Capítulo 37 — O Alto Que Ficou Abaixo

Capítulo 37 — O Alto Que Ficou Abaixo

Alessandra esperava no primeiro degrau da descida.

Wellington percebeu antes de cruzar a oliveira.

Ela não usava armadura.

Ainda.

Vestia azul-escuro, proteção leve nos antebraços e a espada curta presa à esquerda. O cabelo estava amarrado alto. Não parecia alguém que acordara cedo.

Parecia alguém que não dormira.

Wellington continuou andando.

A praça começava a acordar atrás dele. O fogo da oficina clareava a fresta da porta. Dois cultivadores levavam madeira para o lado leste. Brina tinha deixado três cestos junto ao depósito e discutia com alguém sobre grão úmido.

Nada daquilo parara porque Wellington arrumara uma capa.

Levava a capa de viagem enrolada no ombro. Cantil no cinto. Pão, duas moedas e o talo de palha guardados por dentro da roupa.

A espada estava na cintura.

Não era fuga montada no escuro.

Era pior.

Tinha sido pensada.

Alessandra olhou primeiro para a capa.

Depois para a espada.

— Volta.

Wellington alcançou a pedra diante da oliveira.

— Não.

— Você ainda nem ouviu.

— Ouvi ontem.

— Ontem foi Sandra.

— Hoje mudou a ordem?

— Não.

— Então economiza.

Ele continuou.

Alessandra desceu um degrau e ocupou o centro.

A descida começava num patamar estreito. À esquerda, a raiz da oliveira levantava duas pedras do piso. À direita, um muro baixo acompanhava os primeiros degraus e segurava o canal de irrigação. Depois do muro havia uma queda curta até a faixa de serviço por onde limpavam a água. Mais abaixo, uma haste de bambu servia de corrimão na curva.

Alessandra escolhera o único lugar onde ele não podia passar sem chegar ao alcance dela.

Wellington parou.

À direita dos dois, a pedra de Lina continuava sob a árvore.

Ele não olhou.

Já tinha usado aquele nome demais.

— Eu vou até Pedra Baixa — disse. — Vejo quem está perguntando pela gente, quem compra, quem decide rota e quem decide preço. Depois volto.

— Sem ordem.

— É.

— Sem grupo.

— É.

— Com gente querendo saber quantos Oliveira existem.

— Também.

— E com uma criatura aprendendo como a gente reage.

Wellington ajeitou a capa.

— Ela está olhando a Montanha.

— Você não sabe.

— Então eu descubro.

Alessandra soltou o ar pelo nariz.

— Esse é exatamente o problema.

A porta da casa ancestral abriu atrás deles.

Sandra saiu primeiro.

Sem armadura. A espada permanecia na cintura.

Diogo veio depois, andando melhor do que alguns dias antes e pior do que fingia. Kauã já estava agachado no telhado baixo do armazém. Ninguém o vira subir.

Sandra parou junto à oliveira.

— Eu mandei não descer.

Wellington não virou.

— Eu sei.

— Então volta.

— Não.

O barulho do pátio diminuiu sem ninguém mandar.

Heren ficou na porta da oficina com um pano na mão. Os dois cultivadores deixaram a madeira no chão. Brina continuou perto do depósito, mas não entrou.

Sandra olhou para o filho.

— Você acha que vai voltar maior porque desceu sozinho?

— Não.

— Então por quê?

Wellington finalmente virou.

— Porque aqui todo mundo olha para mim e já sabe o que eu sou antes de eu fazer qualquer coisa.

Diogo encostou o ombro numa coluna.

— Lá embaixo também vão saber.

— Ótimo.

— Isso não foi elogio.

— Eu sei.

Sandra perguntou:

— E quando o nome comprar uma briga antes de você abrir a boca?

Wellington tocou a empunhadura.

— Eu descubro quanto custa.

Alessandra desceu o último degrau.

Agora estava na mesma altura que ele.

— Você não vai descobrir hoje.

Wellington olhou para ela.

— Vai me impedir?

— Vou.

Sandra falou:

— Alessandra.

Ela não saiu.

— Se ele cruza agora, a ordem de ontem vira escolha.

— Eu sei.

— Então deixa?

Sandra demorou uma respiração.

— Eu não disse isso.

Alessandra voltou os olhos para Wellington.

— Eu paro você.

