Capítulo 1 — O Sul Morde Primeiro

Capítulo 1 — O Sul Morde Primeiro


— O terceiro marco do sul apareceu no curral.

Sandra disse isso antes do café.

A sala ficou parada.

Não por medo.

Por costume antigo.

Na casa Oliveira, certas frases não entravam como notícia. Entravam como lâmina.

A manhã ainda era azul por fora. A névoa da Montanha encostava nas janelas baixas, grossa o bastante para apagar a distância entre uma casa e outra. Dentro, o fogo pequeno do fogão deixava manchas de cobre na madeira escura, no mapa aberto sobre a mesa e nas roupas de combate dobradas sobre cadeiras que ninguém chamava de trono.

Preto fosco.

Cinza grafite.

Violeta profundo gasto pelo uso.

Não era enfeite. Era o tipo de roupa que tinha sido feita para entrar em mato, pedra, sangue e voltar sem pedir desculpa ao tecido.

Diogo parou de mastigar.

A mão dele desceu antes da raiva subir. Encontrou o cabo do machado encostado ao banco, como se o machado não estivesse ali apoiado, mas esperando a terceira mão do corpo dele acordar.

Alessandra ergueu os olhos do mapa.

A luz pegou um detalhe prata opaca na faixa dela e morreu ali, sem brilho bonito. Os dedos finos pararam sobre uma curva do sul, precisos demais para parecerem em repouso.

Kauã, perto da porta, colocou sobre a mesa um pedaço de bambu marcado com tinta vermelha. Três riscos curtos. Um risco longo.

A manga escura dele estava presa no antebraço por uma tira simples. O emblema da oliveira, pequeno e quase apagado no ombro, parecia mais cicatriz do que símbolo.

Wellington reconheceu antes de tocar.

— Esse é o marco da curva baixa.

— Era — Kauã respondeu.

Diogo empurrou o banco com o joelho.

— A curva baixa fica no sul. O curral fica no norte.

— Por isso eu trouxe.

Sandra pegou o bambu e virou a parte enterrada para a luz.

O violeta frio da roupa dela parecia cinza até a sombra mudar. Não havia metal demais, nem ornamento. Só tecido denso, couro tratado, faixa ritual presa sem folga e uma lâmina curta perto da cintura, quieta como decisão que ainda não precisou falar.

A madeira estava sem barro grudado. Sem raiz partida. Sem arranhão de pedra.

Aquilo incomodou mais do que uma marca de garra.

— Pegada?

Kauã negou.

— Nada.

Diogo já estava com a mão inteira no machado.

— Eu desço.

— Você faz barulho até respirando — Sandra disse, sem levantar os olhos do bambu.

Diogo abriu a boca.

Sandra olhou para Wellington.

— Você vai.

Wellington tirou a espada da parede.

A lâmina era simples no primeiro olhar. Simples demais. Corte limpo, guarda sem vaidade, cabo escuro gasto no ponto exato dos dedos. A roupa dele seguia a mesma austeridade da casa: negro-violeta sem ostentação, tecido justo o bastante para não prender movimento, uma faixa interna onde a pequena oliveira estilizada aparecia só quando o corpo girava.

Alto, seco, forte sem excesso.

Um homem que não parecia rico.

Parecia difícil de comprar.

— Se eu morrer, você pode ficar com meu café.

— Generoso — Diogo respondeu.

Sandra segurou o bambu diante dele.

— Você lê, marca e volta. Não compra briga.

— E se a briga comprar primeiro?

Sandra demorou meio segundo.

— Venda caro. Mas volte.

Isso tirou o humor da sala.

Sandra não falava assim para dramatizar. Se ela deixava combate entrar na frase, o sul já tinha passado de trilha errada.

Kauã abriu a porta. A névoa entrou antes dele terminar o gesto.

— O vento está voltando lá embaixo.

— Vento não volta — Wellington disse.

— Esse volta.

O dia mal tinha começado, e a Montanha já estava sendo inconveniente.

Wellington desceu sozinho.

Era o certo.

Diogo transformaria sinal em duelo. Alessandra tentaria entender cada detalhe até o detalhe morder de volta. Kauã era útil demais no alto, onde qualquer coisa tentando contornar a vila passaria primeiro pelos olhos dele.

A missão era simples: achar o buraco do marco, ler o rastro e voltar antes que Sandra fechasse o sul por uma semana.

Se Sandra fechasse o sul, a vila perderia duas áreas de coleta, uma passagem de caça e a rota curta até a pedreira baixa.

O primeiro marco estava no lugar.

O segundo também.

O terceiro não.

Wellington se agachou junto ao buraco.

A terra não estava revirada. O marco não tinha sido arrancado. Parecia ter afundado sem pedir licença ao chão.

A barra negro-violeta da manga tocou a grama molhada. A Montanha sujou o tecido sem conseguir tirar dele a impressão de ordem.

Ele encostou dois dedos na borda.

Frio.

Frio em terra úmida era comum.

Frio de pedra guardada no fundo de poço, não.

