco sombras.

Kauã concluiu:

— E Tomás.

— Seis — sussurrou Joel.

Davi negou.

— Não.

Sandra olhou para o norte.

— Quem faltou?

O nome veio a Nilo com atraso, como se estivesse escondido atrás de uma parede.

— Breno.

O sino tocou.

Tac.

O sangue de Diogo tremeu na bacia. A gota escura desceu pelo metal. Na terra entre a praça e o portão, apareceram duas letras.

Br.

Nilo deu um passo. Sandra o segurou pelo peito.

— Não.

— Eu deixei um homem lá fora.

— Talvez.

A marca tentou crescer.

Bre.

Wellington se ajoelhou sem se aproximar demais.

— Está usando culpa.

Riku apareceu na porta da oficina.

— Sempre usa.

Diogo gritou de dentro, mais fraco:

— Quem deixou você sair?

— Você estava ocupado sangrando.

Sandra chamou:

— Joel.

Ele já abrira o livro.

— Eu odeio quando meu nome vira ferramenta.

— Escreve Breno como ausente, não como morto.

Nilo se virou.

— Sandra...

— Ausente. Não dá morte para algo que quer porta.

Joel escreveu:

Breno ausente da patrulha norte. Não confirmado morto. Não confirmado dentro. Não confirmado caminho.

A marca travou e a terra rachou ao redor das letras. O sino tornou a bater.

Tac.

Tac.

Tac.

Davi chorou em silêncio nos braços de Marta.

Sandra colocou a bacia no centro da praça, longe do sino.

— Diogo Oliveira sangrou em bacia. Breno está ausente no norte. Uma coisa não compra a outra.

Alessandra repetiu:

— Uma coisa não compra a outra.

Wellington pousou a mão no livro.

— Sangue não paga ausência.

Kauã cravou uma flecha entre Br e o portão.

— Ausência não vira rota.

Oren colocou o martelo sobre a pedra.

— Sino sem mão não chama mina.

Riku ficou quieto. Todos olharam para ele, e ele os odiou por isso.

— Culpa não é trilha.

A marca se partiu. Br permaneceu; o restante se apagou.

O sino caiu do pescoço da cabra, agora com som de metal comum. O animal se levantou de um salto e correu para trás de Marta, quase a derrubando.

Nilo continuou olhando para as duas letras. Não eram resgate, corpo ou resposta.

Eram prova.

Breno existia. Breno faltava.

Sandra fechou a mão em torno da bacia.

— Agora temos regra.

Joel já parecia cansado.

— Qual?

Sandra se voltou para a praça inteira.

— Ninguém sangra na terra. Ninguém responde por ausente. Ninguém chama morto sem corpo. Ninguém dá nome inteiro ao que voltou pela metade.

Tomás chorou baixo. Nilo colocou a mão em seu ombro, e a marca na língua clareou um pouco.

Davi olhou para o norte.

— Breno ainda está frio.

Nilo ergueu o rosto.

— Vivo?

Davi demorou. A espera quase matou Nilo por dentro.

— Não sei.

Sandra pegou a lâmina.

— Então ninguém decide ainda.

Da oficina, Diogo falou com voz fraca:

— Posso decidir deitado?

— Não — responderam Sandra, Heren e Riku ao mesmo tempo.

A praça respirou torto, mas respirou.

Sandra se virou para o norte.

— Kauã, ninguém passa da primeira curva sem três testemunhas.

— E Breno?

Ela demorou não porque ignorasse a resposta, mas porque conhecia o peso dela.

— Breno espera até podermos buscar sem entregar outro.

Nilo fechou os olhos. Não era consolo. Era comando.

Naquele dia, comando era a única espécie de esperança que permanecia de pé.

O sino no chão tocou uma última vez, bem baixo.

Tac.

Davi apertou a mão de Marta.

— Ele ouviu.

Sandra se virou.

— Breno?

O menino olhou para as letras partidas e depois para o norte.

— Não.

Sob a praça, uma batida funda respondeu.

Tac.

Davi engoliu em seco.

— Quem está contando.