Dessa vez Sandra não respondeu.

Wellington esperou.

Alessandra chegou perto.

Perto demais para espada.

Colocou a mão aberta no peito dele.

Não empurrou de imediato.

A palma ficou sobre o tecido, exatamente onde o coração batia por baixo.

— Você não vai descer.

Wellington olhou para a mão.

Depois para ela.

— Essa parte você já tentou.

— Da última vez, a mãe parou.

O canto da boca dele quase mexeu.

— Então tenta sem ela.

Diogo saiu da coluna.

Sandra levantou dois dedos.

— Fica.

Ele parou.

Alessandra ouviu.

Não tirou a mão.

— Última chance.

Wellington soltou a fivela da capa. O rolo caiu junto à raiz da oliveira, fora do patamar.

— Você acha mesmo que eu não consigo passar por você?

— Eu sei que não.

O rosa apareceu.

Não nos punhos.

Não na espada.

Ao redor.

A pressão saiu do corpo de Wellington sem vento, sem clarão e sem deslocar uma única folha.

Mesmo assim, o pátio mudou.

Heren interrompeu a mão no meio do movimento.

Um dos cultivadores endireitou as costas sem perceber.

Brina apertou o cabo do cesto.

No telhado, Kauã levou o peso para o pé de trás.

Diogo desencostou completamente da coluna.

Sandra permaneceu onde estava.

Alessandra sentiu primeiro porque ainda tocava Wellington.

A pele sob a palma parecia a mesma.

O corpo, não.

Havia peso naquela presença. Não peso de carne nem de pedra. O espaço ao redor dele passara a exigir atenção do corpo, como se cada gesto precisasse atravessar uma água que ninguém via.

A mão de Alessandra continuou no peito.

Wellington percebeu.

— Pode tirar.

— Pode fechar.

Ele abriu mais.

A Aura Rosa atravessou o patamar, tocou o muro baixo, o canal, os primeiros degraus e parte do pátio.

Dentro do campo, Wellington sentiu o mundo ganhar bordas.

Pedra.

Água.

Madeira.

Corpos.

Alessandra.

O pé esquerdo firme.

O ombro direito um pouco mais baixo.

A mão sobre o peito dele.

A respiração que não acelerava.

Ele sorriu.

— Melhor.

O azul nasceu sob a mão dela.

Primeiro no pulso.

Depois subiu.

O brilho fechou o antebraço, contornou o cotovelo e tomou o ombro. Linhas azuis desceram pelo tronco e reapareceram nas pernas.

Não era metal surgindo.

Era Aura ficando densa o bastante para ganhar superfície.

Placas leves se formaram junto ao corpo, translúcidas no centro e fortes nas bordas. Antebraços. Ombros. Tronco. Canelas. O tecido azul-escuro ainda podia ser visto por baixo.

A mão esquerda saiu do peito de Wellington.

O ar diante dela se condensou.

Um escudo curto ganhou contorno.

Não grande o bastante para esconder Alessandra.

Grande o bastante para negar uma linha.

A mão direita encontrou a espada.

A lâmina saiu.

Azul correu pelo metal.

Valkyria ficou inteira.

Ninguém precisou dizer o nome.

A pedra sob os pés de Alessandra recebeu o primeiro ajuste de base e respondeu com um som seco.

Ela parecia mais leve dentro da armadura.

E, ao mesmo tempo, mais difícil de mover.

Wellington puxou a espada.

O metal raspou a bainha.

Alessandra ergueu o escudo.

— Abre mais.

— Está incomodando?

— Quero saber se esse é o máximo.

Diogo soltou uma risada curta.

Sandra virou o rosto para ele.

A risada morreu.

Wellington levantou a espada.

— O máximo você não aguenta.

Alessandra arqueou uma sobrancelha.

— Você também não.

O sorriso dele apareceu de verdade.

— Eu tenho a Rosa.

— Eu estou vendo.

— A assinatura que voltou mais perto do primeiro Oliveira.

— Mais perto.

— É o bastante.

— Não é a mesma.

Wellington avançou a ponta da espada.

— Continua sendo a Aura mais forte desta casa.

A expressão dela mudou.

Pouco.

O suficiente.

— Você ficou insuportável rápido.

— Mais velha não significa mais forte.

Alessandra encaixou o escudo junto às costelas.