— Já começou errado.

A Aura Rosa subiu sem brilho excessivo, mais pressão do que luz. Primeiro no peito, depois nos ombros, depois nos dedos. A trilha ficou nítida demais por um instante: inclinação, umidade, peso do ar, pequenas falhas no capim pisado.

Debaixo do buraco havia espaço.

Não muito.

O bastante para alguma coisa passar.

Wellington levantou.

A resposta correta era voltar.

Ele deu um passo para cima.

Tac.

O som veio da curva baixa.

Madeira contra pedra.

Wellington ficou parado.

Tac.

De novo.

Mesmo intervalo.

Mesma força.

Não era acaso.

Era chamado.

— Eu vou me arrepender disso.

Desceu.

Na curva, o bambuzal tinha aberto uma passagem nova. Estreita, sem folhas no chão.

Lugar vivo deixava sujeira. Lugar usado deixava rastro.

Aquilo não tinha nenhum dos dois.

Era como se a trilha tivesse sido arrumada para alguém perceber.

Ele sacou metade da espada e entrou.

Três passos depois, o ar mudou.

O frio da trilha ficou para trás. Um bafo morno veio de baixo, com cheiro de metal fechado e terra antiga.

A abertura estava entre duas pedras negras.

Uma fenda.

Estreita.

Funda.

E diante dela, a besta.

Não era tigre.

Era grande demais.

Quieto demais.

O pelo negro engolia luz. As listras apareciam apenas quando a névoa se movia, sombra dentro de sombra. A pata dianteira direita afundava meio dedo a mais no chão.

A besta virou os olhos âmbar para ele.

Não rosnou.

Não mostrou dentes.

Só mediu.

Wellington terminou de sacar a espada.

A fenda soltou ar quente.

Wellington recuou um passo.

Já bastava. Fenda nova, passagem por baixo da trilha, besta guardando a abertura, marco deslocado sem marca de mão. Sandra precisava ouvir aquilo antes que Diogo descesse com o machado e a certeza errada.

A besta atacou antes que ele virasse.

O corpo negro cruzou a distância sem aviso.

Wellington ergueu a espada. A pata bateu na lâmina e empurrou seus braços contra o peito. O impacto o jogou no bambuzal. Dois caules quebraram nas costas dele.

Ele rolou antes do segundo golpe.

As garras rasgaram a pedra onde sua cabeça tinha estado.

Wellington viu os riscos fundos.

— Certo. Não bloquear.

A fera virou rápido demais para o tamanho que tinha.

Wellington chutou uma pedra contra o focinho dela.

A pedra estourou no ar antes de tocar.

Nem pedra passava.

Aquilo não era só couro duro.

A Aura Rosa se adensou ao redor dele. O bambuzal tremeu, e a fera hesitou por uma fração curta demais para qualquer homem comum aproveitar.

Wellington aproveitou.

Entrou na fração e cortou o ombro direito.

A lâmina abriu o pelo negro e arrancou sangue escuro.

Pouco.

Mas o bastante para cair no chão.

O sangue tentou correr de volta para a fenda.

Wellington entendeu tarde demais.

Aquilo não defendia apenas o corpo.

Defendia a abertura.

A cauda veio de lado.

Ele abaixou tarde.

O golpe acertou sua costela e o jogou de joelhos. O ar saiu dos pulmões. A trilha virou mancha, névoa e dor.

A besta podia terminar.

Não terminou.

Parou.

Observando.

Wellington respirou uma vez.

Duas.

A roupa escura tinha aberto no braço. O tecido rasgado pendia molhado de sangue, violeta e vermelho tentando virar a mesma cor na sombra.

Ela não lutava como predador.

Atacava, media, pausava.

Se ele usasse mais, ela veria mais.

Se não usasse o bastante, morreria ali.

A fera avançou.

A pata direita falhou de novo.

— Você não cabe direito nesse corpo.

A besta rugiu.

O som sacudiu o bambuzal. Folhas caíram. Pássaros fugiram mais abaixo.

Bom.

Kauã ouviria.

A besta saltou.

Wellington largou a espada no chão, com a lâmina virada para cima, e recuou.

A fera corrigiu o corpo no ar para evitar o corte. A pata direita tocou fora do eixo.

Wellington avançou por baixo da mandíbula, puxou a espada de volta e raspou a lâmina na parte interna da perna dianteira. Deixou um fio de Aura Rosa entrar junto com o corte.

A fera travou.

Não por dor.

Por interferência.

O ombro direito perdeu ritmo.

Wellington saiu antes da mordida.

Quase.

Os dentes arrancaram tecido e pele do braço dele.

Ferida feia, mas comum.

A fenda pulsou mais forte. Ar quente bateu nas costas de Wellington.

A besta usou o mesmo truque que ele tinha acabado de usar.

Jogou o peso para a esquerda, fingiu falha na direita e atacou no ângulo morto.

Wellington só escapou porque reconheceu o próprio engano no corpo dela.

