Interlúdio 11.2 — O Homem Sem Lâmina
O primeiro golpe de Wellington acertou.
Não adiantou.
O punho entrou sob o olho da besta com o peso do ombro, do quadril e de uma linha curta de Aura Rosa. A cabeça negra virou.
O corpo, não.
A pata atingiu o ombro dele antes que pudesse sair.
Wellington girou no ar, bateu de lado no barranco e caiu com terra dentro da boca.
Cuspiu barro.
— Punho ruim.
A besta veio.
Ele rolou sob uma raiz. As garras passaram por cima, arrancando casca e um pedaço da manga. Wellington pegou o bambu que perdera na queda e enterrou a ponta no chão.
Quando a fera saltou, ele levantou a haste como uma lança curta.
Não mirou o peito.
Mirou o ombro direito.
A besta reconheceu.
Quebrou a linha do bambu com a pata esquerda, girou o corpo por fora e tentou morder a mão que segurava a arma.
Wellington soltou primeiro.
O bambu caiu.
A mandíbula se fechou no vazio.
Ele entrou perto demais para as garras longas.
Cotovelo no focinho.
Joelho sob o peito.
Palma no lado ferido do ombro.
A Aura Rosa só apareceu no final de cada movimento.
Pouca.
Fina.
O bastante para que o golpe continuasse um dedo além da pele.
A besta recuou duas passadas.
Wellington também.
Seus nós dos dedos já estavam abertos.
Couro, pelo e músculo não eram rosto humano. Bater nela cobrava da mão quase o mesmo que cobrava do alvo.
A fera abaixou a cabeça.
A pata direita afundou meio dedo a mais.
Falha antiga.
Wellington viu.
Pegou uma pedra curta do chão.
A besta deixou o ombro aberto.
Fácil demais.
Ele iniciou o golpe.
Ela mudou o peso.
A pata ferida ficou firme. A esquerda veio por baixo, no mesmo ângulo que a espada de Wellington costumava abandonar quando buscava o corte interno.
Ele reconheceu a própria abertura dentro do corpo dela.
Quase caiu novamente.
Em vez de golpear a articulação, bateu a pedra no chão, sob a pata.
A rocha fina se quebrou.
O apoio da besta cedeu.
O barranco foi junto.
Terra, homem e criatura despencaram por uma dobra curta da trilha. Wellington bateu as costas primeiro. A besta caiu por cima, pesada demais para qualquer técnica parecer bonita.
Ele colocou o antebraço entre os dentes e o pescoço.
A mandíbula se fechou.
A camada rosa protegeu a pele.
Não o impacto.
O osso reclamou.
Wellington enfiou o joelho no ventre da fera, empurrou o focinho com a palma e girou para fora. Uma garra abriu seu antebraço de cima a baixo.
Raso o bastante para não arrancar músculo.
Fundo o bastante para Heren xingar por muito tempo.
Os dois se levantaram mal.
A besta tinha barro no focinho.
Wellington tinha sangue até o cotovelo.
Nenhum parecia disposto a chamar aquilo de vantagem.
Ele pegou outro bambu.
Não o usou como lança.
Quebrou-o no joelho e ficou com duas partes.
A criatura olhou para ambas.
Wellington jogou uma fora.
Ela acompanhou o objeto.
Ele entrou com a outra como alavanca, prendeu sob a pata ferida e empurrou o corpo contra uma árvore. A besta se torceu antes que o encaixe fechasse. A cauda bateu na costela aberta.
A visão dele ficou branca.
Ainda assim, Wellington manteve o bambu.
A criatura bateu novamente.
Ele cedeu um dedo.
Ela percebeu.
Forçou.
Wellington soltou de repente.
O próprio peso da besta levou seu ombro para a frente. Ele entrou junto, bateu a cabeça sob a mandíbula e abraçou o pescoço como um homem tentando derrubar um animal grande demais para admitir nome.
Nada de lâmina.
Nada de distância.
Joelho, ombro, barro e respiração quebrada.
A besta tentou firmar a pata direita.
Wellington chutou a raiz ao lado.