— Eu sou as duas coisas.

Wellington entrou.

A primeira troca aconteceu no centro do patamar.

Ele cortou da direita para a esquerda, buscando tirar a espada curta da frente. Alessandra recebeu perto da guarda. Metal bateu, e Wellington deixou a própria lâmina deslizar até ganhar o lado de dentro.

A ponta ficou alinhada ao ombro dela.

O escudo subiu entre os dois.

Toc.

Wellington mudou o punho e desceu o corte para a coxa esquerda.

Alessandra recolheu a perna. A lâmina passou diante do joelho sem tocar. A espada curta veio na volta, horizontal, buscando as costelas.

Wellington já tinha saído meio passo para o lado da oliveira.

Terceira troca.

Ele atacou alto, bateu a espada dela para fora e ocupou o centro com o ombro.

Alessandra girou o escudo em vez de recuar.

A borda azul encontrou a guarda da espada de Wellington e empurrou a arma para baixo. A ponta curta dela apareceu por cima, parada diante da garganta dele.

Wellington inclinou o pescoço.

A lâmina passou sem cortar.

Ele usou o mesmo movimento para entrar por dentro do braço armado.

Alessandra precisou recuar até o primeiro degrau.

Na quinta troca, ficou claro.

Com apenas as espadas, Alessandra começava cada linha meio instante atrás.

Não porque fosse lenta.

Wellington era melhor naquela distância.

Ele não brigava contra a força da lâmina. Mudava o ângulo no contato, deixava o ferro escorrer e ocupava o lugar que ela acabara de abandonar. Quando Alessandra recuperava o centro, ele já fazia a pressão anterior pedir outra defesa.

O escudo impedia que isso virasse domínio.

Toda vez que Wellington ganhava a espada, o azul fechava a passagem seguinte.

Lâmina.

Escudo.

Lâmina.

Escudo.

Ele começou a entender.

Ela percebeu.

— Está contando?

Wellington bateu a espada curta para fora, entrou pelo lado direito dela e parou a ponta a dois dedos da placa azul sobre as costelas.

— Você usa isso para esconder que perde na espada.

Alessandra baixou o centro de gravidade.

— Viu?

— Vi.

— Então aprende.

Ela não empurrou de frente.

Girou o quadril, plantou o pé direito no limite do degrau e varreu o escudo de baixo para cima. A borda azul tirou a espada de Wellington da linha. Antes que ele a recuperasse, Alessandra avançou com o ombro atrás do escudo.

O centro do escudo pegou o esterno, e a borda fechou sobre a costela direita. O golpe veio na diagonal, da descida para o muro.

Wellington tentou endurecer o corpo.

Tarde.

Os pés deixaram a pedra.

O muro baixo recebeu as costas primeiro.

Pedra abriu.

Wellington atravessou com a metade superior da estrutura e caiu na faixa estreita junto ao canal. Blocos soltaram da borda, bateram na água e espalharam barro pelos degraus.

Poeira tomou o lado direito da passagem.

Ninguém falou.

Diogo deu um passo.

Sandra não precisou olhar.

— Fica.

Ele ficou.

A armadura de Alessandra ainda brilhava diante da abertura.

Ela abaixou o escudo.

— Uma.

Heren apareceu dois passos fora da oficina.

Olhou para o buraco.

Depois para Alessandra.

— Eu não costuro parede.

Uma pedra menor rolou até o canal.

Depois outra.

Wellington surgiu na abertura apoiando a mão esquerda no que restara do muro.

Sangue aparecia no canto da boca.

Ele respirou.

A costela reclamou antes do peito.

Talvez tivesse reaberto alguma coisa.

Não importava ainda.

Alessandra o observou subir de volta ao patamar.

— Volta para casa.

Wellington cuspiu sangue no barro do canal.

— Essa era sua chance de parecer humilde.

— Eu acabei de jogar você através de uma parede.

— Com escudo.

— Quer que eu peça desculpa por usar meu poder?

Ele limpou a boca.

— Não.

O Rosa diminuiu.

Alessandra percebeu.

Diogo também.

A pressão que ocupava o pátio recolheu até quase tocar a pele de Wellington.

Alessandra avançou pela borda interna do patamar, mantendo o corpo entre ele e os degraus.

Wellington abriu de novo.

Curto.

O mundo apareceu.

Pé esquerdo.

