Capítulo 2 — A Fonte Sem Som
Ninguém usou a trilha curta naquela manhã.
Sandra não anunciou perigo. Apenas amarrou uma corda entre dois postes, fincou uma lasca de bambu no chão e disse:
— A partir daqui, ninguém passa.
O povo obedeceu antes de perguntar. A trilha continuava ali, aberta no mesmo mato, e o terceiro marco permanecia desaparecido no sul. Ainda assim, depois da corda, aquele pedaço da Montanha deixou de pertencer à rotina.
Uma mulher com um cesto de raízes parou diante da barreira.
— Sandra, eu preciso descer pela coleta.
Sandra nem virou o rosto.
— Precisa voltar viva também.
A mulher fechou a boca.
Diogo estava ao lado da corda, com o machado nas costas e a expressão de quem preferia ser a própria barreira.
— Eu podia ficar lá embaixo.
— Não.
— Só vigiando.
— Você não vigia. Você desafia.
— Se a coisa subir, alguém tem que segurar.
Sandra apertou o nó até um dos dedos clarear.
— Se a coisa subir, eu quero saber antes de ela ver você.
Diogo olhou para o sul e não respondeu. Para ele, aquilo custava mais do que uma pancada.
Wellington observava da mesa de pedra, sentado porque Sandra mandara, não porque seu corpo concordasse. O braço estava enfaixado. A costela mordia sempre que respirava fundo, e o corte no peito ardia menos do que a vergonha de ficar parado.
Sua espada permanecia sobre a mesa. Ao redor da lâmina, Heren havia disposto três pedras, um pote com água da fonte, duas agulhas finas, carvão em brasa e o pedaço de bambu do marco.
O velho ferreiro não começou pelo sangue. Começou pela madeira.
— Isso não foi arrancado.
Wellington inclinou a cabeça.
— Eu vi o buraco. Parecia que tinha afundado.
— Afundar deixa pressão. Pedra raspa. Raiz reclama.
Heren virou a parte limpa do marco para a luz.
— Madeira não atravessa o chão sem carregar o chão junto.
Alessandra estava de pé do outro lado da mesa. A roupa leve de combate, cinza e verde-oliva escuro, parecia simples até a luz encontrar o pequeno emblema da oliveira em sua faixa. Os dedos dela pararam antes de tocar o bambu.
— Então não passou pelo solo.
— Passou por espaço — disse Heren.
Wellington olhou para a praça. A frase não fizera barulho, mas mudara o ar. Perto do armazém, Joel fingiu não ter ouvido — e fingiu mal.
Kauã apareceu agachado no telhado baixo da oficina, com o arco deitado sobre as pernas. Ninguém o tinha visto subir.
— Tem vento na fonte.
Sandra ergueu os olhos.
— Desde quando?
— Desde antes da corda.
— E você só fala agora?
Kauã apontou para o sul.
— Eu estava vendo se vinha daqui.
Diogo bufou.
— E vinha?
Kauã desceu do telhado sem pressa.
— Não.
A resposta deixou uma pergunta pior no lugar.
Wellington tentou se levantar. Sandra continuou olhando para Kauã.
— Senta.
— Eu só vou até a fonte.
— Você vai quando conseguir respirar sem mentir.
— Eu estou respirando.
— Está mentindo também.
Diogo soltou um riso curto. Wellington virou-se para ele.
— Você está gostando demais disso.
— Estou aproveitando enquanto dura.
— Guarda o machado.
— Guarda a costela.
Sandra bateu dois dedos na mesa. Não foi alto, mas bastou.
Heren pegou uma das agulhas, aqueceu a ponta e a aproximou do sangue seco na lâmina. O sangue não fumegou nem queimou. Apenas escureceu, como se alguma coisa despertasse por dentro.
Então se moveu.
Um fio quase invisível puxou em direção à beirada da espada.
Para o sul.
