Interlúdio 11.1 — A Espada Ficou na Vila
Naquela mesma noite, enquanto Heren ainda costurava o ombro de Diogo do outro lado da parede, Wellington ouviu um ruído atrás das oficinas.
Virou já puxando a espada.
A lâmina saiu apenas um palmo.
O bastante para a pata atingir a guarda e arrancá-la de sua mão.
A espada girou uma vez no escuro, passou por cima da cerca traseira e entrou novamente na vila. Caiu sob o beiral da oficina velha com um som curto de metal contra pedra.
Wellington ficou do lado errado.
A besta ficou entre ele e a espada.
Por um instante, nenhum dos dois atacou.
O pelo negro escondia quase todo o corpo. As listras só apareciam quando a luz ruim da lua atravessava os bambus. A pata dianteira direita tocava o chão com cuidado demais.
Ainda ferida.
Ainda aprendendo a fingir que não.
Wellington respirou curto.
A costela respondeu.
Heren mandara que ele dormisse. Sandra ordenara que ninguém verificasse ruídos sozinho. Kauã havia marcado os pontos cegos atrás das oficinas antes que o sol caísse.
Wellington conseguiu desobedecer aos três em menos de vinte passos.
Estava deitado em um banco junto à parede da oficina quando ouviu.
Do lado de dentro, Heren trabalhava em Diogo.
Agulha entrando.
Pano sendo trocado.
Uma reclamação baixa demais para ser força e alta demais para ser sono.
Sandra estava na praça com Joel. Alessandra vigiava a bacia de sangue. Kauã havia desaparecido entre o telhado e a borda fazia tanto tempo que ninguém mais confundia ausência com descanso.
Wellington não quis chamar ninguém.
Se chamasse Sandra por causa de uma cunha caída, ela fecharia a parte traseira das oficinas.
Se Diogo ouvisse “atrás da cerca”, tentaria se levantar.
Se Heren largasse a agulha no meio do ponto, alguém morreria por um motivo ainda mais idiota.
Então Wellington fez o que sempre parecia razoável antes de dar errado.
Foi confirmar sozinho.
O ruído parecera pequeno.
Uma cunha raspando madeira atrás da oficina velha.
Depois, uma pedra rolando perto do armazenamento de bambu.
Nada que justificasse acordar a praça inteira quando Diogo mal conseguia manter o sangue dentro do corpo e metade da vila passara o dia ouvindo coisas baterem sob o chão.
Wellington só queria olhar.
Olhou.
A besta do sul estava esperando exatamente aquilo.
Antes do primeiro golpe, ele ainda teve tempo de ver o fio de Kauã.
Uma linha fina de couro atravessava o espaço entre a cerca e o armazenamento de bambu. Não era uma armadilha para ferir. Era uma marca de passagem. Quem a cruzasse puxaria uma pequena lasca presa sob o beiral.
A lasca continuava no lugar.
O fio, não.
Tinha sido retirado da estaca e colocado no chão sem que o nó fosse rompido.
A coisa não atravessara o aviso.
Desmontara.
Wellington percebeu no mesmo instante em que a sombra surgiu ao lado da oficina. Tentou sacar. A pata bateu. A espada voou.
Agora a marca de Kauã permanecia entre os dois, inteira e inútil, ensinando uma informação ruim:
A besta aprendera que certos limites só funcionavam enquanto alguém acreditava que continuavam montados.
Ela não rugiu.
Não mostrou os dentes.
Olhou para a espada caída dentro da vila.
Depois para a mão vazia dele.
— Então era isso.
A cabeça negra se inclinou um dedo.
Wellington recuou na direção da abertura estreita da cerca. A mão esquerda procurou uma pedra pequena junto ao pé.
Ele chutou.
Não na besta.
Na espada.
A pedra atravessou a abertura, bateu na guarda e moveu a lâmina um palmo na direção da cerca.
Os olhos âmbar acompanharam.
Wellington chutou outra.
A besta colocou a pata sobre o espaço entre a lâmina e ele.
Não precisava alcançar a arma.
Só precisava mostrar que sabia para que ela servia.
Wellington parou de tentar.
Isso também foi visto.
A besta moveu o peso para a esquerda.