Escudo.

Ombro.

Espada.

Fechou.

A lâmina azul veio pelo lado direito.

Ele desviou.

Abriu.

O peso saiu do pé direito dela.

Fechou.

Wellington entrou por dentro e tocou o escudo com a guarda da espada.

Alessandra girou o corpo.

O joelho acertou a coxa dele.

A perna quase cedeu.

Wellington recuou para junto do muro quebrado.

Abriu.

O escudo subiu.

A espada ficou baixa.

Ele foi alto.

Erro.

A lâmina de Alessandra já estava esperando. Wellington conseguiu virar a espada no último instante. Metal raspou metal, e a ponta curta passou por sua manga.

Tecido abriu.

Pele, não.

Ele se afastou.

Alessandra não perseguiu.

— Você sente mudança.

Wellington não respondeu.

Ela levou o peso para a esquerda.

Ele abriu o campo.

Sentiu.

O ombro também mudou.

Escudo alto.

Lâmina baixa.

Três informações.

Alessandra avançou pela quarta.

O pé direito cruzou por fora do campo de visão dele. O escudo bateu na espada, a lâmina curta veio por trás e a ponta parou junto à costela que doía.

Wellington travou.

Ela não tocou.

— Três coisas verdadeiras.

Ele entendeu.

Alessandra recolheu a lâmina.

— Você terminou a conclusão sozinho.

Wellington recuou um passo.

Ela tinha aprendido.

Pior.

Tinha entendido o que ele estava usando enquanto ele ainda acreditava que só ele estava medindo.

Sandra não dizia nada.

Aquilo incomodou Wellington mais do que uma ordem.

Ele abriu o campo outra vez.

Desta vez não procurou Alessandra inteira.

Só a borda.

O escudo.

A espada.

Os pés.

O canal.

O muro quebrado.

A haste de bambu na curva abaixo.

Fechou.

Alessandra atacou.

Wellington não tentou prever.

Recebeu.

A espada curta encontrou a dele. O escudo veio logo depois, alinhado ao ombro.

Ele deixou o impacto empurrá-lo.

Um passo.

Dois.

Parou antes da abertura do muro.

Alessandra manteve o centro.

Wellington entrou outra vez.

Agora a espada fez o que sabia.

Corte pela direita.

Mudança de punho.

Contato curto.

A lâmina azul saiu do eixo.

Wellington desceu a ponta para o pulso.

Alessandra escondeu o braço no escudo.

Ele girou e buscou o ombro.

Escudo de novo.

Terceira entrada.

A espada dela perdeu o centro outra vez.

O escudo salvou.

Wellington riu entre duas respirações.

— Sem isso você já tinha perdido.

Alessandra não respondeu.

Deu um passo à frente e bateu com a borda do escudo na boca dele.

A cabeça virou.

Sangue novo.

— Com isso eu ainda estou aqui.

Wellington passou a língua no corte.

— Justo.

Ela veio outra vez.

Dessa vez ele não recuou.

As espadas se encontraram no meio.

Wellington empurrou a lâmina curta para fora.

Alessandra usou o escudo.

Ele já esperava.

A espada dele deslizou pela superfície azul em vez de bater contra ela.

O metal gritou.

Wellington girou o punho, deixou a ponta cair e entrou pela borda de baixo.

Alessandra recolheu o escudo para proteger o flanco.

A espada de Wellington subiu.

Ela precisou defender com a própria lâmina.

Foi a primeira vez que o escudo chegou tarde.

Wellington viu.

Também viu os pés.

Alessandra já não guardava apenas a escada. O pé esquerdo fechava a linha comum da descida. O direito estava inclinado para cobrir a abertura do muro caso ele tentasse usá-la.

Ela tinha entendido antes dele.

O buraco que abrira usando o corpo de Wellington agora era uma segunda passagem.

Alessandra mudara a base para proteger as duas.

Ele sorriu.

— Agora você está protegendo minha saída.

— Estou protegendo você de uma ideia idiota.

— Essa é nova.

— Não.

Ela atacou.

Wellington abriu a Aura.

Dessa vez inteira.

O peso Rosa caiu sobre o patamar.

Kauã levou a mão ao telhado.

Diogo apertou a mandíbula.

Heren recuou um passo sem gostar de ter recuado.

Alessandra sentiu o corpo pesar dentro daquela presença.