A terra se abriu o bastante para o membro escorregar entre dois bambus quebrados. Ele puxou uma das hastes por baixo, cruzou a outra por cima e usou a raiz como trava.
O ombro negro entrou no encaixe.
A criatura rugiu.
Baixo.
Mais próximo de raiva do que de dor.
Wellington caiu de joelhos ao lado dela.
Tinha uma pedra na mão.
Podia atingir o olho.
Podia abrir o focinho.
Podia colocar Aura demais no golpe e descobrir se o corpo aguentava.
A besta parou de se debater.
Olhou para a pedra.
Depois para o braço dele.
Esperando.
Wellington entendeu.
Mesmo presa, ela continuava medindo o que ele escolheria revelar.
Ele abriu a mão.
A pedra caiu.
— Não compro essa parte.
A criatura mudou.
Pouco.
O ombro pareceu perder largura sob o pelo. A pata girou em um ângulo que uma articulação comum não aceitaria. O bambu rangeu.
O encaixe não seguraria por muito tempo.
Wellington recuou.
Não por misericórdia.
Por cálculo.
Se ficasse, precisaria mostrar mais. Se mostrasse mais, voltaria à vila com uma resposta e deixaria a besta retornar com duas.
Ele subiu pelo lado oeste da dobra, usando raízes e pedras para não oferecer as costas limpas.
A trava se quebrou quando já estava acima.
O rugido não veio.
Apenas o estalo de um bambu sendo usado como apoio.
Wellington olhou para trás.
A besta colocara uma das hastes sob o próprio corpo para retirar o peso da pata ferida.
Não era um uso perfeito.
Ainda.
Ela empurrou.
Levantou mancando.
Os olhos âmbar permaneceram sobre Wellington por mais uma respiração. Depois o corpo negro entrou entre as árvores e desapareceu sem correr.
Wellington esperou o mato se fechar.
Então subiu.
Voltou pelo lado errado da oficina velha.
Sem espada.
Com barro até o peito, sangue no antebraço, os nós dos dedos abertos e a costela tão ruim que cada passo precisava fingir ser o primeiro.
Kauã estava junto à cerca.
Segurava a espada de Wellington pela bainha.
Não pela empunhadura.
Sandra estava atrás dele.
Heren também, com uma agulha na mão e uma expressão que já prometia violência médica.
Kauã olhou para a lâmina.
Depois para Wellington.
— Caiu para dentro.
Wellington parou diante da cerca.
— Eu sei.
— Sem sangue.
— Ela não quis a espada.
Kauã virou um pouco a arma. A marca da pata ainda estava na guarda.
— Quis tirar.
Wellington assentiu.
Sandra olhou primeiro para o corte no antebraço.
Depois para a costela.
Por último, para o rosto dele.
— Você saiu sozinho.
— Saí perto.
— Voltou longe.
Não havia uma defesa boa para aquilo.
Wellington desviou os olhos.
Kauã estendeu a espada.
— O que ela aprendeu?
Wellington não pegou a arma.
As mãos abertas não conseguiam se fechar direito.
— Que a espada organiza meu combate.
Kauã esperou.
— E sem ela?
Wellington olhou para o sangue em seus dedos.
Lá embaixo, alguma coisa bateu bambu contra pedra.
Uma vez.
Não no ritmo antigo.
Em um ritmo novo.
— Sem ela, precisou estudar mais.
Heren segurou o braço ferido.
Wellington tentou puxá-lo.
— Não.
— Eu não falei nada.
— Seu braço falou.
Sandra pegou a espada da mão de Kauã.
— Oficina.
Wellington olhou para Diogo, deitado lá dentro.
— Vai ficar apertado.
— Ótimo — Sandra disse. — Assim nenhum dos dois inventa espaço para sair.
Kauã permaneceu junto à cerca enquanto os três entravam.
Olhou para o ponto cego.
Depois para a marca na guarda da espada.
A criatura havia deixado a lâmina dentro da vila para que todos acreditassem, por alguns minutos, que Wellington ainda estava com ela.
Kauã mudou meio passo para a esquerda.
O ponto cego deixou de existir.