Falsa falha na direita.
O mesmo engano do primeiro confronto.
Mas, dessa vez, não tentou acertá-lo.
Virou o focinho para as casas.
Wellington entrou no meio.
A pata veio.
Ele bloqueou com os dois antebraços. Uma camada fina de Aura Rosa endureceu sua pele no instante do impacto. Mesmo assim, o golpe empurrou os braços contra o peito e abriu a costela por dentro.
O ar saiu.
A besta avançou meio passo em direção à cerca.
Wellington bateu o ombro contra o focinho dela e recuperou o espaço.
Ela recuou.
Não por dor.
Por medida.
Ele tentou entrar novamente na vila.
A besta mostrou os dentes na direção da primeira casa.
Wellington parou.
Tentou pela esquerda.
Ela girou o corpo e ofereceu a mesma escolha: ou ele ficava entre a fera e as casas, ou passava e deixava a vila aberta por uma respiração.
Uma respiração bastava.
Ele sabia.
Ela também.
— Você não veio me matar dormindo.
Se tivesse vindo, poderia ter saltado a cerca antes do primeiro ruído.
Poderia ter atacado o banco onde Wellington fingia descansar.
Poderia ter escolhido Diogo aberto sobre a maca, Joel com o livro nas mãos ou Heren com os dois braços ocupados.
Não escolheu.
Esperou Wellington se levantar.
Esperou a espada sair.
Depois tirou a espada primeiro.
A besta deu um passo.
Wellington cedeu outro.
Para fora.
A descida atrás da oficina era estreita, presa entre pedra, bambu armazenado e uma raiz grossa que levantava a terra perto da cerca. Do telhado alto, Kauã enxergava o começo e o fim.
Não o meio.
A criatura encontrara o meio.
Wellington sentiu a leitura se encaixar.
Ela não tinha invadido a vila.
Tinha escolhido o único lugar onde um protetor precisaria sair dela para continuar protegendo.
E escolhera Wellington porque ele era o único que chamaria aquilo de confirmação antes de chamar de armadilha.
Ele recuou mais um passo.
A besta veio junto.
Sem pressa.
Toda vez que Wellington tentava mudar o ângulo, ela ameaçava a cerca. Toda vez que ele ocupava o caminho, ela tomava mais um pedaço da descida.
Não estava perseguindo.
Estava conduzindo.
Atrás dele, a trilha desaparecia entre o bambu e a pedra funda.
Atrás dela, a espada permanecia onde alguém da vila poderia encontrá-la.
Wellington fechou a mão vazia.
— Certo.
A besta parou.
— Você tirou a parte que conhecia.
O vento atravessou o bambuzal.
Uma haste bateu contra outra.
Tac.
Wellington não respondeu ao ritmo.
Arrancou do feixe mais próximo um bambu curto, ainda verde, e o segurou como uma lança.
A besta olhou primeiro para a ponta.
Depois para seus pés.
Já tinha visto a espada.
Agora queria descobrir o que o homem fazia quando a lâmina ficava em casa.
Wellington abaixou o corpo.
A costela mordeu.
Ele ignorou.
Ferida comum ficava para depois.
Podia abrir a Aura.
Espalhar a percepção pela descida, pesar o corpo da besta, encontrar a borda exata do salto antes que ela terminasse de escolher.
Também podia acordar a praça inteira e entregar outra medida de seu alcance.
A criatura já conhecia o peso da espada.
Não precisava aprender o tamanho do campo naquela noite.
Wellington comprimiu a Aura junto à pele.
Só corpo.
Só o suficiente para impedir que seus ossos quebrassem na primeira troca.
A besta percebeu a ausência da pressão rosa. O focinho avançou meio dedo. O ombro ferido recuou.
Parecia cautela.
Wellington não acreditou.
Arrastou a ponta do bambu pelo chão e ergueu terra entre os dois.
Os olhos âmbar se fecharam por reflexo.
Pouco.
Mas fecharam.
Então havia corpo ali.
Corpo podia errar.
O problema era fazê-lo errar antes que aprendesse o motivo.
A besta atacou.
O bambu entrou no meio.
E a noite desceu com os dois para a parte funda da Montanha.