Não parou.

Valkyria respondeu.

O azul se adensou nas placas do tronco e das pernas. O escudo ganhou borda mais nítida. Alessandra cruzou o primeiro passo, depois o segundo, empurrando o campo com o próprio avanço.

Wellington sentiu cada apoio.

Um.

Dois.

O terceiro veio mais rápido.

Ela ainda conseguia acelerar ali dentro.

Então o peso não era a resposta.

Nunca tinha sido.

Era leitura.

Wellington fechou a Aura antes que a cabeça enchesse de tudo.

Alessandra percebeu a retirada e veio mais forte.

Ele abriu só perto.

Escudo à esquerda.

Lâmina à direita.

Quadril fechando a descida.

Pé pronto para cobrir o buraco.

Wellington atacou o lado da espada.

Ela respondeu.

Ele ganhou o ferro.

O escudo veio.

Dessa vez Wellington bateu nele de frente.

Forte.

Rosa correu pela lâmina.

Azul sustentou.

O impacto fez a água do canal vibrar contra a pedra.

Alessandra plantou os pés.

Wellington empurrou.

Ela empurrou de volta.

Por um instante, pareceu exatamente a disputa que os dois queriam desde o começo.

Quem era mais forte.

O braço de Wellington tremeu.

O escudo não cedeu.

Alessandra mostrou os dentes.

— É isso?

Wellington apertou mais.

— Não.

Soltou.

Não o escudo.

A disputa.

Em vez de continuar empurrando, deixou a espada escorregar pela borda azul. O corpo acompanhou, baixando junto ao muro quebrado.

Alessandra teve de descer o escudo para impedir que ele entrasse por baixo.

Wellington já não tentava entrar.

Pisou no primeiro bloco solto da parede.

Alessandra girou.

A espada curta veio para a lateral do pescoço.

Wellington aparou com uma mão.

O choque quase arrancou sua espada.

Ele usou a força do golpe para subir no segundo bloco.

A parede quebrada virou degrau.

Alessandra entendeu.

Tarde o bastante.

Wellington impulsionou o corpo pela abertura. Passou por cima do canal e caiu na faixa de serviço um nível abaixo do patamar, já ao lado do segundo degrau da descida.

Alessandra saltou atrás.

O escudo raspou o ombro dele antes de os pés dela tocarem a pedra estreita.

A espada azul veio por baixo.

Wellington sentiu a mudança antes de ver.

Abriu o campo por uma única batida.

Ali.

A ponta.

O ombro.

O espaço vazio junto ao canal.

Ele recolheu o ventre, deixou a lâmina passar rente à roupa e bateu sua espada na dela por fora.

Não para vencer.

Para atrasar.

Meio segundo.

O suficiente.

Wellington saltou da faixa de serviço para o degrau inferior.

Alessandra veio pela abertura.

As espadas bateram outra vez.

Ele ganhou o centro.

Ela colocou o escudo.

Wellington não tentou atravessar.

Girou por fora, na direção da haste de bambu.

Alessandra desceu um degrau e bloqueou a linha para baixo.

Ele subiu a espada.

Ela corrigiu.

Wellington mudou no contato.

A lâmina dele bateu no escudo, deslizou, encontrou a espada curta e empurrou as duas armas para o lado do canal.

O braço esquerdo de Alessandra continuava protegido.

O lado direito abriu.

Wellington não atacou.

Passou.

O ombro dele raspou no dela.

Alessandra virou rápido.

A mão do escudo agarrou a parte de trás da roupa.

O tecido segurou.

Wellington continuou.

Costura abriu do ombro até a faixa externa.

O pedaço ficou preso nos dedos azuis.

Ele desceu mais um degrau.

Alessandra ainda podia ir atrás.

Wellington ainda podia voltar.

Os dois ficaram.

Ela acima, na curva.

Ele abaixo, com dois degraus entre os pés deles.

Valkyria inteira.

Rosa tremendo rente à pele.

A espada dela apontada para o ombro de Wellington.

A dele baixa, pronta para subir.

Ninguém estava caído.

Ninguém estava rendido.

Alessandra respirava mais forte agora.

Wellington sangrava na boca, tinha as costelas duras e metade da roupa aberta nas costas.

O buraco no muro permanecia acima dos dois.

Foi Diogo quem falou primeiro.