As garras rasgaram seu peito de leve, mas não pegaram osso.

Ele recuou três passos.

A fera apoiou a pata direita.

Firme demais.

Moveu o ombro uma vez.

Duas.

Testando.

Corrigindo.

Aprendendo.

Wellington sentiu a luta mudar de dono.

Sandra mandou ler, não alimentar o inimigo com segredo.

Ele leu.

Agora precisava voltar.

Wellington pegou um pedaço de bambu quebrado, passou Aura Rosa pela fibra e arremessou direto na fenda.

A besta pulou para interceptar.

Não protegeu o próprio peito.

Protegeu a abertura.

Wellington correu. Cortou duas hastes no caminho e subiu a trilha sem olhar para trás.

A fera não perseguiu.

Pior.

Tac.

Tac.

Tac.

Wellington olhou por cima do ombro.

A besta estava diante da fenda, batendo a pata direita no chão.

No mesmo ritmo que ele tinha usado para fingir recuo antes do golpe.

Tac.

Pausa.

Tac.

Mais rápido.

Mais limpo.

Wellington subiu correndo.

No segundo marco, Kauã já estava no barranco, arco armado.

Ele parecia ter nascido naquela beirada: escuro contra o capim úmido, corpo magro, olhar vivo demais, o emblema pequeno no ombro quase escondido pela tira do arco. Os olhos dele foram direto para o sangue.

— Seu?

— Meu e dela.

— Ela veio?

— Não.

— Então por que está correndo?

Wellington passou por ele.

— Porque ela ficou treinando.

Kauã ficou parado um segundo.

Depois correu também.

Na praça, Diogo viu os dois chegando e pegou o machado.

Não puxou a arma.

Pegou.

Como se chamasse uma parte do próprio corpo pelo nome.

A roupa dele era mais pesada que a dos outros, escura, reforçada nos ombros, com costuras cobre e vermelho escuro nas bordas. Tinha o peso de alguém feito para ficar onde o chão falha. O machado, largo e marcado pelo uso, descansou na mão dele sem parecer carregado.

Pareceu lembrado.

— Quem fez isso?

— Guarda o machado.

— Eu perguntei quem fez.

Wellington colocou a espada sobre a mesa de pedra.

O sangue negro ainda se movia na lâmina, tentando escorrer para o sul.

Diogo parou.

Alessandra chegou logo depois.

Não olhou primeiro para o corte no peito de Wellington. Olhou para a direção em que o sangue tentava fugir.

Depois ficou pálida.

Sandra saiu da oficina.

Não perguntou se Wellington estava bem.

Olhou para o peito, para o braço rasgado, para a espada e, por último, para o rosto dele.

A presença dela cortou o ar antes da voz. Violeta frio, cinza-violeta, lâmina quieta, autoridade sem ruído.

— Relatório.

— Fenda na curva baixa. Besta negra guardando. Corpo parecido com tigre, mas maior. O terceiro marco não foi carregado. Passou por baixo da trilha.

Alessandra tocou a mesa perto do sangue, sem encostar nele.

— Isso está tentando voltar.

— Eu percebi.

Diogo apertou o cabo do machado.

— A gente desce agora.

— Não — Wellington disse.

— Ela te abriu.

— E eu abri ela. Esse não é o problema.

— Então qual é?

— Ela aprende rápido demais.

Kauã completou, baixo:

— Ele disse que ela ficou treinando.

Sandra ficou imóvel.

— Treinando o que?

Wellington apontou para a própria costela.

— Meu recuo falso. Minha mudança de peso. A resposta ao corte por dentro. Eu feri a pata direita, ela corrigiu. Depois fingiu a mesma falha para me puxar.

Diogo perdeu um pouco da raiva.

Só um pouco.

— Um bicho fez isso?

— Não é um bicho.

Alessandra olhou para o sul.

— É sondagem.

Sandra enfim pegou a espada de Wellington.

O sangue negro tentou subir pelo metal em direção à mão dela.

Um brilho verde acendeu nos dedos de Sandra.

Não foi grande.

Não precisou ser.

O sangue parou.

Não recuou.

Parou.

Como se também estivesse observando.

Sandra fechou a expressão.

— Diogo, ninguém desce sem minha ordem. Kauã, fecha as rotas laterais. Alessandra, quero saber se existe outra passagem por baixo da vila. Wellington...

Ele olhou para ela.

— Você vai sentar antes de cair.

— Estou bem.

— Não me responde com coragem falsa.

Diogo soltou um riso curto.

Wellington sentou.

A postura ainda tentava manter nobreza.

O corpo discordava em sangue.

Sandra manteve os olhos no sangue.

Lá embaixo, longe demais para gente comum ouvir, algo bateu pedra contra pedra.

Tac.

Tac.

Tac.

O mesmo ritmo.

Dessa vez, Diogo ouviu.

A praça inteira ficou quieta.

Wellington disse o que ninguém queria dizer:

— Não subiu para caçar.

O sangue na espada tremeu.

— Subiu para estudar a gente.