Joel deixou cair uma sacola de grãos. Ninguém riu.
Heren afastou a agulha.
— Sangue comum foge do fogo. Esse ignora.
— Ele quer voltar — disse Alessandra.
— Não quer — Wellington corrigiu, em voz baixa.
Ela olhou para ele. Wellington respirou devagar, para que a costela não entregasse tudo.
— Querer é de bicho. Isso está obedecendo.
A praça pareceu menor.
Heren pegou o pote e deixou cair uma gota de água perto do sangue. A gota não se espalhou. Ficou imóvel por um instante e depois puxou para o mesmo lado.
Sul.
Sandra fechou a mão.
— A fonte também?
Heren molhou o dedo, cheirou, tocou a ponta da língua e cuspiu no chão.
— Água normal.
— Normal não faz isso.
— Eu disse água. Não disse caminho.
Alessandra se afastou da mesa.
— Ela pode estar limpa e, ainda assim, ser chamada por baixo.
Wellington baixou os olhos para o chão da praça. Pedra, terra batida, marcas de roda, pegadas de criança, cinza velha perto da oficina. Tudo parecia igual, e esse era o problema. Quando alguma coisa parecia errada, a vila sabia ter medo. Quando parecia igual, as pessoas continuavam vivendo em cima dela.
Marta surgiu pela rua da fonte, puxando uma cabra pela corda. O animal resistia com tanta força que as patas riscavam a terra.
— Sandra.
A voz dela não estava alta. Estava pior.
Sandra atravessou a praça.
— Feriu?
— Não. Mas ela não bebe.
Diogo se virou.
— Cabra às vezes empaca.
Marta lançou a ele um olhar de raiva seca.
— Essa cabra entra em chuva, barro, pedra solta e quintal de vizinho. Ela não empaca por frescura.
O animal tentou recuar outra vez. Kauã saiu da sombra da oficina e mudou meio passo para a direita.
Wellington percebeu o gesto antes de compreendê-lo. Seguiu o olhar dele e viu que a corda da cabra não se esticava para trás. Inclinava-se para baixo, como se o animal não tentasse fugir da fonte, mas de alguma coisa sob ela.
Alessandra entendeu no mesmo instante.
— Não é cheiro.
Marta apertou a corda.
— O quê?
Alessandra foi até a cabra sem tocá-la. Ajoelhou-se perto do casco dianteiro, examinou a terra e depois a água que escorria do bebedouro.
— Se fosse cheiro, ela viraria a cabeça. Se fosse gosto, beberia e cuspiria. Ela nem chegou perto.
Wellington se levantou apesar da dor. Dessa vez, Sandra permitiu — por dois passos.
Ele se aproximou devagar. A água caía do bico de pedra como sempre, mas não cantava ao atingir a bacia, não respingava, não quebrava o silêncio.
Água sem som era pior do que sangue se mexendo. Sangue estranho já podia ser tratado como inimigo. Água era casa.
Wellington estendeu a mão. Sandra prendeu seu pulso antes do toque.
— Não.
— Eu preciso sentir.
— Você precisa parar de achar que seu corpo é ferramenta pública.
— Mãe...
— Wellington.
Ela disse o nome inteiro. Ele parou.
Heren veio por trás com uma tira fina de bambu, marcada a carvão com o emblema da oliveira.
— Usa isso.
Era ferramenta de teste, não arma. Wellington a pegou e encostou a ponta na superfície da fonte.
Por um instante, nada aconteceu. Então a água subiu pela fibra — não molhando, mas avançando como se alguém a sugasse por dentro do bambu.
Marta soltou a corda. A cabra fugiu três passos e se escondeu atrás de Diogo. Ele não fez piada.
Wellington puxou a tira de volta. A água não pingou. Permaneceu presa à ponta, formando uma gota comprida demais, apontada para o sul.
Kauã falou primeiro:
— Tem outra passagem.