— Isso conta?

Sandra respondeu:

— Conta para o que estavam disputando.

Alessandra não tirou os olhos de Wellington.

— Você não me venceu.

Ele limpou o sangue com o polegar.

— Eu não precisava.

— Sobe e fala de novo.

— Desce e tenta impedir.

O escudo azul ficou mais nítido.

O Rosa saiu da pele dele outra vez.

Sandra desceu.

Não deu ordem do alto.

Entrou nos dois degraus que os separavam e ficou de lado, uma mão voltada para cada filho. A direita encontrou a borda do escudo de Alessandra. A esquerda parou diante do peito de Wellington.

— Chega.

Alessandra manteve a espada erguida.

— Ele ainda está armado.

— Você também.

— Ele provocou.

— Eu ouvi.

Wellington tentou olhar por cima do ombro de Sandra.

— Ela começou.

Sandra empurrou dois dedos contra o peito dele.

A costela respondeu.

Wellington parou.

— Você quer descer? — ela perguntou.

— Quero.

— Então desce.

Alessandra virou o rosto para a mãe.

— Sandra.

— Ele passou.

— Pela parede que eu quebrei usando ele.

— Eu sei.

— Isso não faz dele mais forte.

— Não faz.

Wellington endureceu a boca.

Sandra sentiu.

— E passar não dá a você o direito de fingir que venceu tudo — disse a ele.

— Eu não disse isso.

— Disse com o rosto desde o primeiro degrau.

Ele não respondeu.

Sandra manteve o corpo entre os dois.

— Você vai descer como Oliveira.

Wellington olhou para ela.

— Ontem era para eu não usar o nome.

— Ontem era para você obedecer.

— E hoje?

— Hoje você rompeu a ordem na frente da casa inteira. Não deixa de ser Oliveira porque conseguiu passar pela sua irmã.

O azul do escudo de Alessandra começou a perder densidade, mas a espada permaneceu na mão.

Sandra continuou:

— Não usa o nome para cobrar obediência. Não usa a Aura para provar que pode. Não leva rota de patrulha. E tudo que fizer lá embaixo volta com você.

— Eu respondo.

— Vai responder mesmo se achar que estava certo.

Wellington guardou a espada.

Não por calma.

Porque a mão começava a tremer.

Alessandra viu.

Não ofereceu ajuda.

Guardou a própria lâmina com mais força do que precisava. Valkyria desfez primeiro nas pernas, depois no tronco. O escudo foi o último a sumir de entre a mão dela e Sandra.

Diogo começou a descer.

— Agora eu.

Sandra nem virou.

— Não.

— Ele está descendo.

— Você está ferido.

— Ele atravessou uma parede.

Heren olhou para o buraco.

— E alguém vai levantar essa parede.

Diogo apontou para Wellington.

— Ele era o projétil.

— Então carrega pedra junto.

Ninguém riu.

O humor caiu no chão e ficou ali.

Heren apanhou a capa junto à raiz e lançou por cima do ombro de Sandra.

Wellington pegou no degrau de baixo e cobriu com ela o rasgo que Alessandra abrira em suas costas.

Alessandra ainda ocupava a curva, fora do centro da passagem.

Ela falou baixo:

— Não acabou.

— Eu sei.

— E eu ainda sou mais forte que você.

Ele parou um degrau abaixo.

Por um instante, pareceu que responderia.

Depois continuou.

Aquilo irritou Alessandra mais do que outra provocação.

Sandra viu.

Não consertou.

No primeiro ponto de sinal, Wellington marcou a própria passagem como qualquer viajante da Montanha deveria fazer.

No segundo, escolheu a trilha comum em vez da dobra usada pelas patrulhas.

Não levaria rota secreta só para provar liberdade.

Quando a copa fechou o planalto, olhou uma vez para cima.

A casa não aparecia.

A oliveira, não.

Nem Alessandra no degrau.

Só pedra alta, mata e névoa.

Lá de baixo, a Montanha parecia poderosa porque ninguém conseguia ver onde ela terminava.

Wellington continuou descendo.

O alto ficou para trás.

A briga, não.


Capa da faixa Aura
Faixa bônus especial · Capítulo 37
Aura
Composição original inspirada no confronto entre Wellington e Alessandra Oliveira. Duas Auras, duas vontades e uma passagem que não exigia vitória.