Alessandra olhou para a fonte, para a mesa e, por fim, para a corda que fechava a trilha.
— Ou a mesma passagem é maior do que parece.
Sandra percorreu a praça com os olhos. Não observava pessoas; contava perdas. Fonte. Curral. Trilha. Crianças. Armazém. Oficina. Sul. Norte.
Quando Sandra pensava daquela forma, a vila mudava antes mesmo de ouvir a ordem.
— Joel.
O homem do armazém endireitou as costas.
— Sim.
— Fecha o estoque de água. Ninguém pega dos barris sem você ver.
— Tem barril para dois dias.
— Então agora temos dois dias.
Ele engoliu em seco.
— E depois?
— Depois a gente ainda vai estar vivo para discutir.
Sandra se virou para Marta.
— Leva os animais para o pátio alto. Nenhum fica perto da fonte.
— Todos?
— Todos.
Marta olhou para a cabra e depois para a água muda.
— Meu quintal virou aviso agora?
— Virou — Sandra respondeu, mais baixo.
Marta não gostou, mas puxou a cabra.
Davi apareceu atrás dela, segurando um pedaço de corda e tentando parecer menor do que era. Wellington percebeu tarde demais. Sandra viu na mesma hora.
— Davi.
O menino congelou.
— Eu só vim ajudar.
— Onde você pegou isso?
Davi olhou para a própria mão. A corda era fina, velha e úmida. Tinha três nós curtos e um longo.
Wellington sentiu a costela desaparecer dentro de outra dor. Kauã já estava ao lado do menino.
— Veio de onde?
Davi apertou a corda.
— Do cocho.
— Qual cocho? — perguntou Sandra.
Ele apontou para o curral.
— O que apareceu com o marco.
Diogo deu um passo na direção do sul. Sandra nem precisou falar; Kauã ocupou o espaço diante dele. Não o empurrou. Apenas escolheu o ângulo que obrigaria Diogo a passar por cima dele para continuar.
— Sai.
— Não.
— Kauã.
— Sandra mandou ninguém descer.
— Isso é no curral.
— É por baixo.
A frase atingiu todos.
Davi começou a chorar sem escândalo. O rosto ficou vermelho, os olhos se encheram, e ele pareceu entender tarde demais que brincar com coisa errada não acabava em bronca. Acabava no medo dos adultos.
Alessandra se ajoelhou diante dele.
— Você ouviu alguma coisa quando pegou a corda?
Davi balançou a cabeça, mas interrompeu o gesto no meio.
Sandra baixou a voz.
— Davi.
Ele procurou Wellington, não ela.
— Eu ouvi primeiro debaixo do cocho.
— Primeiro o quê? — perguntou Wellington.
O menino apertou a corda até os dedos embranquecerem.
— Tac.
Ninguém se mexeu. A água continuava caindo sem som.
— Depois respondeu na fonte — Davi completou entre duas respirações quebradas.
Heren segurou a corda com cuidado. Não puxou; esperou o menino soltá-la.
Ela estava limpa demais, igual ao marco. Sem barro, sem palha, sem cheiro de curral.
Heren a aproximou da gota presa ao bambu. A gota se esticou, e a corda tremeu.
Tac.
O som veio baixo, mas não da corda.
Veio do chão.
Diogo segurou o machado com as duas mãos.
— Sandra.
— Não.
— Está embaixo da vila.
— Por isso você não vai bater às cegas.
— E se subir?
Sandra sustentou o olhar dele.
— Então você fica onde eu mandar e segura quando for hora de segurar.
Diogo travou o maxilar. Obedecer, para ele, às vezes parecia apanhar sem poder devolver.
Sandra se aproximou. Não tocou seu rosto nem o abraçou. Apenas ajustou a correia do machado nas costas dele, firme demais para ser carinho, cuidadosa demais para ser somente uma ordem.
— Se você descer agora, ele aprende você também.
A raiva de Diogo não desapareceu. Apenas mudou de lugar.
— Onde eu fico?
— Na praça.
— Isso é castigo?
— É muralha.
Ele respirou pelo nariz e aceitou, porque Sandra usara a palavra certa.
Wellington tornou a olhar para a fonte. O silêncio da água já contaminara tudo: as conversas tinham baixado, as portas estavam mais abertas e as crianças permaneciam perto das saias e pernas dos adultos.
Sem que ninguém precisasse escrevê-la, a vila aprendera uma regra: não confiar no caminho de baixo.
Alessandra se levantou. Entre ela e Heren estavam a corda e a gota presa ao bambu.
— Tem duas coisas acontecendo.
Sandra se virou.
— Fala.
— A fenda chama o que pertence a ela: sangue, água, talvez madeira marcada. Ao mesmo tempo, a vila está sendo medida por repetição.
Wellington olhou para ela.
— Ritmo.
— Ritmo, rota e resposta.
Kauã voltou os olhos para o curral.
— Começou no sul, apareceu no norte, respondeu na fonte.
— Então o próximo ponto não precisa ser perto — concluiu Wellington.
A ideia mal se instalou na praça. Sandra a cortou antes que virasse pânico.
— Kauã, marca telhado, fonte, curral e armazém. Quero linha de visão entre todos.
— Já comecei.
— Começa de novo e me mostra onde falhou.
Kauã aceitou a bronca sem piscar.
— Sim.
— Heren, leva a corda, o bambu e a espada para a oficina. Nada toca a terra.
— Se tocar?
— Me chama antes de mentir que controlou.
Heren soltou pelo nariz um som quase parecido com riso.
— Justo.
— Joel, ninguém fica sozinho no armazém.
Joel encarou o próprio prédio como se ele tivesse mudado de dono.
— Nem eu?
— Principalmente você.
Sandra se virou para Wellington. Ele já sabia.
— Eu fico sentado.
— Não. Você fica comigo.
Aquilo o pegou pior.
— Por quê?
— Porque você ouviu o ritmo uma vez. Se ele mudar, quero sua cara perto para entregar antes da sua boca inventar coragem.
Diogo riu, baixo. Wellington apontou para ele.
— Muralha não ri.
— Isca não manda.
— Eu não sou isca.
Sandra olhou para os dois, e a discussão morreu ali.
Davi ainda parecia pequeno demais no meio da praça. Marta voltou, pegou-o pelo ombro e o puxou para perto.
— Ele vai ficar comigo.
Sandra assentiu.
— E longe de cocho, fonte, corda, sino, buraco, marca e qualquer coisa que pareça chamar.
Davi limpou o nariz com o braço.
— Posso ficar longe de tudo?
Marta respondeu antes de Sandra:
— Hoje pode.
A primeira batida veio quando Heren levantou a espada da mesa.
Tac.
Todos ouviram. Heren congelou.
A segunda veio da fonte.
Tac.
A terceira, do curral.
Tac.
Não eram ecos. Eram respostas, uma depois da outra.
Sul. Fonte. Curral.
A Aura Rosa se arrepiou sob a pele de Wellington, não como força, mas como aviso. Por um instante, a praça inteira ficou nítida demais: a mão de Diogo no machado, o olhar de Sandra saltando entre os pontos, Kauã já procurando altura, Alessandra medindo o intervalo das batidas, Davi prendendo o choro.
Então veio a quarta.
Tac.
Do armazém.
Joel ficou branco.
Sandra não correu. Correr seria admitir que a vila perdera o centro. Ela apenas puxou a lâmina curta da cintura, limpa e verde sob a luz da manhã.
— Ninguém fica sozinho.
A água da fonte voltou a produzir som. Não trouxe alívio.
Junto ao ruído da água, alguma coisa respondeu lá embaixo, sob a praça, no mesmo ritmo.
Tac.
Tac.
Tac.
Mais perto.